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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

16.06.20

Fases da minha vida ‒ 21

(A bordo de um paquete)


Luís Alves de Fraga

 

Como alferes, por conseguinte, oficial, ainda que no posto de menor graduação, eu tinha direito a viajar na 1.ª classe do navio I (havia a 2.ª e a 3.ª classes). A cabine ou camarote que me coube em sorte não era grande coisa, embora fosse espaçosa e com vista para o deque de bombordo. Ficava mesmo ao fundo, quando se caminhava para a ré, junto da escada de acesso à piscina (um tanque de água salgada que chegava para se darem cinco braçadas curtas no sentido do comprimento e três ou quatro no da largura).

Havia o bar, a sala de jogo e de festa, o salão de refeições e o longo deque por onde se podia caminhar ou estar sentado à volta de mesas ou reclinado em cadeiras de repouso.

Navegar num paquete não era, para mim, novidade, por isso sabia que a bordo os passageiros têm distracções várias para ocupar o tempo. Naquela época os paquetes ainda não tinham a configuração de grandes hotéis flutuantes dentro de grandes centros comerciais. Eram confortáveis, com certo tipo de luxo clássico e algum requinte, mas viajar era viajar e não uma fonte de despesa.

Estes navios transportavam, também, carga nos porões que separavam a 3.ª classe, a vante, da 1.ª classe, a meia nau, e no espaço desta para a 2.ª classe, que ficava à ré.

 

As primeiras vinte e quatro horas de navegação, como vim a perceber, reservava-as o comandante do navio para nos ambientarmos ao espaço e às condições primárias de vida a bordo. Fomos descobrindo as salas, os salões, o bar e o modo como nos devíamos deslocar.

Chegámos ao Funchal, uma ampla baía que se não restringe ao espaço marítimo frente à cidade, creio, depois do almoço e, de imediato, tomei a decisão de visitar de novo, a cidade. Nunca são excessivas as incursões, pelo menos, naquela urbe. Ver o mercado dos lavradores e a baixa absolutamente cosmopolita é imprescindível, principalmente em época invernosa, como foi o caso. E a razão é simples: sai-se de Lisboa agasalhado para os nossos frios e chega-se ao Funchal e suporta-se andar sem sobretudo, sem luvas, bastando o normal fato, camisa e gravata. Mas eu tinha mais uma razão sobre todas as mais comuns para visitar a baixa funchalense: ir beber um copo de leite no celebérrimo café-pastelaria Golden Gate, o café que fica à esquina do mundo, no dizer de Ferreira de Castro. Estava a criar tradição, pois a primeira vez que estive no Funchal, com a idade de seis anos, o meu pai levou-me a beber o copo de leite ao, já então, afamado Golden Gate; fez-me um discurso sobre as virtudes daquele leite com gordura (por estranho que possa parecer ainda recordo o sítio exacto onde estava a mesa e como eram as cadeiras). Íamos a caminho dos Açores. Na volta tornámos a beber leite no estabelecimento. Quando fui, com a idade de quinze anos, agora sozinho, à terra do meu pai, repeti, nas duas viagens, o que havia feito antes (aqui para nós, sempre que volto, vou lá tomar um copo de… vinho Madeira e já não o de leite!)

 

Saímos ao fim do dia, já noite, e deliciei-me com o espectáculo de ver o Funchal iluminado semelhante a um grande presépio. É inesquecível a paisagem.

No dia seguinte, ao almoço, tínhamos companhia. Eu conto.

No salão de jantar havia várias mesas para quatro pessoas e uma maior, ao topo, que tinha seis ou sete lugares. Nessa surgiu o comandante do navio, como anfitrião, acompanhado de personagens que, admito, seriam militares de elevada graduação e pessoas distintas, na época. Recordo-me de uma senhora com cerca de trinta e tal anos, bonita, trajando, ao longo dos dias da viagem, vistosos saris.

Nas restantes mesas estava um oficial chefe de cada um dos diferentes serviços de bordo. Na minha calhou-me o castiço senhor Vinhais, chefe do serviço de máquinas, homem à volta dos cinquenta e poucos anos. Procurava fazer conversa de ocasião, mas, realmente, aquele não era o seu ambiente natural. Percebi que se sentiria muito mais confortável sentado à mesa de uma tasquinha de bairro a beber umas cervejas e a comer amendoins ou tremoços. O mesmo não acontecia com outros oficiais do navio com quem tive oportunidade de cavaquear naqueles longos dias de navegação.

