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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Edmundo Pedro - Memórias para não esquecer

 
Foi há meses que comprei o grosso volume que constitui o livro de memórias de Edmundo Pedro. Foi em Março, depois de lhe ter dado o braço à saída das vetustas instalações da Cooperativa Militar agora utilizadas pelo Instituto Social das Forças Armadas (IASFA), na rua de S. José, em Lisboa; era noite e o peso da idade, depois de ter dado a conhecer a sua participação no assalto ao quartel de Beja, no recuado fim de ano de 1961, fazia-o ver mal a irregularidade do caminho até à estação do metropolitano dos Restauradores. Durante escassos minutos fui o amparo de um Homem com muita história vivida, um revolucionário e lutador antifascista que pagou na carne o preço de ter abraçado ideais, então, proibidos.
 
Numas curtas férias, no final de Julho, ataquei as 553 páginas do livro. Não gostei da displicência, do descuido posto por Mário Soares na redacção do Prefácio; escreve muito melhor do que ali está plasmado; tocou-me a simplicidade, a admiração e o respeito de Fernando Rosas deixados nas folhas do posfácio.
 
O texto de Edmundo Pedro lê-se com grande interesse da primeira à última página; é rico em pormenores pessoais, em emoções.
Uma primeira parte — até ao momento do seu internamento no campo de concentração do Tarrafal — revela-nos as lembranças de um jovem operário empenhado na luta antifascista, filiado no PCP, crente nas virtualidades do sistema implantado na União Soviética; depois, na segunda parte, quando passa a descrever bocados da sua vida no Tarrafal, mostra-nos o desabrochar do mecanismo de descrença no partido onde militava. Às vezes, ronda o anticomunismo, mas, da primeira à última página, está sempre presente a sua fé nas soluções democráticas, a sua esperança de que não passa pela direita a resolução da justiça social.
 
Edmundo Pedro manteve-se um militante da esquerda. Não há a possibilidade de estabelecer entre as suas memórias e as da Zita Seabra qualquer tipo de paralelo; no seu livro, cada página, transpira coerência, verticalidade e, sente-se, verdade enquanto que, segundo parece, no da antiga militante do PCP, actual deputada do PPD/PSD, as palavras ressumam ódio, vingança, mentira e desonestidade.
Uma só nota de crítica ao livro de memórias do Edmundo Pedro: merecia um trabalho muito mais cuidado de revisão editorial, embora, assim, tal qual está, se sinta a mão do antigo operário do Arsenal de Marinha, do lutador cuja universidade foi, tal como ele diz, a do campo de concentração do Tarrafal.
 
As Memórias de Edmundo Pedro deveriam ser lidas pelas mais jovens camadas da população portuguesa porque, muito embora não entre em grandes descrições da cidade de Lisboa dos anos 30 do século passado — uma falha que poderia ter colmatado, para nos deixar o testemunho do que eram os bairros populares e a vida dos operários nesses tempos, não fosse a ânsia, que se pressente, de chegar ao fim — oferece-nos um retrato das lutas operárias e da repressão brutal que recaía sobre todos quantos desejavam a liberdade. Os jovens, para poderem apreciar o bem incalculável que foi o fim da opressão e do obscurantismo, deveriam ler e reler textos como os de Edmundo Pedro.
Há momentos em que o leitor os agentes da polícia política, os guardas prisionais, os militares da GNR e, no Tarrafal, os oficiais do Exército que se prestaram a servir de carrascos de homens cujo único crime era o de desprezarem os anti-valores que governavam Portugal.
Para mim, que acreditei e acredito que o oficialato militar não se compagina com funções policiais, foi chocante ver como houve — e, provavelmente, continua a haver — quem deslustrasse a farda envergada para sobrepor ao serviço da Pátria o serviço da política… Da política mais contrária ao bem-estar dos Portugueses, porque contrária aos valores da modernidade, do saber e do livre pensamento.
Lendo a obra de Edmundo Pedro compreende-se que, realmente, houve fascismo em Portugal; fascismo semelhante ao de Mussolini ou ao nacional-socialismo de Hitler; só que um fascismo travestido com a sotaina clerical que parecia abençoar todas as perversões de destroços humanos alcandorados aos diferentes patamares do Poder.
 
Deixo aos meus leitores uma sugestão de leitura para este tempo estival.

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