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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

09.09.20

Fases da minha vida ‒ 60

(O MFA na Beira)


Luís Alves de Fraga

 

Do fracasso da saída da coluna militar das Caldas da Rainha tomei conhecimento imediato, mal a notícia foi divulgada via rádio, porque o oficial de comunicações (um alferes miliciano) do batalhão estava instruído para me comunicar qualquer ocorrência política anormal em Lisboa. Todos esperávamos que alguma coisa acontecesse em Portugal.

Mal me tinha sentado na secretária, às sete e meia da manhã do dia 25 de Abril de 1974, entra no espaço do conselho administrativo o alferes das comunicações e disse-me:

‒ Já está. A tropa saiu para a rua!

Farto de falsas esperanças, de acalentar desejos, respondi-lhe:

‒ Nem sabe o que lhe acontece se vem para aqui com boatos!

‒ Não, meu capitão, desta vez, é certo. Ouvi numa rádio da África do Sul!

Liguei para a Emissora do Aero Clube da Beira e pedi que fizessem escuta de todas as emissões e as gravassem para eu ouvir à hora do almoço, quando fosse à cidade.

Foi um desassossego até conseguir, na emissora, escutar as notícias de todo o lado, em inglês, francês e português. Na messe, havia um ar de comprometimento entre os oficiais e as respectivas famílias. A minha mulher foi profética:

‒ Não imaginamos o que vem a seguir, não imaginamos!

 

Nos dias imediatamente posteriores tudo ficou igual tanto no batalhão como na base aérea, como, de um modo geral, nas unidades do Exército. Parecia nada ter acontecido. Cinco ou seis dias depois chegou à Beira, ido de Lisboa, o major Hugo dos Santos, trazendo na bagagem o golpe e a revolução. Foi o despertar dos mágicos!

Logo de seguida aparecem, mandados por Lisboa, uma mais vasta comissão de oficiais comprometidos com o MFA (Movimento das Forças Armadas), do qual recordo perfeitamente o capitão-de-fragata Vítor Crespo. Explicaram muito bem o que tinha sido o 25 de Abril e quais os objectivos dos capitães.

Na sequência criou-se a estrutura do MFA nas tropas com sede na Beira.

No BCP-31, fui eleito, por votação secreta, delegado do MFA da unidade. O comandante convocou-me para o seu gabinete e, depois de me chamar comissário político, perguntou-me quais eram a disposições dadas pelo MFA para a unidade. Pode imaginar-se a minha cara de parvo! A resposta foi óbvia:

‒ O senhor continua a ser o comandante e as ordens chegar-lhe-ão pela competente via hierárquica.

 

Entretanto, no Exército, surgiu (porque não faço a mais remota ideia de como lhe caiu no colo o encargo) como responsável do MFA na Beira, o comandante dos GE (Grupos Especiais) ‒ tropa negra natural de Moçambique com missões muito específicas, com algum tipo de envolvimento com o engenheiro Jorge Jardim, o homem secreto do regime, em África ‒ o nosso conhecido coronel de infantaria Pinto Ferreira, que todos os antigos cadetes da Academia Militar identificavam como o Pinto Peneiras. Para mim, foi outro espanto e um verdadeiro enigma. Ainda hoje, independentemente de, no futuro imediato, o coronel ter feito uma forte afirmação de homem de esquerda, admito que o controlo do MFA nas mãos de tal personagem pode ter sido um excelente golpe de rins do engenheiro Jorge Jardim e dos seus amigos políticos ‒ os do projecto da independência semi-branca de Moçambique ‒ para minimizar estragos. Mais não sei e mais não arrisco.

 

Descrever tudo isto, passados quarenta e seis anos, para além de representar um esforço de memória com risco de omitir pormenores importantes ou alterar a ordem dos acontecimentos, constitui, também, uma impossibilidade. Impossibilidade, pois jamais conseguirei mostrar o desequilíbrio que tudo representou, mesmo para mim que ansiava pela queda do regime fascista, no meio militar, o qual vive segundo tradições e regras, às vezes, incapazes de serem explicadas. Toda a estrutura começou a ser posta em causa, fazendo balançar a disciplina, pilar essencial da operacionalidade das Forças Armadas. Talvez a melhor imagem para se ter uma ideia do que foram aqueles tempos seja a de um surfista a tentar cavalgar as ondas do mar revolto pela força do vento de um tufão tropical.

 

Por mim, no BCP-31, passavam todas as mensagens provenientes da nova estrutura do MFA de Lisboa, de Nampula e da Beira. Realmente, estava a criar-se uma nova hierarquia informal.

Corria o mês de Maio quando foi recebida a ordem, proveniente de Lisboa, de que deixaria de haver distinção entre oficiais do MFA e os outros, os não comprometidos de alguma maneira com o golpe.

Pedi ao comandante do BCP-31, o tenente-coronel Rua, para autorizar a reunião de todos os oficiais da unidade para lhes dar conhecimento da nova indicação estruturante. Autorizou e esteve presente.

Quando anunciei que, a partir daquele momento, todos os oficiais pertenciam ao MFA, ele, peremptório, declarou, textualmente:

‒ Nunca pertenci, não pertenço e não pertencerei ao MFA.

Um tal anúncio, feito perante toda a oficialidade do batalhão, estava a criar um problema, antes do mais, a mim e, depois, a ele. Tive de reagir.

‒ O meu comandante tem toda a razão em dizer que não pertenceu ao MFA, mas, desde que ele foi institucionalizado, o meu comandante, pertence ao MFA.

‒ Já lhe disse e repito ‒ afirmou em tom agressivo e desafiador ‒ não pertenci, não pertenço e não pertencerei.