Por cima do salão havia uma espécie de balcão ou um mini palco onde actuava, durante as refeições, um grupo musical com piano, violinos, e instrumentos de sopro. Estava consensualmente estabelecido que, ao jantar, se ia vestido mais a rigor.

De tarde havia, na sala de jogo e dança, sessões de bingo ou baile ou cançonetas para distracção dos passageiros da 1.ª classe. Noutras tardes havia corrida de cavalos, no deque, ou jogo da malha.

Mal o tempo começou a aquecer a piscina foi cheia de água do mar e, de manhã, davam-se umas braçadas e apanhava-se um pouco de sol.

Devo recordar que a maior estirada na viagem foi entre o Funchal e São Tomé, cerca de dez dias.

A partir de certa altura começou a tornar-se muito mais agradável ficar no interior do navio do que nos deques, pois o calor húmido era quase insuportável e os prazeres do ar condicionado começaram a mostrar a sua importância na região dos trópicos.

 

Desembarcámos em São Tomé, mas, por não haver cais de encosto, o navio ficou ao largo, usando os passageiros embarcações ligeiras para ir a terra. Fui logo no primeiro transporte e, no pequeno molhe da cidade, encontrei vários oficiais do Exército e, entre eles, estava um antigo companheiro dos Pupilos, em cumprimento do serviço militar obrigatório. Foi agradável e deu-me dicas para a rápida visita que fiz à cidade e aos arredores mais imediatos.

Comprei, a um vendedor ambulante, uma pequena e finíssima bengala ‒ tipo pingalim ‒ que me acompanhou nas duas comissões em África ‒ usava-a como adorno, à maneira britânica, debaixo do braço ‒ e desapareceu há anos, com grande pena minha.

Depois de sairmos de São Tomé reparei num casal, ainda jovem, embora mais velhos do que eu e a minha mulher, que, com muita frequência olhavam para nós, quando estávamos no bar. Criada a condição para chegarmos à conversa, vim a saber que se tratava do, já então, célebre locutor e artista de teatro Álvaro de Lemos. Faziam um casal bem-disposto que nos foi colocando ao corrente da vida em Lourenço Marques. Desconfiei de algumas coisas que me disse, nomeadamente sobre a ausência de clima de guerra na cidade. Achei impossível, mas, por delicadeza, não quis mostrar a minha surpresa. Em boa hora optei pelo prudente silêncio, como se verá mais para a frente.

 

Acostámos em Luanda, por um dia, outro no Lobito e visitei Benguela, depois foi a vez de Mossâmedes e tive oportunidade de entrar uns quantos quilómetros pelo deserto. Seguimos para a Cidade do Cabo, que visitei, tendo por lá passado uma noite. Aí vi o que era o verdadeiro racismo, praticado, aliás, de parte a parte.

A 1.ª classe, que quase ficara vazia em Luanda, encheu-se com sul-africanos. Nunca tinha visto coisa semelhante; entraram, deixaram a bagagem nos camarotes, e dirigiram-se ao bar de onde não arredaram pé. Bebiam uma cerveja logo seguida de um copo de aguardente! Faziam a viagem, quase não saindo do navio e escolhiam os mais pequenos e que iam mais a norte para terem mais tempo de bebedeira. O seu espanto foi, quando estávamos a chegar a Lourenço Marques, ver o alferes miliciano negro, fardado e a passear-se na 1.ª classe como era seu direito. Muitos viravam a cara para o lado e outros afastavam-se como se o oficial tivesse doença grave e contagiosa.

 

Interessante foi a noite de Natal a bordo, cuja tripulação enfeitou a rigor as salas de festas e a de jantar onde não faltaram os doces tradicionais da época, ainda que o bacalhau fosse um prato alternativo.

 

O desembarque em Lourenço Marques fez-me acordar para uma outra realidade: a guerra, que, julgava eu, iria ser o ambiente da capital da província, como na altura se designava.

