A contra-ofensiva
Será que é realmente uma contra-ofensiva o que os ucranianos começaram ontem? Tecnicamente, só o seria se se tratasse da resposta a uma ofensiva russa. Assim, de facto, não é, tratando-se de uma ofensiva contra as tropas inimigas instaladas no terreno e em simples estado de alerta. Esclarecido este ponto, vamos tentar compreender o que daqui resultará.
Ao contrário do que o comum dos leitores imagina, esta ofensiva não vai alterar grandemente o curso da guerra, pois, por muito material bélico que a Ucrânia tenha recebido dos países da NATO e dos EUA, não reúne número suficiente de soldados para conseguir fazer recuar as tropas russas até às suas fronteiras, facto que, efectivamente, constituiria uma derrota para Moscovo.
Estou a pressentir nos mais exigentes dos meus leitores uma pergunta: então para que se leva a cabo a ofensiva? A resposta divide-se em dois grandes ramos: por um lado, para justificar a defesa do território, partindo do pessoal político que ocupa o poder na Ucrânia ou, dito de outra maneira, é a forma de justificar, perante os cidadãos ucranianos, os sacrifícios que Zelensky e a sua equipa política têm exigido à nação, ao mesmo tempo que é uma forma de se sustentarem nas cadeiras que ocupam; por outro lado, poderá ser o processo de conseguir iniciar uma negociação diplomática que resulte num cessar-fogo, num armistício ou no “congelamento” das acções militares de um lado e do outro. De qualquer forma são “jogadas” estratégicas que têm em vista a manutenção do “status quo” interno, na Ucrânia, ao mesmo tempo que os aliados de Kiev se podem desobrigar de continuar a alimentar a guerra.
É verdade que a Rússia não é aquele bicho-papão que, em Fevereiro de 2022, os órgãos de comunicação social do mundo ocidental nos impuseram. Nessa altura eu tive o cuidado de afirmar, ao cabo de várias semanas de conflito, que o exército russo era, afinal, um tigre de papel se excluirmos o arsenal nuclear. Está provado que eu tinha razão: Hitler (o famoso ditador com quem Putin foi comparado), num ano de guerra tinha conquistado a Polónia, a Dinamarca, a Noruega, a Bélgica, os Países Baixos, o Luxemburgo e a França, para além da ocupação de outros Estados nos Balcãs. Putin conquistou uma parte, e só uma parte, a do leste da Ucrânia, até agora!
Ora, face a esta disparidade, jamais se poderá afirmar que a Rússia pretende conquistar a Europa ocidental; ela e os seus generais querem aquilo que sempre quiseram: manter a distância suficiente entre os países integrantes da NATO e o seu território. E, ontem, num dos canais de televisão, o major-general Agostinho Costa teve de enfrentar o pivot que sistematicamente se opôs à explicação sobre a ofensiva e uma hipotética vitória sobre a Rússia. Este “incidente”, sem exaltações e com sorrisos à mistura, deu para perceber que o relevante é passar para a audiência uma ideia e uma imagem falsa ou tendenciosa sobre o que, na verdade, é importante, ou seja, aquilo que antes tentei explicar em poucas palavras. Disto nunca tive dúvidas, mas, se as tivesse, ontem desapareceriam.
Este apontamento serve, espero, para ajudar aos meus leitores a reflectir, mesmo que não concordem com os meus argumentos.
