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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

29.06.24

A QUARTA HOSPITALIZAÇÃO

03 ‒ Os doentes internados


Luís Alves de Fraga

 

Quando cheguei à enfermaria, a tal que tenho vindo a referir, éramos seis doentes nas seis camas existentes. Naturalmente, por uma reserva natural, vou alterar, quando os citar, os nomes dos internados, com excepção de um, por se tratar de um caso público.

Ao entrar, logo do lado esquerdo, estava um general ‒ um herói da Guerra Colonial, com noventa anos de idade, quase cadavérico, que recusava comer, beber e tomar medicação. O estado de senilidade era avançado, desejando somente que o deixassem pôr de pé ‒ o que era fisicamente inviável ‒ para ir para casa. Uma curiosidade interessante é que, pareceu-me, quando os filhos e uma neta, em diferentes alturas, o visitaram, conseguia manter um diálogo aparentemente com nexo, que desaparecia de imediato, mal algum deles virava costas.

Não sei há quanto tempo estava internado, mas creio que, depois da minha entrada, ficou, talvez, mais cinco dias. Nos três primeiros fez, a si mesmo, tropelias horríveis, tais como arrancar os cateteres das veias, ficando a sangrar e a esfregar com a mão livre o sangue. Depois, levaram-no, creio que a fazer um exame, e quando regressou vinha sereno, a dormir a maior parte do tempo, até que a família o levou de ambulância para casa. Soube, três ou quatro dias depois, que havia falecido na residência. Posso garantir que o pessoal de enfermagem e auxiliar foi de uma extraordinária paciência para com ele mais os seus delírios, que passavam, também, por se despir todo mal sentia o casaco do pijama sobre a pele e os ossos.

Li a biografia do general na informação disponível na Internet e fiquei chocado com o descalabro a que pode chegar a mente humana. Vê-lo foi um dos motivos para, nos muitos momentos de reflexão que um internamento hospitalar propicia, me levar a pedir a Deus ‒ aquele Deus que procurei, na condição de agnóstico, desde os meus vinte e poucos anos ‒ que me mantivesse lúcido até à hora da morte e que esta fosse rápida.

Na cama do lado direito de quem entra na enfermaria, estava um doente idoso, talvez com mais de oitenta anos, que se deslocava com segurança, apoiado na sua bengala, e não dava conversa a ninguém. Estivemos juntos muito pouco tempo. Regressou a casa, aparentemente em bom estado de saúde. A cama ficou vaga. Na cama ao lado dessa estava um primeiro-sargento da GNR, com a provecta idade de noventa e quatro anos, que havia caído de uma escada quando atirava um pauzito a um cão para ele correr e brincar. Fez três traços de fractura nas vértebras cervicais e várias escoriações no corpo.

Não sei há quanto tempo estava internado, mas sei que recusava comer, tomar a medicação e manter o colar de imobilização cervical. Momentos houve que teve de ser amarrado para manter a posição estável. Começou a acalmar no delírio senil, embora reconhecesse sempre a filha quando o visitava. Com o passar dos dias ‒ e não posso precisar quantos ‒ as únicas lamúrias que se lhe ouviam era a terrível frase «Deixem-me morrer». Certa manhã, ao mudarem-lhe a fralda houve um certo corrupio entre os enfermeiros e as auxiliares e o doente foi levado para fora da enfermaria. Vim a saber que tinham dado com uma hemorragia ‒ não sei onde nem como ‒ só sei que foi transferido para o serviço de cirurgia.

 

Fiquei eu no meu canto e, na minha frente, um velho primeiro-sargento de infantaria da GNR, homem com oitenta e nove anos de idade, transmontano de Bragança, e uma têmpera rija e teimosa, embora muito educado. Sofria de um problema da coluna cervical e tinha dores que lhe dificultavam certos movimentos. Estava internado há mais de dois meses. Claro que eram já se notavam as repetições oratórias próprias da idade e do pouco trabalho intelectual, mas era possível manter um diálogo de cinco ou dez minutos com bastante coerência.

Não podendo erguer-se sem apoio de enfermeiros ou auxiliares, tentava e conseguia pôr-se de pé pelos seus próprios meios, independentemente dos meus constantes avisos de perigo de queda, mas a força de braços e de mãos era suficiente para, com certos malabarismos, se levantar do cadeirão onde estava sentado para comer à mesa e colocar-se na posição erecta para, com passos curtos, e amparado onde podia, dirigir-se à cama e deitar-se. Eu bem lhe perguntava: ‒ Quer que chame uma auxiliar? ‒ e ele respondia-me: ‒ Não, meu coronel, muito obrigado! ‒, chegando são e salvo ao seu destino, preparado para ouvir um suave ralhete dos enfermeiros ou das auxiliares quando se apercebiam da ocorrência.