13.06.20

Fases da minha vida ‒ 20

(Alferes e Moçambique)


Luís Alves de Fraga

 

Mal conclui o tirocínio, na Base Aérea n.º 1, em Sintra, fui mandado marchar para a Base Aérea n.º 2, na Ota, a alguns quilómetros de Lisboa, onde era difícil chegar rapidamente se, acaso, perdesse a pequena camioneta de passageiros, que transportava os oficiais e partia de Lisboa, só parando, depois, junto ao edifício dos bombeiros do bairro da Encarnação, pouco antes de entrar na exígua autoestrada existente até Vila Franca de Xira. O transporte não esperava por ninguém! Uma vez perdido, cerca das sete horas da manhã, restava a alternativa do comboio e de uma carreira de autocarro, que só chegava à porta de armas da Base ao meio-dia.

 

Comandava a Base um jovem coronel, promovido àquele posto por distinção na guerra em Angola, que, oito anos depois, se vai tornar conhecido do povo português, dada a sua participação na Junta de Salvação Nacional, criada na sequência do golpe militar de 25 de Abril de 1974: Diogo Neto.

A unidade era uma das mais completas de Portugal continental. Para além de por lá se fazer a instrução inicial de voo, especializava pilotos na manobra de aviões a jacto: os T-33 A, Shooting Star. Voava-se, ainda, o F-86 Sabre. Foi por altura da Primavera que, depois de montado, passou a ser operado o Fiat G-91, uma aeronave com uma elevada velocidade e um efeito psicológico muito notável sobre o combatente terrestre.

Do ponto de vista infra-estrutural era, também, extraordinária esta unidade. Para além dos edifícios necessários para alojar praças do serviço geral, alunos especialistas, instruendos, oficiais e sargentos sem família, tinha um bairro com vivendas destinadas à instalação de oficiais e sargentos casados. Uma magnífica piscina, um campo de ténis e um moderno edifício para servir de messe de oficiais (local onde fica o refeitório, o bar, salas de jogo e outras comodidades de lazer). Ocupava uma muito significativa área de pinhal e quase se constituía num centro urbano autónomo.

 

Fui nomeado adjunto do chefe de contabilidade, que era um capitão ex-aluno dos Pupilos, bastante mais antigo do que eu, com formação feita na Escola do Exército. Já estavam colocados no conselho administrativo, também como adjuntos, dois alferes milicianos (um deles, o Janeira, também antigo aluno). O capitão, VS, tinha um modo brusco de falar, mas era um excelente e competente oficial de Administração. Não pactuava com a mínima tentativa de irregularidade. Toda a vida foi incorruptível até ao mais ínfimo pormenor. Tal facto valeu-lhe nunca ter recebido louvor de qualquer comandante ou chefe.

 

Sabedor de muita teoria sobre tudo ‒ desde finanças públicas até movimentações militares no terreno, passando por contabilidade ‒ faltava-me a prática do dia-a-dia de um conselho administrativo. Ia-a aprendendo pela observação e pela execução das tarefas que o capitão VS me atribuía. Mas, este e o Janeira, ofereceram-se para uma comissão militar em Moçambique, por volta de Março ou Abril, tanto quanto sou capaz de recordar.

Foi substituído por outro capitão de Administração, também ex-aluno dos Pupilos, mas dos que, sendo miliciano, passaram ao quadro permanente sem frequência, sequer da Escola Prática de Administração Militar! Creio, embora sem certeza, terá sido dos poucos antigos alunos que reprovou nas provas de aptidão física no concurso à Escola do Exército.

Era um ressabiado! Pôs-me à prova de toda a maneira e feitio, chegando a humilhar-me só porque eu tinha frequentado a Academia Militar. Se fosse hoje, ter-me-ia queixado hierarquicamente dele. Teve, até ao fim da carreira, atitudes pouco abonatórias do seu carácter. A título de exemplo, recordo uma conversa que mantive com ele, talvez no final do século XX, a propósito de um seu irmão mais velho, sargento de artilharia, que concorreu à Academia Militar e foi oficial daquela arma, tendo, até, mais tarde, concluído, no Instituto Superior Técnico, o curso de engenharia civil. Muitos anos depois, comentando com ele a morte desse irmão e as conquistas por ele conseguidas, teve o seguinte comentário: «Não foi nada mau, para quem andou oito anos na instrução primária!» É assim que certos seres, ditos humanos, se caracterizam!