Percebi, de imediato, que estava aberta a porta para o saneamento político do comandante. Contudo, entendi melhor do que todos os oficiais presentes, que tal atitude numa unidade militar de elite era o pior erro táctico e estratégico para a estabilidade da ordem, já de si, cada vez mais precária das Forças Armadas em Moçambique e, também, ou, talvez, acima de tudo da capacidade de combate, em teatro de guerra. Tomei a decisão ‒ para mim fatal, porque me colocou em posição de desequilíbrio hierárquico informal dentro da unidade ‒ de fazer de conta que estava ultrapassada a provocação do comandante. Mas ela ficou a germinar no seio dos meus camaradas.

 

Poucos dias após estes acontecimentos, o coronel Pinto Ferreira convocou uma reunião nocturna de todos os oficiais do quadro permanente para o grande salão da messe de oficiais do Exército. Estive presente com os capitães pára-quedistas, comandantes das companhias operacionais.

A ordem de trabalhos consistia na distribuição dos oficiais por várias comissões integrantes do MFA. Com camaradas do Exército, passei a fazer parte da comissão de esclarecimento (hoje seria de relações públicas), tendo como objectivo desfazer dúvidas junto da comunicação social e da população em geral. Daqui nasceu o primeiro programa de rádio do MFA, transmitido pela Emissora do Aero Clube da Beira, graças à minha acção junto dos amigos que por lá tinha.

Quando chegou o momento da nomeação para a comissão de desmantelamento da delegação da PIDE/DGS um dos nomes apontado foi o do oficial de operações do batalhão, o major Simão, a quem já me referi anteriormente. De imediato sou rodeado pelos capitães comandantes das companhias operacionais do BCP-31 que manifestam a sua total discordância, por razões que nos pareciam óbvias.

‒ Tens de ser tu a opor-te ‒ diziam-me eles. ‒ És o delegado do MFA.

Confesso, foi um momento difícil para mim. A audiência passava de mais de setenta oficiais. Muitos deles majores e tenentes-coronéis.

Levantei o braço e, elevando a voz, disse:

‒ Os capitães do BCP-31 não estão de acordo com a nomeação do major Simão.

Foi como tivesse rebentado uma granada de mão na sala!

O major Simão, aos gritos, exigiu uma sindicância à sua vida militar, aos seus actos. Mantive-me firme na posição adoptada.

Refez-se a decisão. Foi nomeado um dos capitães pára-quedistas para o cargo. Mas, para o bem e para o mal, a cisão estava consumada no BCP-31, gerando-se desconfianças e tensões. Era preciso limitar os danos de modo a que a rebelião não chegasse às praças e, menos ainda, aos sargentos.

 

O mês de Maio de 1974 foi vivido, na Beira, sob uma catadupa de acontecimentos de toda a ordem.

A comissão de esclarecimento do MFA teve de ir a escolas contar o que se tinha passado e o que poderia vir a acontecer ‒ mero exercício de divagação futurista. Numa das vezes, o major do Exército que integrava a comissão usou da palavra e, para atenuar os ânimos, ousou dizer o maior disparate jamais pensável naquela altura: «O senhor Presidente do Conselho, o Professor Marcello Caetano, estava a par do que se preparava ao nível militar». Não imagino o que lhe terá ditado aquela inventona, o que sei é que saltou logo da assistência um sujeito, muito bem-falante, que, peremptório, perguntou ao oficial:

‒ Está o senhor major a dizer que o antigo comissário nacional da Mocidade Portuguesa, um rematado fascista, sabia e era conivente com o MFA e os seus capitães?

O major ficou momentaneamente gago, o outro capitão do Exército estava pálido como a cal branca de uma parede e eu não sabia onde me havia de meter!

Tentei remediar a situação:

‒ O senhor major quis dizer que, talvez, fosse do conhecimento de Marcello Caetano, à última da hora, os últimos preparativos do golpe. Mas são só suposições, sem qualquer fundamento!

O sujeito tomou a palavra e fez um verdadeiro comício político antifascista. De certa forma, momentaneamente, a comissão de esclarecimento passou à condição de comissão não esclarecida! Assim se demonstrava o improviso resultante de se meter em comissões quem não estava minimamente informado e dentro do espírito do golpe militar.

Mas, o pior de tudo é que eu havia avisado os meus amigos da Emissora para estarem presentes e gravar a sessão. Quis convencê-los a não mandar para o ar a intervenção do major e tudo o que se lhe seguira. Respondeu-me um meu amigo:

‒ Então o capitão quer fazer censura, quando toda a vida lutou contra ela?! E, ainda por cima, censurar uma pergunta e um esclarecimento feitos pelo irmão do José Afonso?

Fiquei siderado. Que fosse para o ar o que se disse, foi a minha única resposta. Todavia, fiz sentir ao coronel Pinto Ferreira, que assim, daquela maneira, não podiam fazer-se sessões de esclarecimento.

A comissão foi refeita, passando a integrá-la somente oficiais identificados com o espírito do MFA.

 

Em termos de esclarecimento político o que me deu mais gozo, nesse mês de Maio e começo de Junho, foram as aulas de ideologias políticas que leccionei a sargentos e oficiais, na messe da Força Aérea, a pedido dos mesmos. Julgo que ainda andam por aí os apontamentos compilados por um deles!

