![]()
Quem não se lembra da Edite Estrela, comentadora de Língua Portuguesa na televisão? Provavelmente, só os mais novos dos meus leitores, porque os entradotes devem recordar-se, suficientemente bem, dos notáveis dotes docentes dessa, então, jovem professora. Se a memória não me atraiçoa, até o Herman José terá tido problemas do foro judicial por causa de uma qualquer blague que fez a propósito dos atributos da Edite Estrela. Enfim, outros tempos e outras andanças.
Da Língua Pátria a licenciada Edite Estrela — por parte do ex-marido, entenda-se — passou a servir a Pátria em lugares de mais importância e mais destaque: deslocou-se para a política e filiou-se no Partido Socialista.
Dominando a Língua na perfeição, não lhe foi difícil fazer carreira no Partido do Dr. Mário Soares, passando de líder para líder sem grandes sobressaltos, facto que lhe permitiu vir a ocupar lugares de destaque, nomeadamente, presidente da Câmara Municipal de Sintra. Nessa altura ganhou estatuto de grande senhora no PS. Ei-la recompensada de tantas canseiras, correndo a ocupar o lugar de deputada no Parlamento Europeu. Um bom lugar para poder fazer um pequeno pé-de-meia necessário para mais facilmente enfrentar a descida da curva da vida, porque já não é assim tão nova como quando apareceu na televisão a ensinar-nos Português.
Há tempos, uma dessas revistas semanais — a Sábado —, logo na primeira página, chamava a atenção para a notícia que se desenvolvia no interior: Edite Estrela, não satisfeita por ganhar uma excelente maquia no Parlamento da União, tinha resolvido dar emprego como seus assistentes à enteada — D. Marta Vieira — e ao seu genro — Sr. Pedro Garcia Cardoso. Não é nada mau como aconchego financeiro e trampolim para outros voos políticos se os escolhidos tiverem jeito e capacidade de adaptação.
Não é o orçamento nacional quem lhes paga?! Não me interessa. São pagos por um orçamento feito à custa dos impostos de alguém e isto, no mínimo, é vergonhoso, para não ter de considerar que eticamente não está correcto.
A Edite Estrela não é a única. O Dr. Pedro Santana Lopes, tanto quanto julgo saber, também nomeou para seu assistente ou assessor no Parlamento nacional, o filho. Esse já é pago, sem sombra de dúvidas, à custa do nosso dinheiro!
Não se trata de discutir a importância dos pagamentos. Isso é ridículo e, até, mesquinho. Não é por uns milhares de euros que os orçamentos da União ou de Portugal vão ao caminhar para um maior deficit. Não senhor!
Realmente chocante é que os sistemas delatórios do aparelho do Estado funcionem para perseguir aquele que contou uma graça sobre o tão famoso grau de licenciado do primeiro-ministro e não funcionem para evitar que sejam permitidos estes desvios éticos que a mais elementar moral política deviam proibir, condenando os seus autores. Isso é que choca quando, a par de um silêncio conivente, o Governo resolve actuar excluindo do apoio sanitário e medicamentoso do sistema de saúde dos militares os cônjuges destes, se forem beneficiários de um qualquer outro sistema.
Compreende-se que os cônjuges dos militares são uns milhares e que as Edites Estrelas são meia dúzia e que não há comparação possível entre os gastos de uns e de outros. Compreende-se quando se faz a análise dos números, mas repugna quando se olha para o princípio ético que dita um e outro comportamento, que dita uma e outra disparidade de critérios.
A mulher de César não precisa de ser séria, necessita, também, de parecer!
Esta é a grande trave mestra que deve sustentar o comportamento público dos políticos de todos os países.
Por estranho que possa parecer, o ditador António de Oliveira Salazar, o homem que permitiu e impôs a censura e a polícia política, que manteve na mais chocante miséria os trabalhadores deste país, que estratificou a sociedade portuguesa, aceitando a mobilidade social que vinha do esforço intelectual, teve sempre o cuidado de aplicar a toda a classe política uma moral de aparências bastante rigorosa, a qual só era trespassada nos casos em que ele próprio via conveniência para corromper e garantir a fidelidade política. Tendo podido rodear-se de todos os luxos e grandezas, tendo-lhe sido possível arranjar para os familiares bons lugares, era irmão de uma professora primária e, segundo consta, na conta que deixou no banco, após a sua morte, pouco mais havia do que a poupança de um modesto funcionário público.
Salazar terá permitido muita pulhice, mas impôs uma moral aparente que levou a que alguns portugueses, mal informados, acabassem, num concurso televisivo que foi uma farsa, nomeando-o o português mais representativo de todos os tempos. Este foi o poder de uma moral cheia de brechas, mas de uma moral política que queria disfarçar-se.
Nada desculpa a ditadura, mas ela pode servir, em alguns — poucos — aspectos de exemplo para os actuais governantes do nosso país.
Nos tempos que correm o despudor político é total. E, pior, permitido por gente que se diz socialista e democrata.