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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

09.01.23

Médico por quinze minutos


Luís Alves de Fraga

 

Se Frederick Taylor, o pai da racionalização do trabalho voltasse à Terra e, estando doente, carecesse de ir a uma consulta num hospital particular português, ficaria espantado com a aplicação do seu sistema à profissão médica.

Realmente, seja neste ou naquele hospital privado, o princípio aplicado para marcação de consultas segue a ideia de que o clínico tem de ver, ouvir, observar, diagnosticar, prescrever e receitar em quinze minutos, como regra. Se esta falhar, é da conta do médico fazer mais horas sem remuneração extra. Taylor não imaginaria melhor. Isto é o que sei que se passa. Admito que possa haver exagero, pelo que agradeço que, se for o caso, me corrijam.

 

A prática da medicina privada, em hospitais que têm por finalidade dar lucro, é, conjuntamente criminosa sob dois aspectos: visa obter ganho à custa do sofrimento do paciente e liberta o Estado de uma das suas mais prementes obrigações. E não se diga que a ética clínica dos médicos põe um travão à falta de ética do mercado e do próprio Estado, pois, uma vez engrenado nesta máquina infernal, sendo uma peça da mesma, não há como travá-la a não ser pele exaustão do pessoal de saúde e auxiliar.

Repare-se que o SNS sabe perfeitamente bem que aqueles pacientes com um pouco mais de posses financeiras procuram as consultas nas unidades hospitalares privadas, porque têm seguros que subsidiam a rotação do sistema. Ou seja, está montado o esquema para que o Estado possa desleixar-se das suas obrigações ao mesmo tempo que os privados obtém lucros onde não os devia haver, porque as companhias seguradoras subsidiam a saúde privada, fechando-se num circulo o doente que, por seu turno, ao negociar a contratação laboral já prescinde de uma parte do seu salário em favor da obtenção de um seguro que, para os empregadores, é mais económico do que pagar vencimentos. Fora deste sistema absolutamente diabólico ficam aqueles que ou já não têm trabalho e, consequentemente, qualquer seguro, e os reformados por invalidez ou velhice.

 

Quando, em Portugal, os comunistas e o Bloco de Esquerda reclamam do governo medidas e reformas estruturais na saúde é porque, muito melhor e com mais dados do que eu, sabem até onde os governos podiam ir e até onde estão comprometidos com os interesses privados, que vão dos hospitais e clínicas particulares até às seguradoras e aos grandes empresários que substituem vencimentos por compensações, que cortam o poder de opção ao trabalhador de gastar o seu justo salário onde entender, para lhe dar benefícios muito mais baratos do que a adequação do pagamento do trabalho.

A todo este problema, acresce que a Ordem dos Médicos funciona como um verdadeiro lobby ou sindicato, por dois motivos: primeiro, mantendo o número de clínicos abaixo do necessário garante-lhes emprego e boa remuneração; segundo, permitindo que o médico tenha liberdade de opção num serviço que deveria ser altamente controlado pelo Estado, uma vez que dele depende a saúde pública, levando os especialistas (e talvez não só) a fugirem do interior do país e dos hospitais mais carenciados de certos ramos que são raros, porque pouco rentáveis nessas zonas, mas bem pagos nos grandes centros urbanos.

 

A luta por um SNS a funcionar perto da perfeição é uma luta contra sistemas rentáveis de exploração do trabalho em todos os sectores, sejam públicos ou privados.

Claro que a União Europeia jamais pode concordar com esse SNS perfeito ou próximo de o ser, porque o princípio económico que norteia Bruxelas é o liberal, o mesmo é dizer o do mercado da concorrência e não o tão apregoado bem-estar resultante do tal Estado Social que enche a boca de muitos políticos para esconder as maiores falcatruas que sob a sua capa se fazem.

Ideal, é que fossemos capazes de cortar este nó górdio da saúde pública e privada através da prática de uma política de honestidade quando se trata de garantir a melhor vida possível a quem sofre ou a melhor forma de morrer.

