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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

O salto de D. João II

 
As ossadas de D. João II deram um salto no túmulo onde repousam! A coisa ocorreu há poucos dias.
Esse monarca, filho de D. Afonso V, o batalhador incansável que no Norte de África quis fundar um outro Algarve — o de além-mar — grande e poderoso e, já para o fim da vida, guerreou Castela para garantir o direitos de sua sobrinha — a Beltraneja — à coroa daquele reino de Espanha, esse monarca, dizia, conta a lenda, ao subir ao trono, após a morte do progenitor, terá declarado que o pai o deixara rei das estradas e caminhos de Portugal, já que os bens da casa real os havia distribuído pela nobreza em paga dos serviços prestados nas muitas guerras por si travadas.
 
Pois é! As ossadas daquele a quem a História apelidou de Príncipe Perfeito deram um salto ao saber, lá no assento etéreo onde o seu espírito repousa, que um tal José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal, havia arrendado, para exploração privada, a única coisa que ele herdada de seu pai: as estradas e caminhos do reino!
Está de rastos o tesouro real! É que já não havendo anéis para vender, cortam-se os dedos e trocam-se, alugam-se ou empenham-se pelo melhor preço que qualquer comerciante de macabros bens esteja disposto a dar para, com as unhas mortas, tocar a guitarra, conforme lhe for possível.
 
O leitor terá percebido bem o alcance desta concessão, até 2099, da exploração das estradas nacionais?
Isto é, por um lado, esvaziar o Estado dos encargos de manutenção e conservação dos caminhos que todos nós percorremos; por outro, dar a possibilidade de voltarmos à situação medieval de, para nos deslocarmos, ter de pagar sucessivas portagens para «entrar» nos vários «domínios senhoriais» que a assembleia-geral da Estradas de Portugal S. A. entender estabelecer. Já não bastavam as auto-estradas… Agora até as estradas, por mais miseráveis que sejam, podem ter portageiro.
Quando se dá de concessão as estradas de um país é porque já nada é do Estado!
 
Não nos venham os governantes tentar nublar o entendimento com justificações diversas! A atitude marca pelo princípio que foi quebrado. Já que não há alfândegas para dar como garantia dos empréstimos contraídos — tal como era prática nos últimos Governos da Monarquia — dão-se as estradas!
 
D. João II, face à miséria do tesouro real, tomou uma resolução revolucionária: inventou, dizem, uma conspiração da grande nobreza do reino contra a sua real pessoa e matou e mandou matar os dois nobres mais ricos para lhes ficar com os bens. Por outras palavras, utilizando uma linguagem de hoje, nacionalizou-lhes os cabedais.
Antes, em 1383-1385, já D. João I, o que havia sido mestre da Ordem Militar de Avis, adoptara igual medida contra os nobres que, seguindo a tradição da época, se haviam colocado ao lado de D. Beatriz e de D. Juan de Castela. Muito mais tarde, o mesmo expediente foi usado pelo rei D. Pedro IV — então mero regente em nome da sua filha D. Maria da Glória — quando, por extinção das ordens religiosas, lhes ficou com todos os bens de raiz. Da venda a particulares viveu, enquanto pôde, a Monarquia constitucional. A República, logo em 1911, fez algo semelhante: apoderou-se dos bens da Igreja e, embora não vendendo os mosteiros e conventos, neles, sem dispêndio para a fazenda nacional, fez instalar escolas, institutos e quartéis — agora negociados pelos governos democráticos que nos desgovernam. De novo, em Março de 1975, se nacionalizou a banca e tudo o que dela estava dependente e, com o produto deste acto, vendendo mais uma vez, sobreviveu o Estado, gastando à tripa forra em benesses qual D. Afonso V a beneficiar a sua cavalaria.
 
Está na altura de o ciclo continuar. Aproxima-se o momento de, uma vez mais, por uma revolução — pode inventar-se uma conspiração globalizante, por exemplo — nacionalizar de novo o que foi vendido e é do Estado, porque, diz o Povo, «o que há-de ser nosso à mão nos vem parar»! De desgoverno em desgoverno, de roubo em roubo, de nacionalização em nacionalização, a par de descobertas de Índias e ouro nos Brasis — o nosso último Brasil foi a adesão à CEE — Portugal, graças ao falso milagre de Ourique — mais uma vigarice para justificar a existência — há-de sobreviver, mantendo, se possível uma ampla servidão da gleba enquanto uns homens, muitos, procuram tornar-se em ricos-homens ou, talvez, com mais propriedade, em homens ricos.
Produzir e rentabilizar, trabalhando e distribuindo com justiça o rendimento conseguido, isso é que não! Somos nobres em excesso para vergar a cerviz perante tais obrigações… Um negociozito, ainda vá lá! Mas não exijam mais! Pimenta, especiarias, escravos, ouro, diamantes e cacau de algum lado hão-de vir para nos sustentarmos neste gosto pelo espavento e exibição balofa já não de carruagens puxadas por magros cavalos, mas de Mercedes e BMW, mesmo que em segunda mão, para encher gulosamente o olho do vizinho.
 
Vivamos o ciclo da História e preparemo-nos para o próximo golpe que será lançado por uma qualquer ideologia nascente. Entretanto, mantenhamos este sorriso matreiro nos lábios, porque foi sempre assim que os nossos antepassados souberam sobreviver enquanto rezavam aos seus santos protectores.

Venha daí uma nova nacionalização, porque está na hora!

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