 

08.09.20

Fases da minha vida ‒ 59

(Preparando o 25 de Abril)


Luís Alves de Fraga

 

Não posso precisar com exactidão qual o mês, mas entre Julho e Novembro de 1973, de repente, foi recebida ordem, no comando do BCP-31, para fazer marchar para a região da Gorongosa a companhia operacional que estava em repouso. Sabia-se de fonte segura que a FRELIMO introduzira grupos de guerrilheiros na região facto que iria afectar em muito a grande fonte de rendimento que aquele parque natural constituía para Moçambique. Milionários de todo o mundo vinham caçar animais selvagens, sob vigilância apropriada, pagando para isso verdadeiras fortunas. A guerrilha tinha de ser erradicada ‒ acção previamente conhecida como impossível ‒ ou limitada para não deixar rasto que afastasse o turismo. Ora, para não causar embaraços, os pára-quedistas tinham de trajar à paisana e levar rações de combate até se definirem as normas a adoptar. Tudo isto representava um novo desafio do ponto de vista logístico para o conselho administrativo. Improvisando, consegui ultrapassar dificuldades legais e administrativas.

 

Ora, aí por volta do mês de Outubro ‒ não recordo com precisão ‒ fui contactado por um capitão do Serviço de Administração Militar, colocado numa das unidades do Exército na Beira, para me entregar um abaixo-assinado para eu fazer circular no BCP-31.

Tratava-se da contestação do Decreto-Lei n.º 353/73, de 13 de Julho, no qual se dispunha o ingresso nas diferentes armas (infantaria, cavalaria, artilharia), no quadro permanente do Exército, de todos os tenentes ou capitães milicianos que quisessem e fossem aprovados num curso rápido na Academia Militar, obstaculizando a normal progressão na carreira daqueles que, em primeira instância, haviam feito os cursos como jovens cadetes. Tal diploma era a resposta à falta de capitães para comandar as companhias em operações nos teatros de guerra em África. O sistema começava a balançar e a ceder perante a longevidade do conflito.

Mas esta contestação, sendo de matriz corporativa, era, também, muito mais do que corporativa, a prova de que a guerrilha estava a conseguir os seus objectivos: desgastar física, material e psicologicamente as Forças Armadas e a nação. Foi, evidentemente, a espoleta para detonar a tomada de consciência daquilo que a guerra estava a fazer a Portugal ou daquilo que a teimosia governamental estava a fazer aos Portugueses.

 

Introduzi o documento na unidade e foi combinado entre os capitães do quadro permanente, oriundos da Academia Militar ‒ eu incluído ‒ dar conhecimento ao comandante, muito embora se desconfiasse da sua reacção. Afirmou-se ignorante do que se passava, ficando nós com liberdade para assinar. Foi o que fizemos. E lá está a minha assinatura num dos anexos a um dos livros do Otelo Saraiva de Carvalho sobre os antecedentes do 25 de Abril.

Posteriormente houve mais documentos provenientes das reuniões dos capitães em Lisboa, sendo que alguns chegaram ao BCP-31 e outros não, mas a reacção já foi diferente, por indicação de oficiais do Regimento, em Tancos, que desaconselhavam a vinculação. De qualquer modo, havia a espectativa e nunca deixei de merecer a confiança dos meus camaradas operacionais.

 

Na passagem do ano de 1973 para 1974, depois dos acontecimentos na Beira e já aqui relatados, ali pelo início do mês de Fevereiro, começou a gerar-se no seio dos oficiais pára-quedistas e nos da Força Aérea residentes na messe da Beira, um clima de dúvida sobre tudo o que se passava. Esperava-se qualquer coisa. E foi o que aconteceu.

A 22 de Fevereiro saiu para as bancas o livro da autoria do general Spínola Portugal e o Futuro. A grande divulgação foi feita através de longos extractos transcritos no Expresso.

Foi a bomba que faltava. Na messe, ao serão, entre cervejas, cafés e uísques, conversávamos sobre a situação de guerra e, quase todos, íamos concluindo ser insustentável por muito mais tempo a campanha. Era essa, afinal, a conclusão de um general que começara a ter experiência de guerra quando ainda era tenente-coronel, em Angola, e, depois foi comandante-chefe no pior teatro de operações de então: a Guiné.

A demissão de Spínola e Costa Gomes, seguida da sessão de cumprimentos e apoio a Marcello Caetano levada a cabo por todos os oficiais-generais das Forças Armadas, foram sentidas como um acto de traição para quem combatia em África.

Verdade seja, as opiniões dos oficiais da Força Aérea colocados na Beira não era uniforme; havia três tipos de reacção: os que não se manifestavam, em especial os técnicos e oriundos de sargentos, os que vagamente emitiam opiniões não comprometedoras e, por fim, os que ansiavam por uma situação que pusesse fim à guerra, ainda que à custa da queda do regime político, mas sem molestar uma solução onde os europeus tivessem a palavra decisiva sobre as colónias.

 

Já depois do golpe falhado das Caldas da Rainha, segundo creio, pernoitou na messe da Beira o general-comandante da Região Aérea, Diogo Neto, que, indubitavelmente, era um operacional de mão cheia ‒ continuava a voar o Fiat G91 e a tomar parte em acções de combate. Gostava de ficar à conversa com os oficiais no bar, durante o serão, enquanto beberricava um ou vários uísques.

Ora, estando eu presente, entre outros capitães, já passava da meia-noite, a conversa foi cair na necessidade de se encontrar uma solução para a guerra e, depois de considerandos descabidos e despropositados, o general teve a seguinte frase, que jamais esqueci: «Vocês [referia-se a nós, capitães] vejam lá no que se metem, porque o que o Exército pretende é empalmar a Força Aérea!»

Fiquei sem palavras. Que raio de entendimento tinha o general responsável pela Força Aérea em Moçambique da situação política nacional?

Ora, se a este nível se pensava deste modo, do que seriam os capitães capazes de pensar? Fiquei seriamente apreensivo, tanto mais que, em data anterior ou posterior, mas antes do dia 25 de Abril, falando com um capitão pára-quedista e explicando como conduziria, em linhas gerais, um golpe militar em Lisboa, ele observou que eu sabia muito de como neutralizar o inimigo!