07.01.23

A toponímia das ruas de Portugal


Luís Alves de Fraga

 

Normalmente, em Portugal, é entregue ao poder local a escolha dos nomes das ruas das cidades, vilas, aldeias e lugares. Podem ser nomes de escritores, poetas, médicos, advogados, engenheiros, militares, políticos, nobres, beneficentes, padres, etc. São homenagens para perpetuar as figuras em destaque. Mas acontece que, às vezes, nem os contemporâneos sabem o que fez ou não fez o homenageado. De quando em quando lá aparece uma placa de rua com a indicação “poeta”, “escritor”, “arqueólogo”,” músico”, mas ou não tem data de nascimento e morte ou se a tem, a ignorância e a falta de curiosidade das pessoas leva-as a passarem centenas, milhares de vezes na rua, indicarem a morada e nunca saberem um pouco mais sobre o topónimo.

 

Nasci na rua Angelina Vidal, em Lisboa, e tenho a certeza de que quem lá viva, agora, quem lá viveu, quem por lá passa não faz a mais remota ideia de quem foi Angelina Vidal (poeta, jornalista, tradutora, professora, dramaturga e defensora dos direitos das mulheres operárias nos vinte anos finais do século XIX e, já no século XX, republicana e socialista) que passou grandes e duras dificuldades financeiras na sua vida.

Mas, quem sabe a razão do nome da sua rua de nascimento ou de morada?

Isto prova que as comemorações têm a duração do momento, sendo esquecidos os homenageados e os autores das homenagens pouco tempo após a cerimónia. E isto é triste, muito triste, porque nos remete para sociedades sem memória e, pior, sem interesses. Querem um só exemplo? Alguém sabe quem foi Cândido dos Reis ou o almirante Reis?

 

Tão mau, como o que antes referi, é manterem-se nomes de ruas de verdadeiros biltres históricos, que regimes políticos anteriores lançaram e que, exactamente por preconceito ou ignorância, nunca mais ninguém quis rever. Não faltam exemplos.

A avenida Sidónio Pais, em Lisboa. Quem foi Sidónio Pais? O precursor do fascismo português, ditador e Presidente da República por golpe militar e que deixou desgastar até à exaustão as nossas tropas em França durante a 1.ª Guerra Mundial. Foi um dos exemplos mais acabados da mediocridade alçada ao poder. Nem como homem nem como político é merecedor de admiração. Contudo, a avenida com o seu nome continua pomposamente na capital portuguesa. Porquê? Porque, tendo sido um ditador e Presidente da República admirado pela ditadura do Estado Novo, mereceu figurar no Panteão Nacional e ter nome de artéria urbana. Como já ninguém sabe quem ele foi, como a falta de memória e os brandos costumes fazem o resto, continua a avenida!

E a avenida marechal Carmona? Lá está porque sim! E o aqueduto engenheiro Duarte Pacheco? Continua, porque se esqueceu que ele foi o grande executante das obras ditas monumentais, que marcaram o fascismo nacional.

 

Para o bem da História e para memória futura não bastaria que os nomes destes energúmenos figurassem somente nos manuais de estudo e fossem substituídos os topónimos urbanos por figuras realmente exemplares? Para quando uma comissão cuja finalidade fosse fazer esquecer de uma vez por todas os ditos “heróis” ou figuras “gradas” do fascismo?

Portugal merece e os democratas agradecem que se faça de uma vez por todas a “desfascização” do país.

06.01.23

Oh Senhor Dr., veja lá!


Luís Alves de Fraga

 

É enguiço, de certeza absoluta. Só pode ser!

Então, desarrumaram-lhe o Governo, que já estava tão compostinho e vem uma mafarrica lá do Norte e zás, dá cabo de tudo!

Só pode ser enguiço, bruxaria ou mau olhado! Foi “trabalho” feito lá fora, sei lá…, se calhar em Bruxelas. Aquela alemã magricela tem ar de quem se monta muitas vezes na vassoura em noites de lua cheia! Ela dá-lhe beijinhos, mas aquilo é só para enganar!

Não penso que o Macron seja rapaz para lançar maus olhados ao anafadinho António Costa! No entanto, os franceses são gente capaz de bruxedos… Vejam o que aconteceu ao Hitler só porque invadiu Paris!

