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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

26.12.05

Uma visita e uma entrevista (I)


Luís Alves de Fraga

Foi notícia nos jornais de hoje (26 de Dezembro) a inesperada visita de José Sócrates e de Luís Amado, respectivamente, primeiro-ministro e ministro da Defesa Nacional, às tropas portuguesas estacionadas em Cabul — 156 militares, no Afeganistão. Levaram-lhes bolo-rei e vinho do Porto.


O meu primeiro comentário vai no sentido do piroso, do ridículo, do demagógico, que tem esta deslocação dos ministros a terras tão distantes. Quem como nós, os militares da minha geração, esteve nas colónias de África durante 13 anos de guerra e éramos uns largos milhares — cerca de 50.000, em permanência, por três teatros de operações, no final dos anos 60 e no começo dos de 70 — sente vontade de rir quando o primeiro-ministro se desloca para consoar com uma centena e meia de militares! É ridículo e demagógico. Mas é, acima de tudo isso, falso. Falso, porque corresponde a nada. Nada, para além de simples acção de propaganda.


Pese toda a minha velha e desgastada antipatia pelos mais altos responsáveis do Estado Novo, mas, ao menos, esses eram coerentes. Mandavam-nos para os calores africanos e consolavam-se com as filhós de Natal, sentadinhos nas suas super confortáveis e aquecidas salas de jantar, em Lisboa. Não precisavam de fingir ou enganar ninguém! De vez em quando, lá nos apareciam umas senhoras, tentando trajar a farrapilha de beneméritas, distribuindo uns cigarros pelas praças. Eram as senhoras do falecido Movimento Nacional Feminino. Agora são ministros que, em lugar de cigarros — acção politicamente incorrecta —, levam bolo-rei e vinho do Porto!


Valha-lhes Santo António de Lisboa, porque o de Pádua é italiano!


 


No Correio da Manhã de hoje, vem uma entrevista com o ministro da Defesa Nacional, Luís Amado (espero que pela família, pois, pelos militares já vai sendo pouco!).


Não vou reproduzir aqui as respostas do senhor ministro, todavia, não resisto a deixar algumas frases lapidares pronunciadas por aquele membro do Governo, não fugindo a comentá-las, provando o quanto falaciosas elas são.


Repare-se neste excerto digno de toda a nota:


Tenho sublinhado que é necessário reajustar, numa perspectiva de médio e longo prazo, os estatutos remuneratórios dos diferentes corpos do Estado. Mas, para isso, é absolutamente indispensável que as Forças Armadas se modernizem, se reestruturem e se reorganizem com vista ao novo papel que lhes deve ser cometido no âmbito do exercício das funções do Estado. Repare-se que, entre 1974 e o final dos anos 90, o papel das Forças Armadas na sociedade portuguesa não estava tão bem definido como antes, nem como se percepciona hoje face ao novo desafio com que somos confrontados.


O que nos diz o senhor ministro? Para além de banalidades, diz-nos que vencimentos equiparados aos dos restantes funcionários do Estado, tal como o foram no passado, só os terão os militares quando as Forças Armadas se reorganizarem, se modernizarem e se reestruturarem. Isto é, trocando por miúdos, nunca mais haverá vencimentos condignos, porque a tentarem modernizar-se, reorganizar-se e reestruturar-se andam as Forças Armadas, desde que acabou a guerra em África ou, para ser mais preciso, desde 1976. Têm sempre faltado verbas para assim poder acontecer.


O senhor ministro ou nos está a tomar por parolos ou quer fazer de nós parolos, mas, sem dúvida nenhuma, está a intoxicar a opinião pública contra as Forças Armadas, fazendo passar a mensagem — falsa, altamente falsa — de que não tem havido esforço nos sentidos que indica. Isto, no mínimo, é perverso. É perverso e tem de ser vigorosamente desmentido. Olhos nos olhos. Tem de se exigir verdade, de um ministro de um Governo nacional.


O senhor ministro para disfarçar diz, ingenuamente, de seguida, «com vista ao novo papel que lhes [às Forças Armadas] deve ser cometido no âmbito do exercício das funções do Estado». Realmente, o que é que esta frase quer dizer? Mas que novo papel podem desempenhar as Forças Armadas? De bombeiros? De guarda-nocturno? De varredores? De quê? Que novo papel vai inventar o senhor ministro e a sua equipa para as Forças Armadas? Elas sempre tiveram a mesma missão, o mesmo papel: garantir a defesa da soberania e independência do território nacional. Secundariamente, esta missão pode passar pelo exercício de acções conjuntas ou isoladas fora do território nacional, servindo a política externa portuguesa, na defesa dos interesses de Portugal. Este foi, é e será sempre o papel das Forças Armadas portuguesas.


E o resto da afirmação do senhor ministro continua a ser palha para papalvos comerem. Demagogia e falsidade.


Hoje, valerá a pena ficar por aqui. Amanhã voltarei à entrevista do licenciado em Economia, Luís Amado.

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