Se um general confundia objectivos políticos com tricas corporativas e um capitão altamente operacional se deixava impressionar perante a descrição sintética de como fazer o assalto ao poder, seria que não estaríamos todos a cair em mais uma aventura inconsequente?

A minha dúvida fundamentava-se no pouco que, então, sabia do falhanço das Caldas da Rainha. Aquilo parecia-me do maior amadorismo que se possa imaginar. E, depois, enquanto se esperava pelo 25 de Abril ‒ que nem se sabia se ia haver ‒ tive conhecimento de pormenores quanto ao voluntarismo dos spinolistas que me fizeram duvidar seriamente da idoneidade conspirativa (pensava eu) do general Spínola.

 

Nos serões passados na Emissora do Aero Clube da Beira, entre os meus amigos, não me cansava de mostrar a minha esperança numa mudança breve, que trouxesse alterações para a guerra e para a política nacional. Eles, uns nascidos em Moçambique e outros lá radicados há muitos anos, olhavam-me com a dúvida estampada nos olhos, pois não conseguiam perceber se o futuro lhes traia vantagens ou o contrário. Um ou outro, levado pela juventude ainda presente, alinhava com a minha esperança e entusiasmo. Estávamos todos muito verdes, muito pouco capazes de perceber as dinâmicas das grandes mudanças, que se tornam em revoluções.

Eu ia esperando sem perder a esperança.

07.09.20

Fases da minha vida ‒ 58

(A greve na cidade da Beira)


Luís Alves de Fraga

 

Como referi antes, ao chegarmos à Beira, vindos da viagem a Lourenço Marques, deparámo-nos com um ambiente de agitação inusitado entre a população branca da cidade. De repente, havia-se gerado um clima de quase raiva contra os militares, em especial contra os do Exército.

Dois ou três dias durou essa tensão no ar até se concretizar numa greve dos lojistas da cidade, que decidiram fechar as portas e não vender nada. Atitude algo estranha, por ser pouco inteligente. Mas, vamos ver que tinha um objectivo.

Na zona do Macúti (última parte da cidade, frente à praia, antes de se entrar na estrada que conduz ao aeroporto) ficava a messe dos oficiais do Exército, instalada num edifício pensado para ser hotel. Tinha uma imensa janela de vidro virada para a estrada e nessa sala estava o bar e aposentos de convívio social. De fora via-se o que acontecia lá dentro.

Ora, ainda que os estabelecimentos civis estivessem fechados, como era inevitável, no bar da messe de oficiais do Exército, serviam-se cafés, cervejas, outras bebidas e refrigerantes. Os comerciantes da Beira tinham neste facto o argumento ideal para exigirem solidariedade ‒ uma inapropriada solidariedade ‒ e partiram para o cerco do edifício pedindo que fossem encerradas as actividades do bar. Daqui foi um passo para começarem a ouvir-se as palavras de ordem contra o Exército.

A situação agravou-se logo no primeiro dia, pois os civis não desarmaram e mantiveram a vigilância pela noite fora e pelo dia seguinte.

 

Antes de prosseguir no relato vou dar conta das minhas suspeitas.

Em primeiro lugar, duvido que a morte do casal de fazendeiros se deva à acção de guerrilheiros, porque não estava nos seus hábitos esta forma de actuar, pois era a que punha os colonos brancos de pequena capacidade financeira contra a FRELIMO. Depois, o acontecimento pode dever-se a um assalto de meros ladrões negros ou não. Por fim, pelo resultado que deu, não me espantava que tivesse sido uma acção secreta da PIDE/DGS, para gerar o que veio a acontecer.

Pode perguntar-se, qual a vantagem? Julgo, a resposta é óbvia: preparar a população civil para culpar o Exército e, por arrasto, as Forças Armadas, da incapacidade de suster a guerrilha, que, nesta altura do ano de 1974, há meses actuava, quase impunemente, na região da Gorongosa, a cerca de cem quilómetros da Beira e outros cem de Vila Pery. Era a repetição do que havia acontecido na Índia, em 1961: a culpa da perda do território não recaía sobre o Governo, mas sobre a tropa, que não o havia sabido defender!

Esta última hipótese tem toda a verosimilhança por vários motivos.

Primeiro, era impensável iniciar uma greve de comerciantes numa cidade da dimensão da Beira sem o conhecimento prévio da PIDE/DGS.

Segundo, o silêncio daquela polícia de informação é altamente comprometedor, pois se até controlava os produtos químicos que entravam no porto da Beira (para evitar o fabrico de explosivos), como não saberia, ao menos, de rumores de uma manifestação?

Terceiro (este, bastante melindroso, por causa das pessoas envolvidas), segundo correu na altura, o comandante do BCP-31 terá sido chamado ao comandante da Região Militar Centro de Moçambique, recebendo ordem para, com a companhia operacional em repouso, avançar sobre os manifestantes e dispersá-los. Ter-se-á negado a fazê-lo, argumentando: «Uma companhia de pára-quedistas, se sair para a rua, na cidade da Beira, não deixa pedra sobre pedra». Relacionando esta recusa com as suspeitas que recaíam sobre o comandante (já as referi antes) era fácil admitir que a polícia política estava envolvida nesta manifestação contra o Exército.

 

O problema foi resolvido, no terceiro dia de manifestações, à custa da intervenção da companhia da Polícia Militar, com sede na cidade da Beira. Afinal, bastaram uns disparos feitos para o ar, umas granadas de fumo, umas corridas em cunha sobre a população e tudo se solucionou. Mas a tensão manteve-se latente e também passou por mim.

Como já contei, estava a dar aulas de História, no período da noite, no Colégio Luís de Camões e, na semana seguinte aos acontecimentos relatados, algo sucedeu de inesperado. Aí vai.