Eu sei que o Costa não é de invasões, ele é mais de a fazer pela calada, mas, nunca fiando nos tipos para lá dos Pirenéus.

 

Se não é bruxedo oh senhor Primeiro-ministro, que raio de coisa será? É que não há maneira de acertar uma no bombo! Há sempre um sacana que lhe lixa o sistema… Um ou uma!

Bom, não sendo bruxedo, nem mau olhado nem “trabalho” feito pelas “entendidas”, só vejo uma saída para explicar o que lhe acontece: sabotagem!

É isso mesmo, o senhor Dr. António Costa está a ser vítima de sabotagem, mas donde ou de quem?

Vamos ser analíticos e começar por partes.

 

Iniciemos a observação pela Casa Presidencial. O Marcelo Rebelo de Sousa (não o estou a ver mandar sabotar os Governos… Ele seria lá capaz de tal coisa! Não, ele é mais de sopas frias!) é capaz de albergar na Casa Civil ou na Casa Militar um ou uma quinta coluna, que sopra os nomes a nomear e depois dá a barraca que dá. Mas o Marcelo fala tanto, mas tanto, que se fosse isso, já se tinha “desbroncado” com os jornalistas, porque ele diz o que quer e o que não quer (não digam que é mentira… Ele conta tudo o que lhe vai na alma! É um puro…).

 

Se não for na Casa Presidencial só pode haver sabotagem no Largo do Rato!

Pode ser algum rato ou rata infiltrado pelo PSD que sugere os nomes dos “queimados” e zás, lá vai mais um ponto para o Montenegro, que se mantém caladinho, mais parecendo um anjinho caído dos céus aos trambolhões. Porque sabotagem feita pelo Chega, com a avidez com que o Ventura vai ao pote, já se sabia tudo, porque ele fazia fotocópias e distribuía pelo parlamento inteiro.

 

Não. Isto pode ser mesmo coisa feita por um militante do PS, daqueles que têm muita inveja do Costa e truz, toma lá nomes inquinados e depois vai à tua vida, porque o que eu quero é vir a ser secretário-geral e, como estamos em maré de pouco tempo, não me importa de o ser somente por uma semana, mas fica lá na parede a minha fotografia ao teu lado, meu Costa malandro!

 

Confesso, a minha “ciência” em bruxarias e adivinhações não dá para mais e a filha da mãe da bola de cristal, a cadela apanhou-a no chão e fez-lhe uma mijadela em cima que me estragou as qualidades cristalinas… Tenho de ir comprar outra, que me vai custar um dinheirão. Olhem bem o que, a cadela, por causa do Costa, me fez a mim! Se fosse ao Governo, a gente já está habituada…

05.01.23

Os fotógrafos do Rossio


Luís Alves de Fraga

 

Hoje lembrei-me de vos trazer a figura dos fotógrafos da Lisboa da minha infância; uma Lisboa já muito antiga.

 

Na verdade, muitos de vós ainda se recordam de ver, em alguns jardins da nossa capital, uns fotógrafos que faziam fotografias a quem se decidisse a pagar uns cobres por um retrato, às vezes dois. Usavam uma máquina fotográfica grande colocada num tripé, que mais parecia um caixote, com uma manga preta onde metiam a cabeça, na zona oposta à objectiva. Eram as chamadas fotografias “à la minute”, porque demoravam muito pouco tempo a ficarem reveladas e prontas.

Estes eram os fotógrafos dos casais de namorados ou dos pobres magalas no cumprimento do serviço militar obrigatório que queriam mandar uma recordação para a família e recorriam aos serviços dos quase improvisados fotógrafos dos jardins.

 

E dos jardins, porquê? É simples a resposta. Porque era por lá que iam passear todos aqueles que não tinham dinheiro para grandes distracções; era o ponto de reunião, para um pouco de conversa das empregadas de servir, que, ao domingo à tarde, gozavam a folga da semana de trabalho. Por lá, dispersando as saudades da terra e distraindo-se das obrigações do quartel, andavam, também, nas tarde de domingo, os soldados em busca de conversa com quem lha desse. Era a procura de consolos para saudades doídas ou, para os mais malandrotes, uma namorada com quem trocavam beijos às escondidas ou faziam outras “brincadeiras” sexualizadas, correndo perigos de uma gravidez não desejada. Era a “distracção” de gente deslocada em Lisboa, sem dinheiro e subjugada por um regime ainda clericalizado onde o peso da moral e da repressão se impunha como moda.