 

Entretanto, logo no início do ano de 1966, fui convidado pelo director da escola de formação de cabos especialistas para leccionar matemática aos soldados-alunos. O convite era aliciante, pois, durante os meses da instrução, ganharia mais quinhentos escudos (dois euros e meio, convertendo para a moeda actual). Ora, o meu soldo ilíquido era de dois mil e quatrocentos escudos (um pouco menos de onze euros) e só a renda do pequeno apartamento que aluguei no bairro da Graça, em Lisboa, era de mil cento e dez escudos (cinco euros e cinquenta e quatro cêntimos).

Por esta altura, já casado, dava, nos tempos de repouso, explicações particulares de Matemática, por cuja hora cobrava, se a memória não me atraiçoa, entre vinte e vinte e cinco escudos (qualquer coisa como dez a doze cêntimos do euro). Era um complemento para arredondar os ganhos.

 

Os meses passaram numa relação de trabalho tensa e insatisfatória. Aprendi coisas curiosas sobre o modo como me devia comportar com subordinados hierárquicos, nomeadamente os sargentos.

Um velho sargento-ajudante, conhecedor do seu trabalho, certa vez, pediu-me explicações sobre como fazer determinada operação com a Agência Militar. Eu sabia o que me perguntou, mas percebi a armadilha. Resposta: «Então o senhor ajudante a trabalhar há tantos anos nesses assuntos vem fazer-me uma pergunta tão fácil? Ora vá para a sua secretária e resolva o problema!» Nunca mais teve dúvidas.

Noutra altura foi um sargento, alentejano e bom homem, que, vendo-me atrapalhado com a conferência de uma longa soma, já depois de toda a gente ter ido almoçar, se abeirou da minha secretária e disse-me: «Meu alferes, vou dar-lhe uma ajuda, se não importa.» Ficou um quarto de hora e, ensinou-me um truque simples para fazer a conferência. Nunca mais esqueci.

 

Creio que pelo final de Outubro ou começo de Novembro saiu na Ordem à Aeronáutica a minha nomeação para comissão de serviço em Moçambique. Respirei de alívio.

Como levava a minha mulher tive a possibilidade de requerer o embarque por via marítima ‒ era uma viagem turística oferecida pela Força Aérea.

Embarcámos num navio rasca ‒ o Império ‒ de propósito: levava mais tempo, mas passava por mais portos onde, provavelmente, nunca voltaria a expensas minhas!

 

Parti a 6 de Dezembro de 1966. Íamos chegar vinte dias depois a Lourenço Marques.

10.06.20

Fases da minha vida ‒ 19

(Os oficiais do quadro permanente e a hierarquia da Força Aérea)


Luís Alves de Fraga

 

Nas nossas Forças Armadas ainda imperam resquícios de princípios nobiliárquicos para a promoção aos mais altos postos da carreira militar.

Vou explicar a minha afirmação.

 

Olhando a História, não me consta que Viriato ‒ o lendário general comandante dos Lusitanos contra as legiões de Roma ‒, para além de chefe de bando, tivesse frequentado qualquer tipo de curso para conduzir a luta; ampliando horizontes, o oficial de artilharia Napoleão Bonaparte foi general por razões políticas e conhecimentos de táctica e estratégia, Gustavo Adolfo, da Suécia, por ser rei, foi general e criou os estados-maiores modernos, Frederico II, da Prússia, foi um general, que organizou os seus exércitos; saltando para a actualidade, Sebastião Mabote, a alma da estratégia militar da FRELIMO, não frequentou nenhuma Academia Militar até à vitória do movimento de libertação de Moçambique, o mesmo aconteceu com Nino Vieira, na Guiné, bem como com todos os condutores militares das guerras assimétricas em desenvolvimento no mundo. É que, se se aprende a liderar homens em campanha militar, é preciso levar em conta que, nem sempre, esse saber, adquirido nos bancos das Academias, é condição primeira para comandar.

Ora, em Portugal, tal como noutros Estados, os comandos superiores dos ramos das Forças Armadas são exercidos somente por determinado tipo de oficiais, que, por direito divino podem ascender aos mais elevados postos do generalato. Vejamos.