 

Nunca gostei de dar aulas com a porta da sala aberta. Não que não se possa ouvir o que digo, mas por duas razões: não quero incomodar os colegas das salas próximas e não gosto de ser espiado… quem quiser ouvir está autorizado a entrar e assistir.

Naquele mês de Janeiro fazia calor, mas a abertura das janelas era suficiente para arejar a sala de aula, por isso, ao entrar, fechei a porta.

Sem me dizer nada, um aluno de vinte e tal anos levanta-se e abre a porta. Naturalmente, continuando a falar, fecho a porta; novamente se levanta e abre a porta; novamente fecho a porta sem interromper o que estava a dizer. O aluno levanta-se e volta à porta, abrindo-a.

Nesse momento interrompi a exposição e, olhando para o aluno, disse-lhe que eu queria a porta da sala de aula fechada. Respondeu-me que estava com calor e queria a porta da sala aberta. Recordei-lhe que o professor era eu e na minha sala fazia-se como eu entendesse. Retorquiu que, como aluno pagava e tinha direito a exigir boas condições para assistir às aulas.

Convidei-o a sair para eu poder fechar a porta e continuar a lição. Informou-me que não saía.

‒ Se o senhor não sai, saio eu!

E saí. Saí e, de imediato, escrevi uma carta à directora do colégio não só contando o que se havia passado como informando-a que, se o aluno não me apresentasse um pedido público e formal de desculpas, eu não voltaria a leccionar.

Nunca recebi resposta e nunca mais voltei ao colégio. A rebelião da população civil da cidade da Beira levava, aqueles que podiam, a tentar um braço de ferro com os militares.

Estava-se perto do Carnaval e Abril vinha a caminho.

06.09.20

Fases da minha vida ‒ 57

(Da Beira a Lourenço Marques)


Luís Alves de Fraga

 

Como é sabido, no hemisfério sul os meses de Verão correspondem aos do Inverno no hemisfério norte. Por isso, nos primeiros dias de Janeiro de 1974, decidi, em concordância com a minha mulher, aceitar o desafio do meu camarada JP ‒ aquele que foi colocado em Tete, depois de ter sido pai ‒ para irmos em pequena caravana, de dois automóveis, da Beira a Lourenço Marques.

Era uma aventura.

Cada família compunha-se de quatro pessoas: nós, os homens, as duas mulheres e os filhos ‒ um casalinho em cada família. Havia diferenças enormes: a minha filha era já uma menina de seis anos, o meu filho tinha dois, mas a filha do JP era mais nova do que a minha e o filho ainda não tinha um ano. Mas, o mais engraçado vinha nos veículos que possuíamos: eu havia levado de Portugal o Fiat 600 comprado quatro anos antes; era com ele que me atirava à estrada; JP, fizera transportar, em Noratlas, de Tete para a Beira, um velho Peugeot 403, comprado em segunda (!) mão, com largo uso, embora calçado de novo.

 

A distância a vencer era de mil duzentos e vinte quilómetros, se não fizéssemos nenhum desvio ‒ mas íamos fazê-los, como se verá ‒ percorrida em três etapas (Beira-Inhassoro 485 quilómetros; Inhassoro-Maxixe, 290 quilómetros; Maxixe-Lourenço Marques, 472 quilómetros). Deve acrescentar-se que todo o percurso era feito em estrada alcatroada de duas faixas, sem praticamente passar em qualquer povoação com destaque urbano, sem rádio para ligação entre os dois carros e sem mais apoio de qualquer espécie.

A volta far-se-ia depois de uma paragem em Lourenço Marques de cinco dias e de mais três num, à época, belíssimo hotel isolado numa praia de sonho, longe de tudo e de todos, no Chongoene.

Confesso, estava superconfiante no meu Fiat 600, embora incómodo, muito robusto e já, nessa altura, sem problemas de aquecimento do motor. A mecânica era simplíssima e o consumo era baixo. Acrescia que, embora sem capacidade para grandes velocidades, suportava uma marcha constante a cento e dez quilómetros o que equivalia à média de cem à hora.

 

Marcado o dia, arrancámos da cidade da Beira com muita coragem e espírito de aventura. Para segurança, da família e minha, levava uma simples pistola com dois carregadores, mais nada; JP nem isso.

Percorridos os primeiros trinta, quase quarenta, quilómetros, muito próximo da pequena povoação do Dondo, vejo que do Peugeot 403 soltou o que me pareceu ser, no imediato, uma roda, mas que, de seguida, percebi ser o rasto de um pneu. Eram recauchutados e de muito má qualidade!

Toca de parar e substituir a roda. Punha-se a questão de voltar para trás e comprar novos pneus ou, telefonicamente, no Dondo, pedir para a empresa, na Beira, mandá-los, de avião, para o aldeamento do hotel do Inhassoro. Sempre confiante, JP não hesitou, vamos para a frente e esperamos no Inhassoro pelos pneus. Era arriscar mais de quatrocentos quilómetros sem roda sobressalente! Uma ousadia que, hoje, me recusaria a aceitar. E seguimos.

 

Embora a cem à hora, numa estrada onde não passava um carro, o espectáculo do interior de África era deslumbrante! O grande cuidado impunha-se na travagem à distância das manadas de elefantes que, pachorrentamente, atravessavam a estrada ou em evitar atropelar os assustadiços macacos.

O único sobressalto que tive, nesta longa tirada, foi que, a dado momento ouvi que estava com escape livre. Parei o carro na berma e fui observar o curto tubo de escape do Fiat 600. O sobreaquecimento tinha sido de tal ordem que uma das três porcas que prendiam o escape ao motor havia caído. Apanhei um susto, pois, se caíssem todas, ficava sem ligação ao escape. Felizmente, o espaço onde estava o motor, tinha fundo e lá estava a porca. O problema foi agarrá-la e enroscá-la. Tive de calçar luvas de Inverno para não queimar os dedos.

