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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

01.12.19

28 de Maio – Determinismo histórico


Luís Alves de Fraga

 

Tenho dito, sem me cansar, que a História tem dois fins: contar e explicar. Pode contar cada vez melhor, conforme melhor se explica o acontecimento. Mas a História não é invenção, nem condicionalismos. Ou seja, a História precisa de documentos para ser contada e não se faz através do condicional, isto é, com o uso de “ses”.

Assim, parece, a História resultará somente do que aconteceu. Contudo, para a explicar, temos de admitir a possibilidade de os acontecimentos estarem, à partida, limitados; haver uma espécie de pré-condicionalismo ou, se se preferir, de um determinismo.

E será que há? Isso levar-nos-ia ao uso dos “ses”.

Vale a pena explorar, quando falamos de uma ditadura tão longa como aquela que nasceu em 28 de Maio de 1926.

 

A primeira condicionante dos acontecimentos humanos é a geografia. O que se passa está parcialmente limitado por o onde tudo se passa. Dito de outra forma, o espaço age sobre a ocorrência, o mesmo é dizer, há uma relação do Homem com a Terra. Assim, ao olhar para a Península Ibérica, podemos dizer que há uma região ‒ a meseta ibérica ‒ pobre que, por o ser, o poder político que sobre ela se exerceu soube desenvolver uma capacidade especial: a de se expandir sobre as áreas que lhe são periféricas e mais ricas, havendo, todavia, uma que lhe escapou por entre os dedos: Portugal.

Tal fuga deveu-se ao conjunto de duas manobras coincidentes no tempo: a afirmação de poder fora da Península e uma aliança com uma potência marítima geograficamente mais distante (a Inglaterra).

Se olharmos para a História de Portugal, partindo de uma perspectiva de topo (como se fossemos omnipresentes ou viajando num balão, lá no alto) e sem nos prendermos a pormenores, percebemos que houve sempre ‒ salvo no período do domínio dos Filipes ‒ uma espécie de vasos comunicantes entre Portugal e Espanha, para evitar situações de atracção de Madrid sobre Lisboa: se lá imperou a Inquisição o mesmo aconteceu cá; se cá houve expansão marítima lá houve conquista no Novo Mundo; se lá era absoluto o poder, por cá também o era; se lá venceu o liberalismo cá procurou ajustar-se o regime à mesma ideologia. Os grandes ciclos de mudança quase foram simultâneos no tempo tanto de um lado da fronteira como do outro.

 

Nada disto se trata de um acaso, mas de uma sensibilidade colectiva que se não explica de outra forma que não seja o desejo de fugir a um destino imposto pela geografia.

Ora, vamos, à luz do que tentei explicar, perceber o 28 de Maio de 1926, num contexto ibérico e, até, um pouco mais amplo.

 

Acabada a Grande Guerra, como já referido, as economias europeia e portuguesa ficaram de rastos. A Grã-Bretanha estava financeiramente exausta e Portugal carecia de apoios que já não podiam vir de Londres, como habitual. Ou seja, a velha aliança não tinha condições de funcionar em pleno, especialmente, para defesa do nosso país. A Espanha, embora neutral, passou por dificuldades económicas tão significativas como se tivesse sido beligerante. Tal facto ditou-lhe a necessidade de recorrer a uma ditadura militar, em 1923, com a qual se conseguiram vários resultados seguros: crescimento do emprego na indústria, melhoria dos salários e algumas vitórias militares em Marrocos.

Foi dessa estabilidade que, em Lisboa, se desconfiou, em círculos militares nacionalistas muito restritos, pois podia, eventualmente, renascer o desejo, face à instabilidade política portuguesa, de anexação por parte da Espanha para gerar uma ampla zona de paz e tranquilidade na Península.

 

Este pormenor ‒ e outros ‒ não é destacado pela historiografia versada no 28 de Maio de 1926, no entanto, podemos deduzi-lo através do rasgado elogio da ditadura militar portuguesa tecido, em 1941, pelo historiador sevilhano Jesus Pabon, homem de direita, conservador, monárquico e nacionalista, feito no livro A Revolução Portuguesa, demonstrando que a igualdade de regimes políticos em ambos os lados da fronteira era a única forma de os dois vizinhos conviverem sem desejos anexionistas de Madrid. Para a explicação histórica este é um elemento a não descartar.

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