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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

29.12.19

28 de Maio ‒ Salazar um populista?


Luís Alves de Fraga

 

Estamos num tempo em que se procura estabelecer, tanto quanto possível, a diferença entre populismo e fascismo. Há uma necessidade de aclarar conceitos, pois, no passado ainda recente, usou-se o termo fascismo para, não só identificar o fascismo italiano ‒ o original ‒ como para designar todos os sistemas ditatoriais provenientes de áreas ideológicas da chamada direita. Depois, até houve quem considerasse a existência de um fascismo nos regimes socialistas/comunistas por lhes faltar a liberdade individual tão intrinsecamente característica do liberalismo.

Historicamente não pode nem deve haver uma tão vasta confusão nos conceitos, ainda que eu já, em trabalhos anteriores, a tenha estabelecido, porque designei o regime ditatorial salazarista como fascista. Na verdade, foi-o em certa medida, mas só nessa medida, pois, no plano histórico das ideias não há igualdade entre o Portugal de Salazar e a Itália de Mussolini ou, mais atrevidamente, da Alemanha de Hitler.

 

Assim, para se poder compreender, com rigor, o salazarismo terei de começar por tentar averiguar se Salazar, não sendo um fascista “acabado” foi um populista semelhante, pelo menos, a Sidónio Pais, que, dez anos antes de o professor de Coimbra assumir a pasta das Finanças, foi assassinado na estação do Rossio, em Lisboa. E note-se que, dez anos na História e mesmo na vida dos homens, é um curtíssimo lapso de tempo, dando-nos a possibilidade de admitir que Salazar poderia adoptar, por conveniente cópia, alguns tiques do anterior ditador.

Tenho de me debruçar sobre a personalidade de Oliveira Salazar para conseguir dar dele o retrato mais completo que me possa ser possível, tanto por leituras feitas como por recurso à memória de um tempo que acabou quando eu tinha vinte e sete anos e já muita consciência política do que era Portugal nessa época.

 

Talvez o melhor retrato do ditador, embora feito de forma comprometida por um dos seus delfins, ainda seja aquele que Franco Nogueira dele traçou ao escrever-lhe a biografia, que, utilizando-a como documento histórico, tem de ser expurgada da carga de admiração do biógrafo pelo biografado. Outros, posteriormente, quiseram fazê-lo, mas têm a desvantagem de não o ter conhecido ou visto actuar, dando dele uma imagem quase sempre com distorções (exemplos recentes: Filipe Ribeiro de Menezes e António do Paço). Não serei melhor do que esses, mas tentarei, em poucas linhas, estabelecer diferenças julgadas fundamentais.

 

A formação católica do ditador ‒ e temos de levar em conta o que era essa formação no seu tempo ‒ colocava-o na rota da defesa de um conservadorismo retrógrado, desconfiado das inovações da técnica e das consequências sociais por elas provocadas. A tradição e o obscurantismo massivo eram a grilheta que lhe travava a aceitação da passagem do tempo. Aceitava a existência de uma elite e do seu papel desde que subordinada à vontade divina (uma divindade também ela conservadora, retrógrada e obscurantista). Ele mesmo julgava-se inspirado por Deus. Testemunham-no as conversas com Manuel Cerejeira, anos antes de ter funções de Estado, no convento dos Grilos, em Coimbra.

Reservado, por temperamento, não era homem para viver de banhos de multidão, preferido o silêncio do gabinete de trabalho para gizar soluções. Utilizando uma linguagem da Estratégia, ele manobrava por linhas interiores, substituindo-as às grandes movimentações visíveis aos olhos de todos.

Não era, de facto, um populista, mas gerava as condições para outros poderem usar-lhe o nome, a figura, o talento, a manha, e de tudo isto construírem uma imagem popular não contestável nem maculável, à semelhança dos santos da Igreja de Roma consagrados em hagiografias pouco discutidas. Salazar mantinha uma segura distância entre ele e as massas apoiantes, tal como qualquer prelado dos séculos anteriores a mantinha dos seus “rebanhos”: “Eu sou o pastor, mas não durmo nem como com as ovelhas. Oriento-as e indico-lhes o melhor caminho: o meu!”.

 

É essencial ter presente estas condicionantes da personalidade do ditador para perceber quais foram a linhas norteadoras da construção da ditadura de Salazar, ainda que, para muitos investigadores, não se deva confundir o homem com o sistema por ele criado. Todavia, defendo que, função do facto de não ter feito assentar o regime na vertente populista, deixou que em certos aspectos ele ‒ o sistema político ‒ se confundisse com a sua maneira de viver a vida, fazendo do país e das suas gentes um Estado incapaz de acompanhar a velocidade dos tempos que se viviam em alta aceleração, em especial, depois do final da 2.ª Guerra Mundial.

Mais à frente veremos que tipo de ditadura foi a de Salazar ou, se alguns preferirem, qual o tipo de fascismo adoptado pelo ditador.

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