Chegámos a Inhassoro ao fim do dia.

Um espanto à beira-mar! Ficámos em bungalôs isolados e jantámos ao ar livre. Antes, tivemos a possibilidade de mergulhar nas águas mornas do Índico. Tínhamos de ficar mais um dia ‒ que incómodo! ‒ naquele paraíso, porque o avião só viria ao fim da tarde, com os pneus.

 

A tirada seguinte foi mais curta, direita a Maxixe, no outro lado da baía de Inhambane. Dormimos no hotel. Recordo-me de acordar mais cedo do que os restantes e ir até à baía, mesmo em frente, e mergulhar nas águas tépidas e tranquilas. Fiquei a observar os caranguejos parasitas que habitavam as grandes cascas dos búzios.

Depois do pequeno-almoço ‒ servido à maneira inglesa ‒ seguimos para Lourenço Marques, mas fizemos uma paragem no lago Poelela, imenso, tranquilo. Eu e JP tomámos um banho rápido e não pensámos na hipótese de, nas margens, haver alguns crocodilos com vontade de comer. Chegámos ao fim da tarde à capital da colónia. Alojámo-nos na messe de oficiais da Força Aérea onde já tínhamos reservado quartos.

Nos dias seguintes, para além de passear, equacionámos a hipótese de ir até à Ponta do Ouro, mas foi-nos desaconselhado por causa das chuvas e de ficarmos com os carros atascados na lama.

Depois da revisão, que mandei fazer ao Fiat 600, nas oficinas autorizadas, preparámo-nos para o regresso, mas, desta vez, com uma paragem de três dias no hotel do Chongoene.

 

Quem segue na estrada para Norte, depois de passar Xai-Xai, tem uma pequena entrada alcatroada directa à costa e que, do nada ‒ ou melhor, da floresta ‒ nos coloca frente a um hotel construído quase sobre a areia, com um largo terraço e escadas directas para a praia. Olha-se à volta e só se vislumbra: mar, areia, e o hotel (que até piscina de água salgada tinha). Uma areia fina e quase branca.

Instalados nos nossos quartos, fomos até à praia tomar banho de mar tépido, sem ondas. Um paraíso. Às cinco da tarde, surge um empregado negro, totalmente vestido de branco, com um grande gongo numa das mãos e, na outra, uma baqueta. Percutiu o gongo várias vezes e os hóspedes, espalhados no areal, dirigiram-se ao terraço onde nos foi servido um chá com bolinhos. Na mesma altura, abordou-nos o chefe de sala, europeu, que nos perguntou que peixe ou marisco queríamos para o jantar… Olhámos uns para os outros sem saber o que dizer. O chefe de sala acrescentou: «É para mandar os pescadores apanhar o que desejarem».

Bom, foi peixe para uns, lagosta para outros e camarão para os restantes. Mas, quando, depois da praia e do banho, nos fomos encaminhando para o salão de jantar, no primeiro piso, fomos surpreendidos por mais uma novidade: duas amas negras, vestidas a rigor e com aspecto profissional, vieram recolher os nossos filhos para lhes dar de comer sem incomodar a nossa refeição!

Depois do jantar fomos até ao salão e de seguida até à praia, passear na areia e conversar. Na recepção avisaram-nos que, se desejássemos, podíamos tomar banho de piscina à noite, porque tinha iluminação interna.

No dia seguinte, às seis da manhã fomos acordados nos quartos por um suave bater à porta; era um empregado que nos vinha trazer o chá para quebrar o jejum. Depois de feita a toilete, descemos para tomar o pequeno-almoço (de pequeno não tinha nada) sem a sobrecarga das crianças, que ficaram entregues às amas negras, que as alimentaram.

Fomos para a praia e pelas dez da manhã, de novo, o homem do gongo chamou-nos para um refresco matinal. As perguntas do chefe de sala repetiram-se e, desta feita, escolhi também carne de caça, que a havia fresca no hotel.

Foram três dias como nunca mais tive na minha vida! E, feitas as contas, não foi muito cara esta extravagância quase principesca. Aliás, estávamos a gastar dinheiro macaco, como chamávamos aos escudos moçambicanos, por não terem aceitação em Portugal.

 

Por combinação entre mim e JP eu saí, na manhã do dia da partida, mais cedo, pois o 403 andava mais do que o 600. Só que eu tinha meio depósito de gasolina e para atestar deveria fazê-lo na bomba do hotel, que, às seis da manhã, não estava aberta. Meti-me à estrada, confiante de que chegaria à terra mais próxima ainda com combustível.

Era de prever que tal não acontecia, e não aconteceu. O depósito secou até à última gota. Parámos junto à berma rodeados de mato por todos os lados. À distância ouvia falar o idioma local e galinhas a cacarejar. Não era zona onde houvesse suspeitas de existência de guerrilheiros, mas, pelo sim e pelo não, saquei da pistola pronto a defender a família.

Esperei mais de quinze minutos pelo meu camarada JP, mas ele não aparecia nem por nada. Talvez depois de uma larga meia hora ou mais, vi surgir ao longe um carro pintado de um azul choque, velho como as coisas velhas. Comecei a fazer sinais. Parou junto a nós. Conduzia o veículo um jovem acompanhado de um outro, ambos com aspecto de serem militares… e eram cabos da Polícia Militar que se dirigiam para a Beira. Mais previdentes do que eu, traziam um jerricã suplementar de gasolina, que prontamente ajudaram a despejar no depósito do Fiat 600 e, em conjunto, fomos até à povoação mais próxima, onde paguei o combustível emprestado e atestei o meu carro.