E jardins, porque havia árvores, canteiros de flores e cenários mais ou menos idílicos para ficarem numa fotografia que se ia guardar para a posteridade.

Com o tempo, foram desaparecendo os fotógrafos “à la minute”, mas perduraram outros muito mais importantes e “perigosos”, no sentir e dizer dos lisboetas comuns, os do Rossio ou Praça D. Pedro IV.

 

Realmente, até aos meus dezassete ou dezoito anos ou talvez mais um pouco, no Rossio eramos interpelados por uns tipos que, de máquina fotográfica em punho fingiam tirar-nos uma fotografia e, depois, abordavam-nos com um cartão de visita na mão perguntando se desejávamos ser fotografados. A minha mãe fugia deles como o Diabo da Cruz.

Interroguei-a, uma vez, sobre tal aversão (ela chagava a ser brusca com eles) e a resposta que obtive foi bastante estranha: podem ser fotógrafos da PIDE, que nos tiram o retrato para os arquivos, por desconfiarem já de nós. No imediato, achei razoável a explicação e, até, verosímil, tanto mais que tínhamos de dar a nossa morada, o nome e pagar logo para que a fotografia nos chegasse às mãos num sobrescrito entregue pelos CTT. Só anos mais tarde coloquei em dúvida a desconfiança da minha mãe. Foi quando descobri que algumas das mais famosas fotografias do poeta Fernando Pessoa haviam sido feitas na rua com ele a caminhar e, muito provavelmente, na zona do Chiado ou do Rossio.

Depois, fui encontrando fotografias de amigos meus com os pais ou só com um deles, tiradas no Rossio, e desfizeram-se-me os receios incutidos pela minha santa mãe.

 

A propósito destes fotógrafos baratos e muitas vezes sem grande capacidade artística chegamos a uma conclusão: o maior dos grandes males dos regimes políticos ditatoriais é o da instalação da desconfiança. Desconfiamos da própria sombra e, no caso, desconfiávamos dos fotógrafos que queriam ganhar a vida perpetuando um momento, um instante, uma passada que dávamos descontraídos numa das mais emblemáticas praças da Lisboa de então. Por uns cobres, nós ficávamos com uma recordação e eles com mais alguma coisa para pôr na mesa ao jantar para a família. Agora, vivemos em democracia, em liberdade, mas rodeados de tanta tecnologia, acabando por esquecer que, neste momento, pelo “olho” da câmara do portátil onde escrevo este texto, posso estar a ser visto, guardado e catalogado. Como é estranha a nossa mente ou como é descarado o meu feitio. Estou-me nas tintas para que me vigiem e saibam o que penso e digo!

04.01.23

O destino marcado


Luís Alves de Fraga

 

Há um fado da Hermínia Silva que fala das linhas traçadas na palma da mão e de destino. Nem sempre concordo com essas coisas de pseudo “bruxaria”, mas, às vezes, penso, como dizem os “nuestros hermanos”, “que las hay, las hay”!

 

Dou-me como exemplo nesta coisa de destino.

Das janelas da minha casa, ou seja, da casa dos meus pais, via-se perfeitamente o campo hípico da, então, Escola do Exército, e os cadetes a fazerem exercícios de obstáculos. Fiquei, desde criança, fascinado com aquele campo e com aqueles treinos militares. Quando eu, em jovenzinho, passava pela Escola do Exército a caminho do Campo dos Mártires da Pátria, junto do edifício chamado Paço da Rainha e dava com os portões abertos, tinha de entrar para ver os painéis de azulejo, representando acções de guerra, em França e em África. Fascinavam-me aquelas imagens. Nascido no início da 2.ª Guerra Mundial, cresci a ver filmes de guerra e fascinavam-me, também, as acções de combate em terra, no ar e no mar. Resumindo, cheguei aos doze anos e senti que o meu destino era seguir a vida militar. Tudo nela me atraía, desde os confrontos até às paradas, aos desfiles, à disciplina, ao rigor. Não tendo entrado nos Pupilos do Exército aos doze anos, concorri com treze e fiquei.

