Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

30.12.19

28 de Maio ‒ A manobra de Salazar


Luís Alves de Fraga

 

Entre 1928 e 1930 o ministro das Finanças, para além de conseguir fazer apertar o cinto a todos os Ministérios e, consequentemente, reduzir a despesa do Estado a valores possíveis de serem suportados pela cobrança dos impostos e taxas aduaneiras, soube aperceber-se das forças e tendências políticas em presença e foi capaz de compreender quais as que devia relevar, subvalorizar e anular. Tratava-se de encontrar pontos de equilíbrios para gerar sinergias aparentemente inertes para levar a cabo qualquer reivindicação autónoma.

A intriga terá sido a arma do ministro, ainda que esta não fosse imediatamente perceptível. Uma intriga sibilina, ameaçando ali e elogiando acolá, parecendo ceder a uns e opor-se com diplomacia a outros.

 

Salazar fez um árduo e arguto trabalho de casa na análise das forças em presença e descobriu aquelas que poderia utilizar em seu proveito e as que devia respeitar ou submeter por qualquer preço, defendendo, de maneira intransigente, a sua imagem de salvador, para já, das Finanças e, um pouco mais para a frente, da Pátria.

Para levar a efeito a sua manobra careceu de criar um núcleo duro de apoiantes sem mais ambições do que a satisfação de alcançar o apreço do ministro, que saberia, mais serodiamente, compensar lealdades e bons serviços. Mas esse núcleo tinha de falar em um só sentido, de forma a que ao discurso fossem permeáveis todos quantos se identificassem com um projecto suficientemente idílico para arrastar incautos e pouco esclarecidos.

 

Ora, olhando à volta, as forças em presença, naqueles dois anos cruciais, eram: por um lado os Exércitos de Terra e Mar onde prevaleciam, pelo menos, três tendências: os sinceros adeptos da ditadura como regime a prolongar-se no tempo, os apoiantes de uma ditadura a extinguir-se depois de reposta a ordem orçamental e financeira e os opositores da ditadura, por se situarem fiéis à velha República de 1910; por outro, os professores universitários, constituindo ou um repositório de aderentes à ditadura ou a ela oponentes; depois vinham, com uma preponderância extrema, os monárquicos, que, não discutindo a ditadura, viam no regime militar a possibilidade de restaurar a Monarquia; em seguida, os republicanos moderados, conservadores e arrependidos; a acrescentar às anteriores, mas atravessando-as transversalmente, estavam os católicos descontentes com o tratamento recebido pelos republicanos; por fim, a oposição republicana irredutível e inamovível perante a ditadura. Da massa popular já se tinha encarregue a força repressiva imposta desde 1926 e jamais tentaria algo de significativo sem liderança.

 

Quais os trunfos de que Salazar dispunha? A sua miraculosa acção orçamental e financeira e a possibilidade de marcar um objectivo superior aos de todos aqueles que constituíam o tecido social importante; um objectivo suficientemente aliciante, distante e, se possível, quase utópico para conseguir uma unidade de acção longa e contínua, permitindo-lhe uma durabilidade suficiente para conduzir os negócios públicos segundo o modelo que imaginasse.

 

O ministro não teve de procurar muito; os ingredientes estavam à mão e vinham provando a sua qualidade.

De Sidónio Pais e de Mussolini tinha a ideologia política, ainda que a inspiração, segundo alguns historiadores, lhe tenha vindo de Charles Maurras e da política social da Igreja (Leão XIII); faltava dar-lhe um nome e criar a máquina locomotora. O conservadorismo do pensamento de Salazar terá, pela certa, resolvido a questão. Seria o arcaico a dar resposta e, assim, nada melhor do que aliar o presente ‒ que desejava épico ‒ ao passado heróico de Portugal. A História seria a de um povo vencedor e global. E essa existia já: a da Expansão Marítima e, com ela, justificava-se o Império Colonial Português, justificava-se a grandeza no mundo e exaltava-se o elemento fundamental da ideologia que desejava construir: um nacionalismo fundamentado na expansão da fé católica.

A máquina locomotora seria a Nação alimentada pelo combustível da Fé Católica. Estas junções vinham do passado e agradavam aos monárquicos, aos católicos, aos republicanos conservadores e moderados. Havia que agradar à média burguesia, em tempos cativada pela República, e, para tal, que melhor do que invocar a Família para congregar esse pilar da sociedade?

Assim, admito, ter-se-á justificado a trilogia do salazarismo: Deus, Pátria e Família. Para agregar estes elementos ia-se buscar à ditadura a autoridade. Afinal, o pai, na Família, tinha o direito e a obrigação de possuir a última palavra, porque a autoridade lhe advinha da comunidade e da divindade.

Faltava definir a concretização deste conjunto num organismo, num agrupamento de sinergias políticas dominado pelo ministro das Finanças.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.