 

A viagem de retorno fez-se em mais duas etapas, até que chegámos à Beira ao fim da tarde de um dia em que havia grande instabilidade na população, porque, próximo de Vila Pery, haviam morto um casal de agricultores, presumindo-se terem sido guerrilheiros da FRELIMO.

Como se vê pelo relato, ainda tenho presente a sensação de aventura que estas férias me causaram.

04.09.20

Fases da minha vida ‒ 56

(No colégio Luís de Camões)


Luís Alves de Fraga

 

Em Outubro de 1973, no começo das aulas, recebi o agradável convite para leccionar História aos 6.º e 7.º anos (equivalentes agora aos 10.º e 11.º anos de escolaridade) que, na altura, eram os últimos do ensino secundário. O convite veio do melhor estabelecimento de ensino privado na cidade da Beira: o Colégio Luís de Camões.

A principal proprietária era deputada da Assembleia Nacional, pertencendo à Acção Nacional Popular. O colégio, em termos de instalações, era exemplar e, do ponto de vista do corpo docente reunia o que de melhor se encontrava na Beira. Aliás, fazendo toda a justiça aos professores efectivos do ensino público das antigas colónias, devo acrescentar que esse mesmo ensino beneficiou muito com a presença dos militares e das respectivas famílias durante a guerra, pois muitas esposas de oficiais e sargentos eram docentes habilitadas para a leccionação, tal como bastantes oficiais do quadro permanente. Os que podiam, numa atitude justa e compreensível, para acrescentar aos rendimentos auferidos mensalmente mais alguns patacos, aceitavam ser professores provisórios pelo tempo que pudessem. Os que, por razões diversas, já não tinham vagas nos estabelecimentos de ensino públicos ‒ liceu, escola comercial e industrial ‒ candidatavam-se aos colégios.

No meu caso, não concorri, mas fui convidado, porque a minha mulher era professora no Colégio Luís de Camões e a minha habilitação própria ‒ com reconhecimento oficial ‒ ainda só me permitia ensinar Matemática e Contabilidade; contudo, por força das disciplinas já concluídas na universidade, tinha habilitação suficiente para leccionar História.

 

Por causa desta possibilidade de ver acrescidos os rendimentos mensais, vem a propósito esclarecer um aspecto mal conhecido sobre os dinheiros e as poupanças dos militares durante a guerra colonial.

Independentemente do posto, da situação, do lugar e da unidade, os militares podiam deixar cativo em Portugal até 75% do pagamento auferido ‒ soldo, vencimento ou pré. Ora, enquanto para um soldado colocado numa unidade operacional, normalmente empenhada em operações no mato, abonado de alimentação, fardamento e dormida (nem sempre a melhor!) 25% do parco pré era suficiente, o mesmo acontecendo com os sargentos e oficiais dessas unidades, já tal não ocorria com aqueles que estavam colocados em unidades sediadas em cidades onde havia como gastar, e muito mais, se se fizessem acompanhar da família (sargentos e oficiais); os 25% eram curtos para tudo! Assim, as esposas empregavam-se e eles, quando possível, arranjavam meio de fazer subir os rendimentos. Eram rendimentos que tinham de ficar na respectiva colónia, com excepção de uma pequena parcela ‒ já não recordo quanto, mas irrisória ‒ que podia ser transferida no final da comissão e de uma só vez.

Como oficial de Administração e chefe de contabilidade de uma unidade altamente operacional posso garantir que as poupanças feitas pelos militares eram muito pequenas comparadas com os valores imaginados e maldosamente anunciados nos meios civis. Às vezes, era indigno o que alguns graduados faziam para conseguir colocar em Portugal mais umas dúzias de contos de réis! Eu conto.

Porque muitos bastantes soldados preferiam ficar com todo o seu mísero pagamento mensal e gastá-lo em cervejas e outras diversões, que não vêm ao caso, aquando do seu regresso a Portugal tinham disponibilidade, na quota de transferência, de umas dezenas de contos (talvez vinte mil escudos) e o graduado fazia com ele um negócio: emprestava-lhe o valor dessa disponibilidade contra uma declaração de dívida que seria entregue quando, em Portugal, o soldado pagasse a tal maquia. Não sei, mas desconfio, neste negócio o soldado teria direito a um pequeno bónus final, a título de recompensa.

Como chefe de contabilidade não me podia opor a que os soldados entregassem para transferência as suas poupanças, ainda que desconfiasse da marosca. Mas, por muitos empréstimos que um graduado fizesse a muitos soldados, o certo é que nunca juntaria o suficiente para ficar rico com a guerra.

 

Voltando ao ensino no colégio a verdade é que já conhecia o programa de História, pois havia, dois anos antes, dado explicações privadas a um jovem que somente estava preso por aquela disciplina para completar o curso do liceu. Depois, leccionar a alunos adultos, em horário nocturno ‒ que foi o meu caso ‒, era muitíssimo mais fácil do que prender a atenção de jovens mais novos, como aconteceu no colégio de Santa Bárbara, em Lisboa.

Foi, contudo, de pouca duração esta experiência lectiva, pois em finais de Janeiro de 1973, vi-me forçado a colocar um ultimato à direcção do colégio. A seu tempo contarei esse episódio determinante de uma afirmação de personalidade cívica e militar.

 

É verdade que, com a actividade militar no BCP-31 e na rádio, o tempo não era muito, mas sempre precisei de uma sobrecarga de trabalho para me sentir feliz e ocupado. E a leccionação de História a graus mais avançados do ensino e a gente adulta, pôs-me perante um aspecto fundamental que já suspeitava em mim: o imenso gosto de ensinar e a vocação para o magistério. Foi como se me tivesse desdobrado em duas partes: uma, a militar e, outra, a docência.