 

Generais há-os de duas estrelas (majores-generais ou contra-almirantes), de três estrelas (tenentes-generais ou vice-almirantes) e de quatro estrelas (generais ou almirantes). Mas, às três e às quatro estrelas, só podem ascender os nobres, ou seja, os de determinadas armas, classes ou especialidade: na Armada, os da classe de Marinha; no Exército, os das armas tidas por combatentes (infantaria, cavalaria, artilharia e as diferentes engenharias); na Força Aérea, os pilotos-aviadores.

Nada justifica esta limitação, pois, num tempo de assimetrias, num tempo de staffs, os comandantes distinguem-se essencialmente por saberem decidir, fazendo escolhas e optando entre as propostas apresentadas pelos seus estados-maiores e não porque fizeram uma carreira com determinado percurso prático e académico. Se calhar, perdem-se pelo caminho excelentes decisores militares, por não reunirem as tais condições de direito divino.

 

Colocada a questão nos termos simples e objectivos que deixei expostos, vejamos, agora, o que ocorreu no meu tempo (1965-1996) de oficial no activo da Força Aérea.

 

Depois de ter sido promovido a alferes, em Novembro de 1965, fui tenente em Maio de 1967 e capitão em Dezembro de 1970. Note-se que a promoção a capitão foi mais rápida do que eu esperava, porque deixou de ser por vacatura para passar a fazer-se por diuturnidade e, por já ter cinco anos de oficial subalterno, consegui almejar o posto que, se continuasse com iguais condições, só seria previsível alcançar ao cabo de seis ou sete anos de tenente. Tudo por uma razão muito simples: as promoções faziam-se de acordo com as vagas existentes nas respectivas especialidades e aquelas resultavam da dimensão estabelecida para os respectivos quadros permanentes. Ver-se-á, de seguida, o efeito perverso desta gestão de pessoal.

Segundo consta na minha carta patente, só em Julho de 1981 fui promovido a major o que me fez estar onze anos como capitão. Nesta altura, eram já majores e, alguns, tenentes-coronéis os alferes pilotos-aviadores de 1965 preparando-se para ser majores os capitães engenheiros aeronáuticos com menos dez anos de oficial do que eu!

Em Julho de 1986 fui promovido a tenente-coronel e só em Março de 1994 alcancei o posto de coronel, resultando assim que, quase estive, no penúltimo posto da minha carreira, oito anos. Por esta altura, começavam a atingir o generalato os pilotos-aviadores do meu curso da Academia Militar e outros coronéis engenheiros, para não me referir aos médicos da Força Aérea muito mais modernos do que eu na vida castrense.

 

Na minha especialidade, ocupavam os mais altos postos da hierarquia os tais oficiais oriundos de milicianos que se agarravam aos cargos como verdadeiras lapas presas à rocha. Para se fazer uma ideia de como foi esse pesadelo de injustiça, basta referir que de 1974 até depois de 1994, em ano que não posso precisar com exactidão, o posto de brigadeiro (major-general) de Administração Aeronáutica foi ocupado por oficiais não oriundos da Academia Militar, por conseguinte vindos de milicianos. Foram cerca de vinte anos de promoção tapada por oficiais cuja formação, do ponto de vista castrense, deixava bastante a desejar.

 

Porque o tempo de cadete da Academia Militar conta ‒ e contava ‒ como tempo de serviço, em 1981, aquando da promoção a major, eu tinha, efectivamente, vinte anos de tropa, o que me colocava, na época, a meio do necessário para passar à situação de reserva com cinquenta por cento da respectiva pensão, tendo quarenta anos de idade. Surgia, assim, uma boa oportunidade para virar costas a uma carreira e a uma vocação, enveredando por outra que me fizesse esquecer alguns incómodos já vividos e a injustiça de uma progressão tão lentamente desgastante.

Foi por essa altura que ocorreu uma guinada na minha vida capaz de me levar a equacionar todo o meu futuro.

Contarei mais adiante.

09.06.20

Fases da minha vida ‒ 18

(A Administração Aeronáutica)


Luís Alves de Fraga

 

Poder-se-á perguntar o que era, nesses anos recuados de 1965, o Serviço de Intendência e Contabilidade, hoje, e muito bem, chamada Administração Aeronáutica.