Este foi um dos melhores exemplos que tive de persistência no desejo de ficar em condições de regressar ao lar, mesmo que bastante diminuído.

 

Prosseguindo, na ala esquerda da enfermaria, vinha o caso que deixo para relatar em texto autónomo. Trata-se do cabo da GNR Ricardo Esteves e, aqui, o nome é o verdadeiro.

 

Este coronel, que escreve as crónicas que fazem o favor de ler, nunca havia passado pelas experiências relatadas e, por isso, esteve, até ao momento, muito distante das realidades do sofrimento humano e da dádiva que é servir como auxiliar ou enfermeira num hospital. Quase todas dizem estar nos seus cargos por vocação, mas nem todos têm a real dimensão do seu trabalho, cuja paga financeira será sempre inferior àquilo que oferecem a quem já tem dificuldade em ser autónomo. Nada paga o afago na cabeça destes velhos militares feito por uma mão feminina e acompanhado de expressões como «meu querido» ou «meu amor» ditas no tom em que as mães dizem aos filhos!

25.06.24

A QUARTA HOSPITALIZAÇÃO

02 ‒ A tomada de consciência


Luís Alves de Fraga

 

Não é novidade que sou neto e filho de militares, sargentos, é certo, mas militares, que fui aluno do Instituto dos Pupilos do Exército e da Academia Militar até ganhar o direito de usar o meu galão de alferes da Força Aérea. Bolas, é muita tropa numa vida de oitenta e três anos! E, com isto, o que quero dizer? Algo muito simples: tenho entranhado sob a minha epiderme a condição militar e o que ela supõe: a vaidade de ser o que sou ou, dizendo melhor, o sentido da disciplina e da hierarquia!

Ser militar não é ser nem melhor nem pior do que uma oura profissão qualquer: é diferente. Eu comecei a ser preparado para ser diferente com a idade de treze anos e, muito a sério, para comandar, chefiar ou dirigir homens aos vinte anos. Foi isso que gerou em mim a vaidade de ser diferente e, de entre o grupo militar, ir sendo mais diferente quanto mais ascendia no posto. Quando o meu cadáver estiver a entrar no cemitério tenho direito a uma salva de três descargas de pólvora seca, disparadas por um pelotão, diferentes da do sargento que for a sepultar no mesmo lugar em horas aproximadas. Sou diferente, até na morte.

Naturalmente, sem se dar por isso, lentamente, a consciência de ser diferente, gera um outro sentimento que não é bonito nem recomendável: a vaidade.

Eu, negando a mim mesmo e aos outros, sou vaidoso. Vaidoso por ser diferente, vaidoso por ter alcançado o que alcancei, vaidoso por ser quem sou. Todavia, como já disse, sempre neguei a mim mesmo e, em especial, aos outros a minha vaidade.

 

Não ter um quarto para mim, no internamento no HFAR, foi brigar com a minha diferença e, naturalmente, com a minha vaidade.

Tal como em apontamento anterior disse, antes de adormecer na minha cama no canto da enfermaria, pedi a Deus um sinal e ele foi-me dado através de um sono profundo, repousante e descansado, tal como se estivesse no melhor quarto do hospital. Afinal eu podia ser tratado naquela enfermaria e não ia ser tratado só da doença que me vai consumindo, mas da minha vaidade, do meu exagerado sentido de diferença. Eu estava ali para pôr à prova a minha humildade, porque, naquele local o que se trata é da saúde e não da saúde segundo postos hierárquicos. Eu estava na “trincheira” onde todos lutam pela sobrevivência ajudados por profissionais de saúde que não olham a vaidades, nem a diferenças.

Esse acordar, na manhã de terça-feira, recordou-me o professor que fui, na Academia da Força Aérea, da cadeira de Deontologia Militar e do que ensinei aos meus cadetes sobre o dever de tutela o qual se consubstancia na obrigação de zelar pelo bem-estar dos nossos subordinados e só se sabe exactamente como deve ser exercido se tiver estado ao lado dos nossos subordinados, correndo os mesmos riscos e conhecendo o sabor do medo que devemos controlar. Naquela enfermaria, não sendo o doente mais novo nem o mais graduado era, quase de certeza, aquele que estava mais consciente do que me rodeava e havia, de certeza, um propósito para estar ali.

Quando o chefe do serviço de medicina interna veio falar comigo, como eu havia exigido na véspera ao enfermeiro, depois de ouvir as explicações que me deu, declarei-lhe que ia ficar naquele canto à espera de ser tratado dos meus males físicos, porque, dos morais fiz questão de os guardar para mim, pois desses trato eu.