Nesse entretanto, mal podia imaginar que, sete anos mais tarde, estaria disposto a trocar a farda de militar pela indumentária académica, facto que poderia ter equivalido a uma nova fase da minha vida.

Lá chegaremos…

01.09.20

Fases da minha vida ‒ 55

(O comandante do BCP-31)


Luís Alves de Fraga

 

Como já referi, lá mais para trás, o tenente-coronel Moutinho, comandante do BCP-31, poucos meses ficou depois da minha chegada à unidade. Foi substituído pelo tenente-coronel Rua, um homem e militar, quase poderia dizer, nos antípodas do seu antecessor: uma figura fisicamente vulgar, sem qualquer tipo de carisma, sem a pose de um combatente e, menos, ainda, de um pára-quedistas.

Com a saída do comandante, o segundo, o major Catroga Inês, tornou-se no homem popular da unidade, pois estabelecia uma excelente ligação entre os capitães comandantes das companhias operacionais e o comando. Era o homem da acção, o comandante operacional ‒ entenda-se por operacional aquele que tanto estava na sede da unidade, na cidade da Beira, como aquele que, sem obrigação, ia com a companhia empenhada em operações, dando apoio e orientações.

Na mesma altura ganhou visibilidade o major pára-quedista Simão, um tipo que parecia ter sido oriundo de sargento, mas não o era. Um tipo que queria parecer secreto, talvez por ocupar o lugar de oficial de operações, ou seja, aquele que coordenava o batalhão, do ponto de vista do empenhamento em combate, em entendimento com o comandante.

 

O novo comandante pode dizer-se, em linguagem vulgar, entrou com o pé esquerdo na unidade, provavelmente, fruto do seu próprio feitio, que deixava bem à vista dois defeitos terríveis em quem comanda: mentira e irresponsabilidade.

Não foi preciso conversar com os meus camaradas comandantes das companhias operacionais para perceber o comportamento do tenente-coronel Rua; bastou-me ir a despacho duas ou três vezes.

De uma vez, recordo-me, deu ordem para que eu fizesse determinado ofício para satisfazer uma qualquer situação; no dia seguinte, quando lhe apresentei o ofício, perguntou-me quem dera ordem para fazer aquilo. Fiquei com cara de parvo, mas respondi-lhe que havia sido ele, na véspera. Com o maior desplante possível olhou-me e disparou:

‒ Eu?! O senhor está a mentir. É um mentiroso!

O que podia eu fazer em face a tal argumento? Se insistisse, era a minha palavra contra a dele; se me calasse, era aceitar que ele tinha razão. Fiquei-me pelo mas balbuciado em voz baixa.

A cena repetiu-se mais duas ou três vezes até me decidir a procurar os outros capitães e inquirir se já lhes tinha acontecido igual. Claro que sim. E não havia sido nem uma nem duas vezes.

Começámos por desconfiar da sanidade mental do comandante; depois, procurámos o major Catroga Inês e expusemos a situação, ao que nos respondeu ser voz corrente, no regimento, em Tancos, ele ter comportamentos semelhantes para com os subordinados.

Era um mau presságio para ele, para o seu comando e, acima de tudo, para a unidade.

 

Embora os comandantes das companhia operacionais não me contassem tudo o que se passava nas zonas onde eram empenhados, à ordem do comando-chefe de Moçambique, fui sabendo ‒ frase aqui e frase acolá ‒ que a grande fonte de informações para os levar às áreas de combate provinha da delegação da PIDE/DGS na Beira ou de instâncias mais altas.

Nada disto seria motivo para espanto, sabendo, como sabia, que o serviço de informações militares não funcionava com autonomia ou funcionava sequer; as informações para fazer actuar a tropa ‒ fosse ela qual fosse ‒ provinham da famigerada polícia política. Esta foi a maior das fragilidades das Forças Armadas, na minha opinião, na guerra colonial, porque as transformou em mero instrumento de combate do poder político, sem assumirem conscientemente o seu papel a ponto de poderem julgar sobre a justeza da guerra ou da proximidade da derrota ou vitória militares. Para se atingir essa percepção foram necessários bastantes anos e a imensa proximidade do colapso militar na Guiné.

Este distanciamento da recolha, controle e utilização das informações, de certa forma, ilibava as Forças Armadas da condução da guerra, transformando-as no simples carrasco, que não mata, pois, na verdade, é um mero instrumento da justiça. Julgo, hoje, que terá sido por causa deste distanciamento, entre a obtenção das informações e as operações subsequentes, que ainda paira, entre uma grande parte dos combatentes menos politizados, a ideia de que o fim da guerra foi um abandono dos territórios à sua sorte, porque, em especial, o Exército não quis continuar a combater.

Tivesse o serviço de informações militares assumido, logo desde o início o controle da recolha da informação e teria, atempadamente, entendido a extensão da manobra táctica, estratégica e política dos movimentos de libertação bem como dos seus apoios internacionais.

 

Do que nos apercebemos ‒ mais os capitães das companhias operacionais ‒ é que o entendimento do comandante com a PIDE/DGS era notório, frequente ‒ talvez mais do que o esperado e desejado ‒ assim como o do oficial de operações.

Instalou-se, entre nós, uma séria dúvida: o comandante não seria excessivamente familiar com a PIDE/DGS? Havia quem afirmasse que era inspector daquela polícia, o que neguei peremptoriamente, por ser impossível do ponto de vista administrativo.

Mas a desconfiança foi quanto bastou para inquinar um comando e um comandante com uma maneira de ser esquisita e incoerente.

 

Pessoalmente tive a certeza de ter, pelo menos, dois atentos ouvintes das minhas crónicas semanais aos microfones da emissora do Aero Clube da Beira: o comandante do batalhão e o oficial de operações.

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