Procurarei explicar, no fundamental, o que se fazia no Serviço e, consequentemente, no que estavam empenhados os oficiais deste quadro.

 

Os órgãos de execução da especialidade eram três: a Direcção de Serviço, os Conselhos Administrativos e as Messes. Em princípio, onde estivesse uma unidade da Força Aérea a Direcção do Serviço de Intendência e Contabilidade (DSIC) estaria presente através de um oficial da especialidade. Havia excepções: os pequenos aeródromos (de manobra e de trânsito) não tinham antenas da DSIC, mas já nos aeródromos-base e nas bases aéreas existiam conselhos administrativos.

 

As grandes divisões e consequentes funções da Direcção do Serviço eram, em síntese, cinco ou seis: organização e gestão do orçamento da Força Aérea, verificação das contas (despesa) da Força Aérea, verificação das contas de gerência dos diferentes conselhos administrativos, conferência dos orçamentos de fundos privativos da Força Aérea, relacionamento oficial com a delegação da Direcção-Geral da Contabilidade Pública, condução e verificação dos concursos públicos em geral e, em particular, os de aquisição de fardamentos e combustíveis para a Força Aérea.

Como se percebe, as ligações, do ponto de vista financeiro e orçamental da Força Aérea, com o Estado e o Ministério das Finanças faziam-se através da DSIC e dos conselhos administrativos, passando por aquela. Assim, o Serviço de Intendência e Contabilidade e os oficiais da especialidade, nos conselhos administrativos, sujeitavam-se a dupla obediência: uma, à hierarquia militar do ramo e, outra, não menos importante e responsável, ao Ministério das Finanças através da Direcção-Geral da Contabilidade Pública.

Enfatizo o último aspecto, porque ele era estabelecido por decreto-lei do Governo, com data muito anterior à da formação da Força Aérea. Na prática, este simples facto, traduzia-se na possibilidade legal de a DISC e os presidentes dos conselhos administrativos se corresponderem com entidades civis e militares com liberdade igual à que era dada aos comandantes das unidades e outros chefes.

O fundamento para esta força dos serviços financeiros advinha da própria ditadura de Salazar: todas as despesas deviam ser controladas por órgãos capazes de impor a disciplina orçamental. Esta dependência gerava uma pesada responsabilidade sobre os órgãos executivos do orçamento do Estado: os membros dos conselhos administrativos respondiam judicial e pecuniariamente por todas as irregularidades cometidas no exercício das suas funções. Isto fazia dos oficiais de Intendência e Contabilidade militares com subtis poderes de limitação da vontade dos comandantes, embora estes a pudessem exercer, dando, por escrito, a ordem que, de imediato, ilibava os membros dos conselhos administrativos de todo o comprometimento.

 

Como se vê, por força de disposições legais, recaía sobre os oficiais financeiros uma enorme responsabilidade, mas, também, um poder invisível limitador de atropelos da Lei. Assim, era fácil ou agradar à hierarquia mandante, constituída por oficiais pilotos-aviadores ‒ arranjando saídas mais ou menos legais para satisfazer as suas exigências, ‒ ou, pelo contrário, manter com a hierarquia uma relação tensa, por via do cumprimento rigoroso das leis, directivas e normas financeiras do Estado.

 

Percebe-se, deste modo, a importância de se possuir uma sólida formação militar adquirida na Academia, durante o curso e o tirocínio; não se podia ter uma postura de simples funcionário e, muito menos, de subserviente subordinado hierárquico. A verticalidade, a frontalidade e a coragem desenvolvidas durante os anos de formação castrense era básica para saber estabelecer fronteiras de relacionamento.

 

Como se verá, com o desenrolar das minhas memórias, estes aspectos, aparentemente inúteis, são fundamentais para explicar atitudes pessoais.

08.06.20

Fases da minha vida ‒ 17

(A Força Aérea)


Luís Alves de Fraga

 

Quando me apresentei no Estado-Maior da Força Aérea, situado na avenida da Liberdade, este ramo das Forças Armadas havia acabado de completar treze anos de existência. Assim, posso considerar-me, hoje, um pioneiro da Aeronáutica Militar e, por isso, reflectir sobre essa Força Aérea inicial.

