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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário

Sou agnóstico. Há muito anos, as minhas dúvidas sobre o Ente complexo a que o Homem resolveu chamar Deus instalaram-se na minha mente. Gostava de poder compreender esse Conceito, abarcá-Lo com a minha racionalidade, explicá-Lo com o prolixo discurso. Quando penso que estou capaz de O compreender Ele foge-me e torna-se distante e abstracto.
Na minha juventude fui católico praticante, fervorosamente praticante. No rondar dos vinte e um anos perdi — como se dizia, então, nos meios que frequentava — a Fé. Voguei durante vários lustros nesse limbo rente ao ateísmo, até ao momento em que, fruto de circunstâncias várias, optei por me definir como um agnóstico consciente — aceito a existência de uma «ordem» universal, um «não acaso», passível de ser chamado Deus e impossível de ser aprisionado por qualquer homem ou qualquer religião (isso quebrar-Lhe-ia a condição divina), incapaz de ser explicado e de ser compreendido (isso retirar-Lhe-ia a omnipotência). Mas sendo agnóstico, ou talvez por ser agnóstico, respeito, tolerantemente, todos quantos preferem aprisionar um deus, chamando-lhe seu e inventando determinações que acreditam ser ditadas por ele. Respeito e tolero até ao limite em que a sua crença não se torna impositiva, obsessiva e obstrutiva do direito de livre opção ou, por outras palavras, alienante.
Ora, vem tudo isto a propósito de uma cerimónia para a qual o Chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o meu Amigo general Taveira Martins, fez o favor de me convidar: a apresentação pública do livro Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Templo da Força Aérea Portuguesa.
Acontece que a igreja em questão fez parte da minha juventude — nela orei e vivi momentos importantes: foi lá que fui padrinho de Crisma de dois condiscípulos mais novos — porque era o templo contíguo ao Instituto dos Pupilos do Exército — que frequentei na década distante de 50 do século passado. Aliás, uma parte do Instituto ainda ocupa as velhas paredes do convento dominicano de Benfica. Antes de a Força Aérea «ter conhecido» o seu templo conheci-o eu.
O livro está cuidadosamente ilustrado e recolhe a história da igreja, bem como consegue apresentar uma enumeração exaustiva dos diferentes túmulos de campa rasa que recheiam o seu interior. A família Mascarenhas — da Casa de Fronteira e Alorna, cujo palácio está muito próximo — tem ali sepultados variadíssimos ascendentes. Lá repousam, em túmulo com estátua jacente, por trás do altar-mor, os restos mortais do Doutor João das Regras, figura de burguês e homem de leis do século XIV que defendeu, em cortes, a legitimidade de D. João, mestre da Ordem de Avis e filho bastardo de D. Pedro I, como pretendente ao trono de Portugal. No convento anexo viveu e morreu Frei Luís de Sousa.
Durante a cerimónia de apresentação da obra que decorreu com grande simplicidade, mas de modo muito digno, foi evocada a memória do antigo capelão da Força Aérea, o padre Pedro, aquele que, movendo e arredando todas as dificuldades, conseguiu para o seu Ramo a atribuição do templo de Nossa Senhora do Rosário.
Conheci-o em Moçambique, no início dos recuados anos 70 do século passado. Era um entusiasta, um camarada. Tratávamo-nos por tu — um tu respeitoso — não sei se por sermos capitães, se por sermos colegas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Ambos nos licenciámos naquela instituição; com uma diferença: é que o Pedro era duplamente licenciado. Na sua insaciável sede de saber, ocupou o tempo estudando, sem fazer alarde dos diplomas conseguidos. Para além de meu colega — no âmbito académico — e camarada, o Pedro era um Amigo a quem respeitava e admirava. Acima de tudo, ficava, quando o via, espantado com a sua inquebrantável força de viver, saudável alegria e extraordinária capacidade de realização. Era um Homem cujas virtudes humanas apetecia tomar como modelo.
É curioso que, dos vários capelães com quem me cruzei em mais de quarenta anos de oficial, sempre colhi, de quase todos, uma excelente opinião, recordando com saudade dois deles, em particular: o padre Almeida, homem de uma integridade absoluta, transmontano dos quatro costados, capaz da chalaça brejeira, mas sério nas suas convicções — que morreu vítima do cancro que o minava e a quem, a última vez que o vi, conscientes ambos que seria a última, ousei pedir autorização para o beijar como o faria a um irmão mais velho, abraçando-nos com lágrimas nos olhos— e o padre Bernardo, também transmontano, mas diferente, por viver com uma tranquilidade profunda e uma abertura de espírito quase total onde a tolerância se sobrepunha a qualquer laivo de radicalismo imposto pela hierarquia eclesiástica — sabia que os «rebanhos» castrenses requerem uma virilidade e uma paciência muito próprias. Mais alguns conheci no meu longo caminhar pela Força Aérea, mas foi efémera — embora não negativa — a lembrança que me deixaram.
É pena que entre nós ainda se reserve tratamento especial aos sacerdotes da Igreja Católica Apostólica Romana, nas Forças Armadas, dando-lhes capelanias e privando outros credos de gozarem de igual privilégio. Bem sei que é voz corrente serem os Portugueses maioritariamente católicos romanos, mas já se justificava a abertura de possibilidades para outras práticas religiosas. Seria saudável e traria vantagens o ecumenismo nas fileiras e todos nós, militares, ganharíamos com isso.

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