24.06.24

A QUARTA HOSPITALIZAÇÃO

01 ‒ A entrada na enfermaria


Luís Alves de Fraga

 

Foi num domingo de manhã que me senti muito pior dos pulmões, com muita tosse, febre alta e falta de ar (qualquer movimento cansava-me brutalmente). Sei que tenho, há três anos, aquilo que se chama Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) por causa de um grande enfisema e, também, pelo aparecimento de fibrose pulmonar. Enfim, o resultado de trinta e um anos a fumar e, na fase final, dois maços de tabaco por dia. Mas, o curioso, é que foram precisos passar trinta anos sobre a decisão de largar os cigarros para me surgir a “factura” que tenho de pagar até ao último cêntimo.

Por ser domingo, fomos ‒ eu e a minha mulher ‒ direitos ao Hospital da Cruz Vermelha, às urgências. Já não saí, fizeram-me uma radiografia e tinha uma pneumonia bilateral. Subiram o nível de oxigénio para quinze litros por minuto e por lá fiquei uma noite. O internamento ia ser prolongado e não tenho dinheiro, mesmo com o apoio do sistema de saúde militar, para suportar contas tão elevadas. Pedi a transferência para o Hospital das Forças Armadas (HFAR) onde tudo é muito mais barato. De ambulância privada, lá fui para o Paço do Lumiar, seguido do meu carro guiado pela minha mulher.

À chegada, a grande surpresa: não havia quartos privados, compatíveis com a minha condição de coronel, mesmo reformado… Tinha de ir para uma enfermaria de seis camas! Lá fui, acompanhado da minha mulher, em grande estado de revolta. Era inadmissível! Nos dois anteriores internamentos ficara num quarto com casa de banho privativa, televisão, cadeirão e mesa para comer ou escrever. E isto foi há três e dois anos, para não falar da minha primeira hospitalização, quando era cadete da Academia Militar, no Hospital Militar de Doenças Infectocontagiosas (HMDIC), no largo da Boa Hora, no ano de 1963, que me recusei a ir para uma enfermaria onde estavam internados dois soldados, obrigando o médico a desfazer-se do gabinete para o transformar em quarto para mim, porque o internamento ia ser de trinta dias como na realidade foi.

 

Na maca, de mão dada com a minha mulher, encaminharam-me para enfermaria, eram quase sete horas da noite. Ao entrar, deparei com um quadro que me pareceu próprio de uma cena teatral hiper-realista: os gritos desencontrados entre auxiliares, enfermeiros e doentes passavam por uma que dizia: ‒ Já é a terceira vez que te mudo a fralda; vais passar a noite todo mijado ‒ a outro que proferia frases sem nexo e outro que gemia alto: ‒ Tirem-me daqui, eu quero morrer!

Olhei para o enfermeiro e perguntei-lhe o que era aquilo:

‒ O senhor coronel vai ficar aqui muito bem… Olhe, neste lugar já esteve internado, por três vezes o Otelo Saraiva de Carvalho e aqui morreu (não tenho a certeza, mas pareceu-me ouvir) o general Loureiro dos Santos, aquele que ia muitas vezes à televisão!

No meio da tosse e da falta de ar só consegui articular:

‒ Amanhã, logo de manhã quero aqui o chefe do serviço de medicina interna, mais nada! À minha mulher disse-lhe baixinho, para se preparar para, no dia seguinte, mandar vir, de novo, a ambulância e levar-me para o Hospital da Cruz Vermelha e a conta que se lixasse… Depois haveria de expor a situação e ficar a dever, se necessário fosse. Ela despediu-se com um olhar triste, dorido e fiquei na cama, tentado acalmar-me.

Não me envergonho nada de confessar que falei com Deus e pedi-lhe um sinal que me levasse a ser capaz de, no dia seguinte, tomar a decisão mais acertada.

 

Apagaram-se as luzes e o barulho acalmou, ouvindo-se somente o diálogo entre os dois doentes já em estado de senilidade. Dizia um: ‒ Caga-me na mão ‒ respondia o outro: ‒ Sacanas, roubaram a droga. E a coisa parecia ir-se arrastar pela noite fora.

Agora, já tranquilo, recordei-me dos meus tempos de chefe de camarata no Instituto dos Pupilos do Exército e da Academia Militar e, com voz de comando, depois de retirar a máscara de oxigénio da cara, gritei: ‒ Vamos a calar! Ninguém fala mais aqui! ‒ e, retornando ao oxigénio, pedi de novo: ‒ Meu Deus, dá-me um sinal ‒ e caí no mais profundo sono até à manhã seguinte. A noite foi passada como se estivesse no melhor quarto do hospital. Afinal, o meu pedido foi escutado (dirão aqueles que não acreditam em Deus: mero acaso). Para mim, não foi um acaso. Foi, realmente, um sinal, que me levou à decisão de ficar na enfermaria, ali naquele canto de onde tinha uma visão quase geral de todo o espaço.

Vão seguir-se mais crónicas e verão como, com fé e em simultâneo, friamente, tomei a decisão de ficar.