Duas figuras da Força Aérea
Não tenho andado muito atento aos telejornais e a certas notícias, só agora, ao abrir o email da AOFA (Associação dos Oficiais das Forças Armadas), de cujo conselho deontológico faço parte, tive conhecimento da morte de dois oficiais generais da Força Aérea, com quem me cruzei no início da minha carreira militar: o Tenente-General Lino Miguel e o General Brochado de Miranda ‒ um algarvio e outro amarantino. De ambos guardo excelentes memórias.
Frequentava eu o último ano da Academia Militar (1965), cadete destinado à Força Aérea, surgiu no aquartelamento de Gomes Freire um jovem capitão piloto-aviador, sorridente, bem-disposto, falador ‒ coisa a que não estávamos muito habituados ‒ que, mais ou menos a meio do ano vinha leccionar uma cadeira aos alunos destinados a pilotos-aviadores. Chamava-se Lino Miguel. Parecia um irmão mais velho e menos um mestre e, ainda menos, um professor.
Embora não tivesse aulas com este disponível e simpático capitão, porque era dos poucos oficiais da Força Aérea na Academia, sempre que podia, e era oportuno, metia conversa com ele, que, com largo sorriso respondia a todas as perguntas postas pela minha imaginação, julgando-as eu importantes para a futura integração no ramo.
Voltámos e cruzar-nos, mas então muito vagamente, em Moçambique, quase dez anos mais tarde. Depois, só nos reencontrámos nos primeiros anos da década de 1980 ‒ altura em que eu, já major, leccionava no IAEFA (Instituto de Altos Estudos da Força Aérea) e ele, coronel, ministro da República na Madeira, frequentava o curso de promoção a oficial-general.
De manhã, à hora de tomar a “bica”, conversávamos no pequeno bar do Instituto e, agora, já com a consistência que os meus quarenta e poucos anos me dava, inquiria-o sobre o que era ser ministro da República na Madeira e aturar o Dr. Alberto João Jardim.
Lino Miguel, com o mesmo sorriso de sempre, a mesma facilidade de expressão, respondia-me que se tratava de meros exercícios de diplomacia, de compreensão do “homem” e de lhe “topar” a “manha”. Depois, era fácil o convívio político e social.
Eu continuei por Sintra ‒ já, então, na Academia da Força Aérea ‒ e ele no Funchal, por onde esteve quinze anos. Nunca mais nos vimos, mas guardo excelentes recordações, que ficarão para sempre. Tenho a certeza, a Força Aérea e, em especial, todos aqueles que privaram com Lino Miguel perderam um Homem de eleição.
Em 1966, já Alferes, colocado na Base Aérea n.º 2, na Ota, fui encontrar, como 2.º comandante da unidade o, então, Tenente-Coronel Brochado de Miranda, um amarantino que fez questão de manter a pronúncia até aos últimos dias da sua vida.
Tinha casa na Base e, embora parecesse bastante mais velho, era ainda, para a graduação militar, um jovem. Comandava a Base o Coronel Diogo Neto, que parecia bastante mais novo.
Era um oficial afável, delicado, de poucos sorrisos e pouco conversador, nessa época. Falámos pouco, mas deu-me muito trabalho, pois, como resultado das funções que tinha de desempenhar, cabia-lhe “equilibrar” os gastos financeiros da unidade, mandando “cortar” aqui e ali, de acordo com as combinações que fazia com o comandante.
Ora, era por causa desses “cortes” que, de vez em quando, sabendo-me adjunto do chefe de contabilidade ‒ o Capitão Vítor Sousa ‒ me mandava chamar para lhe levar ao gabinete as facturas da água e da electricidade de cinco anos antes. Era um martírio, pois tinha de me encarrapitar no escadote ou andar de gatas à volta de caixas cheias de pó e seleccionar os anos e meses em causa. Tudo isto, para se poupar uns contos de réis porque, naqueles tempos, Salazar não brincava com os orçamentos e não permitia ultrapassagens das verbas consignadas!
Só nos reencontrámos muitos, muitos anos depois, já Brochado de Miranda era General e eu Tenente-Coronel, professor na Academia da Força Aérea. Era outra pessoa! Sorria, falava de tudo já sem a seriedade do 2.º comandante da Base da Ota.
Após a passagem à situação de reserva, depois de ter sido Chefe do Estado-Maior, então, tomou para si uma missão ímpar na Força Aérea: recolher os arquivos das unidades ‒ de todas ‒ e, dentro do que era possível, com os seus não muito consolidados conhecimentos de técnicas documentais, criou o Arquivo Histórico do ramo.
Não é o melhor exemplo de resguardo de documentação, mas antes aquele que mandou fazer do que a perda total a que estavam votados os mais preciosos papéis do início do novo ramo das Forças Armadas. Foi nessas instalações, nos velhos edifícios da Comissão Luso-Alemã, em Alfragide, que nos encontrámos muitas vezes e onde estabelecemos largas conversas sobre o assunto. Depois, eu deixei de frequentar o Arquivo Histórico há coisa de quinze ou dezoito anos e deixámo-nos de ver.
Faleceu com 95 anos. Aquilo que se chama uma linda idade. A Força Aérea perdeu um dos seus oficiais mais trabalhadores, um dos mais empenhados naquilo que fazia.
Ficámos mais pobres.