 

Muitas vezes me queixei do estudo e do regime de aulas, mas jamais do sistema militar de ensino. Quando chegou o momento em que pude concorrer às Academias, lá fui, em primeiro lugar para a Escola Naval, onde não fui admitido (história complicada, que já contei) e, logo depois, para a Academia Militar. Razões várias levaram-me a, findo o segundo ano do curso de Administração Militar, optar pela Administração Aeronáutica.

Estava na Base Aérea da Ota, logo no meu primeiro ano de oficial e eis que sou convidado a ensinar Matemática aos recrutas destinados a cabos especialistas e, foi nesse momento que percebi como me sentia bem numa sala de aula a transmitir conhecimentos. A linha traçada na palma da minha mão estava a afirmar-se. Daí para a frente, sempre que tive oportunidade aproveitei colégios para ensinar História e Geografia ou só uma delas.

A meio da minha carreira militar o apelo pelo ensino foi de tal ordem que estive disposto a abandoná-la, mas, uma vez mais o destino, proporcionou-me a possibilidade de ficar a leccionar (sem que para tal tivesse feito qualquer diligência) no Instituto de Altos Estudos da Força Aérea; tinha colocação garantida por cinco anos. Desisti de passar à reserva e fiquei na função lectiva. Ao cabo de quatro anos, sabendo da falta de um professor de História na Academia da Força Aérea, com o apoio de um camarada, consegui a colocação naquele estabelecimento de ensino. Eram as linhas da minha mão que me estavam a favorecer? Era o meu destino? A verdade é que me sentia realizado. Duplamente realizado: militar e professor.

 

Depois de ter concluído o mestrado em Estratégia, por mero acaso, no final de uma exposição que fiz num colóquio de História Militar, fui abordado pelo Professor Doutor Justino Mendes de Almeida, Magnífico Reitor da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), convidando-me para leccionar História da Cultura Portuguesa no curso de Relações Internacionais, naquele estabelecimento de ensino superior. Claro que não hesitei! As portas do ensino escancaravam-se de par em par para eu continuar mesmo para além da minha passagem à situação de reserva. E fiquei vinte e cinco anos a dar aulas na UAL, até atingir a idade de setenta e seis anos.

Fiz tudo o que poderia fazer: doutoramento em História, ensinar cadeiras de diferentes áreas, orientar teses de mestrado e de doutoramento, fazer parte de júris de provas académicas, secretariar o Presidente do Conselho Científico, ser vogal do Conselho Pedagógico e, acima de tudo, dar aulas, expor os meus pontos de vista sobre as matérias que estudava e leccionava. Escrevi livros, apresentei comunicações em eventos académicos em Portugal e no estrangeiro, enfim, quando decidi que a carga horária que me ia ser exigida já se não compatibilizava com a minha idade, apresentei a minha demissão e um quarto de século depois abandonei, as salas de aulas. Voltei mais duas vezes, mas foi para fazer ciclos curtos de conferências sobre História do Direito Português.

 

Mas as linhas do meu destino ainda não estão acabadas e, por isso, como quem discursa no Speakers’ Corner, no Hyde Park, em Londres, eu uso as redes sociais e a Internet para continuar uma acção pedagógica sobre aquilo que julgo posso ensinar com alguma confiança.

Não me digam que não trazemos o destino marcado, tal como cantou a inesquecível fadista Hermínia Silva!

03.01.23

Um olhar ao espelho da História


Luís Alves de Fraga

 

Entre Setembro de 1939 e Abril de 1945 decorreram cinco anos e sete meses. Foi o tempo necessário para arrasar a Alemanha ou, pelo menos, as principais cidades alemãs, desde que ela invadiu a Polónia e quase se senhoreou da Europa e de grande parte do Norte de África. Foi a derrota total de um país e de um povo. E porquê? Tão-somente porque vários loucos se juntaram para dar cabo de um Estado.

