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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

D. Carlos I: um centenário

 
Faz hoje cem anos que D. Carlos I foi assassinado.
Sou visceralmente contra a pena de morte e contra os assassinatos de qualquer natureza. Estou contra o assassinato de D. Carlos e D. Luís Filipe, contra o de Buíça e de Costa, os assassinos.
Não festejo nenhuma das mortes, nem considero uns como dignos de serem vítimas e outros como devendo ser incensados como heróis.
Procuro compreender o acontecimento, nada mais.
 
D. Carlos I era um homem culto e inteligente, educado para ser rei. Tinha sentido de Estado. Mas era, também, um homem arrogante, distanciando-se de todos os que o serviam por ter bem arreigado em si a superioridade de um sentimento fora do tempo: a de um absolutismo sem lugar no começo do século XX. Às suas qualidades correspondiam os defeitos inerentes. Podia ser amado por quem o aceitasse tal qual era, mas detestado por todos quantos não lhe reconhecessem direitos de superioridade para além dos que resultavam de ser o descendente de uma antiga família. Mas, famílias antigas, não faltam em Portugal!
 
D. Carlos foi vítima de si mesmo, tal como o foram os seus assassinos. Todos escolheram os caminhos que haviam de trilhar os quais desembocaram, encontrando-se e cruzando-se, há cem anos, na praça do Comércio.
 
D. Carlos foi vítima do circunstancialismo político que rodeou os últimos anos da Monarquia. Uma Monarquia em decadência, por causa da decadência dos partidos políticos que a sustentavam e lhe davam rosto, por causa de um país atrasado, analfabeto, economicamente débil. Um país onde abundavam as fortunas pessoais, os compadrios, os favores políticos, a sinecuras, as traficâncias políticas, a corrupção e, para que tudo isto fosse possível, de quando em vez, afloravam as medidas repressivas: a lei da rolha para a imprensa e as deportações sumárias dos adversários políticos para as terras de África e de Timor. O 31 de Janeiro de 1891, celebrado ontem, foi testemunha de mortes, feridos e deportados com que se iniciou o reinado de D. Carlos I.
 
Ainda se contam por algumas dezenas os políticos — incluindo neles os Chefes de Estado — que, em Portugal, foram vítimas de assassinatos, mas de todos poderíamos dizer o mesmo que de D. Carlos: estavam no momento errado, no país errado a dar continuidade à política errada. Recordemos Inês de Castro, mandada matar por D. Afonso IV — foi, sem qualquer dúvida, um assassinato político — o conde Andeiro ferido de morte, em 1385, por aquele que veio a ser D. João I, o infante D. Pedro, morto em Alfarrobeira — também num assassinato político — D. Diogo, duque de Viseu, assassinado, em 1484, por D. João II, Miguel de Vasconcelos morto pelos Restauradores, em 1640, os Távoras mandados assassinar por D. José I e tantos mais que enumerar seria fastidioso. Todos se encontravam mal colocados no tabuleiro da política nacional.
 
O alarido à volta deste centenário resulta, enfim, de ainda existir em Portugal quem acalente a peregrina ideia de uma restauração monárquica. Nada mais! Ou, talvez, porque ainda há quem sonhe com casamentos reais, com nobilitações — que não resultem das que vêm do honesto trabalho, forma nobilitante de burgueses e proletários! — sonhe com pompas e circunstâncias que tiveram a sua época e são inadequadas a um país que se debate numa crise económica tremenda, que, mais uma vez, mostra não conseguir passar da cauda da Europa seja esta a doze ou vinte e sete. Isto, ao cabo e ao resto, quer dizer, tão-somente que, como Povo, continuamos iguais há cem anos. Talvez, com menos analfabetos, com melhor sistema sanitário, mas com as mesmas características que nos apoucam no contexto de todos os europeus.
 
Que os monárquicos celebrem a morte do seu rei em paz e que os republicanos chorem a morte de Buíça e Costa, os regicidas, é a demonstração de quanto uns gostavam de um Portugal atrasado e outros de um Portugal evoluído. Para mim, nada mais representa do que o fruto de uma rivalidade que já não tem razão de ser, porque os rios correm para o mar e a mesma água não passa duas vezes por baixo da mesma ponte.

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