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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

A bandeira nacional

Nasci na capital portuguesa há pouco mais de sessenta e cinco anos. A Lisboa da minha meninice nada tem a ver com a de hoje. Era uma pequena cidade — grande para nós que cá vivíamos — descoberta por todos os refugiados que fugiam ao terror nazi. Foram eles que trouxeram um toque de modernismo à velha e pachorrenta cidade de Lisboa. Até então, éramos uma capital quase fora do tempo. Claro que a ditadura que se abatera sobre os Portugueses — mas que eles aceitavam com elevada passividade, porque não há ditadores contra a vontade do Povo, ainda que às vezes seja muito conveniente fazer de vítima! — ajudava a compor este quadro provinciano de uma cidade europeia nada cosmopolita. Contudo, e pese embora esta descrição pouco abonatória, o certo é que também nenhuma das outras capitais da Europa havia atingido a grandeza de hoje... A relatividade manteve-se, ou quase.
Sendo Lisboa a cidadezinha provinciana do Velho Continente, por cá mantinham-se certos hábitos, em meu entender, saudáveis que o tempo, a ânsia de viver, e a adopção de costumes alheios fizeram desaparecer por completo. Não me julgue o leitor um sexagenário retrógrado, saudoso do passado, apostrofando contra a modernidade. Não! Nada disso! Quero ser um cidadão do meu tempo, ainda que reconhecendo os bons valores que se perderam na voragem desse caminhar para o moderno.
Um desses valores consumidos no altar do progresso, foi o respeito.
Hoje respeita-se pouco e quase nada. No que toca às pessoas, é mais importante ser-se famoso do que respeitado. Aliás, entre nós, troca-se, com o maior desplante, fama efémera por respeito — todos os reality shows vão nesse caminho.
Na Lisboa da minha infância havia manifestações públicas de respeito; respeito perante pessoas, acontecimentos e coisas.
Ao passar a carreta transportando o féretro de um cidadão os cavalheiros tiravam o chapéu e todos os homens se descobriam, se usassem qualquer tipo de gorro. Respeitava-se a morte, o morto e a dor dos que o levavam a enterrar. Os soldados, independentemente da sua graduação, à passagem do funeral, tinham prescrito no Regulamento de Continências e Honras Militares, que deveriam parar a marcha, voltar-se para o flanco por onde rodava o carro fúnebre e fazer a saudação castrense. Assim fui educado!
À passagem de uma força militar, transportando o estandarte nacional, os homens paravam, viravam-se para o lado por onde se desfilava e descobriam-se, tirando chapéu ou outra qualquer peça que lhes tapasse a cabeça. Não eram soldados quem passava. Não transportavam um pano num pedaço de pau. Era o símbolo da Pátria quem por eles passava guardado por quantos juraram defendê-la mesmo com sacrifício da própria vida.
Há quase cem anos, morrem homens e mulheres para dar glória a esse trapo verde e vermelho com a esfera armilar e o escudo das cinco quinas. Há quase cem anos que vão a enterrar cobertos com esse pano homens e mulheres que puseram a sua vida ao serviço de Portugal. Há quase cem anos que esse pano representa a comunidade que nós somos.
E vem a propósito contar que, antes de 1974, na longínqua ilha de Timor, no lado português, quando se içava a bandeira verde rubra em qualquer pau de repartição pública ou quartel corria sério risco o incauto cidadão que não parasse e não assumisse uma posição respeitosa. Os Timorenses, os velhos Timorenses que haviam sofrido a invasão australiana e japonesa durante a 2.ª Guerra Mundial, exigiam respeito por esse pano para eles quase sagrado. Estranho, não é?!
Há dois anos, quando por cá decorreu o final do campeonato europeu de futebol, alguém lançou a ideia de se cobrirem as janelas dos prédios deste país com bandeiras nacionais. Manifestação de um nacionalismo bacoco, balofo e espúrio.
A banalização de um símbolo retira-lhe o conteúdo simbólico. Embora não sendo católico, sou tão contra a exposição das bandeiras nacionais por tudo quanto é sítio, como sou contra a venda de imagens de Nossa Senhora de Fátima — alguma delas, até, fosforescentes! — em todas as bancas e lojecas da Cova da Iria. Não se podem abastardar símbolos que são elementos de culto.
Num tempo de anti-valores alguém, de novo, veio apelar para a exposição das bandeiras nacionais e muitos de nós, pacóvios, sem qualquer noção de patriotismo, sem valores nem respeito por símbolos, penduramos das janelas a bandeira de Portugal numa manifestação de carneirada mais capaz de ir para o matadouro da estupidez do que compreender que não é o relvado de um campo de futebol o local próprio para exibir o saudável nacionalismo que devemos guardar no relicário das coisas sagradas.
E o Governo aprova. E o Presidente da República aplaude. E ninguém vê que por este caminho se perde Portugal e os seus valores, porque é o caminho mais fácil para o desrespeito que há-de atingir quantos se regozijam agora com tanta tontice.
Que alguém tenha coragem de pôr cobro a esta palermice, a esta idiotice e tão petulante demagogia, para bem de Portugal e dos Portugueses.

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