Desde que Hitler, o mais louco de todos os visionários que o rodeavam, declarou guerra à URSS, o conflito começou a estar perdido. A invasão do solo russo correspondeu ao zénite do poderio militar alemão; daí para a frente foi sempre um declive até chegar à derrocada final. E a invasão da URSS começou em 22 de Junho de 1941 ou seja, dois anos após ter vergado a França e a Grã-Bretanha, empurrando os soldados britânicos para a sua ilha.

Em Abril de 1945, Hitler, no “bunker” onde se abrigava dos bombardeamentos sobre Berlim, movimentava divisões que já só existiam na sua cabeça, porque, na verdade, se haviam rendido ou estavam destruídas. Hitler não foi só o assassino dos judeus, nem dos países ocupados; foi o assassino do povo alemão a quem exigiu e impôs o mais terrível massacre que imaginar se pode. E tudo em nome de uma vitória que só ele via! Ele e uma dúzia de acólitos tão loucos como ele ou tão comprometidos na guerra como ele estava desde o primeiro dia, em Setembro de 1939.

 

Ora muito bem, a Rússia neste momento prevê ocupar a parte já derrotada da Ucrânia com quinhentos mil e quatrocentos soldados. Este número pode dar-nos a dimensão da mobilização feita por Moscovo e a densidade de militares por território. Ao mesmo tempo, tal número, coloca-nos a questão de procurar comparar a capacidade de mobilização russa com a ucraniana e, sem ser preciso fazer muitas contas, perceber que Kiev não tem população militarmente mobilizável para fazer face à capacidade do inimigo. Pode ter todos os apoios em armamento clássico americano e europeu, mas vai chegar o momento em que lhe faltam soldados.

Não careço de invocar, para apoio desta conclusão, o pensamento de estrategistas clássicos que apresentam as relações de força para fazer uma guerra. Não estou no meio académico e, mesmo se estivesse, a minha experiência pessoal já me dá credibilidade para fazer afirmações sem ter de me colocar “às cavalitas” de especialistas famosos.

Assim, posso afirmar com segurança que o anúncio feito por Zelensky sobre a necessidade de recuperar o território ocupado e vencer a Rússia é mera propaganda lunática, louca e criminosa, pois leva os seus compatriotas, tal como Hitler na 2.ª Guerra Mundial, a acreditar nessa possibilidade e, depois, a sofrerem as consequências de tamanha mentira.

 

Não quero acreditar que em Washington, aquando da visita de Zelensky, não lhe tenham dito que se tem de caminhar para um cessar-fogo a curto prazo, pois se, pelo contrário, o incentivaram a continuar a guerra a loucura é total uma vez que a Casa Branca e o Pentágono sabem que não podem mandar tropas regulares para a Ucrânia sob o risco de dar início à 3.ª e última Guerra Mundial.

Os conselheiros de Biden, se tiverem bom-senso dir-lhe-ão que já está provado o que se queria provar: a Rússia já não é, no plano clássico, a superpotência militar que se julgava, que não se pode estender a influência da NATO à Ucrânia, que o grau de destruição já é suficiente para dar azo a grande lucros imobiliários, que já foi posta à prova a capacidade diplomática da Rússia, percebendo quais os Estados que a podem apoiar, que, finalmente, a China está mais interessada na solução dos seus problemas no Pacífico do que em afirmar-se num teatro de guerra europeu.

Deste modo, daqui para a frente, a resistência de Zelensky é igual à de Hitler na fase final da guerra, pois o que a Rússia está a fazer é criar as “boas” condições para iniciar conversações diplomáticas, destruindo a vontade de combater dos ucranianos. Isto é elementar para qualquer estrategista e para qualquer diplomata!

Há só um pedido a fazer aos nossos jornalistas: vejam a realidade dos factos e evitem acompanhar as posições de propaganda ucraniana, passando a preparar a opinião pública nacional para o que vem a seguir: a exploração da Ucrânia como contrapartida da sua reconstrução, depois das amputações territoriais que vai sofrer.

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