 

O novo ramo nasceu da junção de material e homens das Aeronáuticas Militar e Naval. E, só o facto de ser uma junção, foi suficiente para gerar uma certa hibridez no conjunto. Não havia, ainda, o verdadeiro espírito de corpo, aliás, muito difícil de criar quando, à partida, alguns se sentiam diferentes dos restantes, quando alguns chamavam a si a razão de ser da força, a glória dela existir e não arrastavam, nem distribuíam, pela totalidade do efectivo, os louros alcançados, antes lhe atribuíam as responsabilidades das falhas.

Claramente, na Força Aérea da minha iniciação, havia os pilotos e os outros; entre os oficiais pilotos existiam três separações: os que tinham vindo do Exército (em muito maior número), os provenientes da Armada e os oriundos de sargentos. Assim, muito embora se disfarçasse muito, a Força Aérea não era um corpo; era um ajuntamento.

 

Na minha especialidade ‒ designada, então, de um modo que a menorizava, por Serviço de Intendência e Contabilidade ‒ os oficiais dos mais altos escalões ‒ majores, tenentes-coronéis, coronéis e o brigadeiro ‒ eram todos oriundos do Exército, com frequência do curso de Administração Militar na Escola do Exército; daí para baixo começava a grande balbúrdia, que permitiu, facilitou e consolidou a menorização do Serviço. Balbúrdia, que passo a explicar.

 

Porque a transição de tenentes e de alferes de Administração Militar ou de Administração Naval para a Força Aérea não se fez em quantidade suficiente, porque demoravam anos a formar, na Escola do Exército/Academia Militar/Escola Naval, esse tipo de oficiais, porque o mais importante era ter os aviões a voar, porque era nos pilotos que assentavam os pilares da espinha dorsal da Força Aérea, Kaúlza de Arriaga, major e tenente-coronel engenheiro do Exército, mas subsecretário e, depois, secretário de Estado da Aeronáutica, entendeu por bem colmatar a falta de oficiais com a formação apropriada e conveniente, admitindo oficiais milicianos do Serviço de Administração Militar do Exército ou já directamente da Força Aérea, com habilitações mínimas em Economia, Finanças ou Contabilidade somente. Quando digo mínimas, às vezes, não passavam da alínea g) do, então, sétimo ano dos liceus ‒ condição básica para entrar no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras ‒ e o respectivo curso de oficial miliciano feito na Escola Prática de Administração Militar; chegou ao cúmulo de admitir antigos alunos dos Pupilos do Exército habilitados somente com o curso de contabilidade.

Estes oficiais, sem mais requisitos ou formação específica na área da Administração e das Finanças e, menos ainda, na de oficial do quadro permanente, foram ocupando todos os postos da hierarquia, muitos deles, chegando a oficiais generais.

 

Não me julguem mal os que pensam estar por trás das minhas anteriores considerações algum espírito elitista, porque, aceitando como corrente e normal esta forma de recrutamento de oficiais para o quadro permanente, para que serviriam as Academias Militares? Ora, o facto é que elas existem, pelo menos em todos os Estados europeus, para não dizer de todo o mundo!

Realmente, o que eu penso é que, nesse tempo, tal como ainda agora, prevalecia, na Força Aérea, um tipo de elitismo específico: o piloto-aviador é necessariamente superior e, por o ser, carece de formação coberta por um diploma de uma Academia; os restantes oficiais existem para “fazer funcionar” a Força Aérea, desde que o façam de modo a que os aviões possam ir para o ar.

Claro, este elitismo demonstra um completo desrespeito pelo Conhecimento e pelo conhecimento castrense, pois, como julgo ter provado antes, a socialização militar profunda exige tempo, treino e, por isso, vocação. Daí que, nas boas-vindas dadas, em 19 de Outubro de 1961, na Academia Militar, nos tenha sido enfatizado o facto de, pela carreira das armas, ninguém conseguir chegar à fortuna. Isto estabelece a diferença entre uma escolha para ter um ganha-pão e optar por servir o Estado na defesa nacional.

 

Recordando a Força Aérea de 1965, lembro, para além dos diferentes tipos de engenheiros (alguns sem reconhecimento académico em Portugal), uma série especialidades preenchidas por oficiais ou oriundos de sargentos ou de oficiais milicianos passados aos quadros através da frequência de cursos técnicos ministrados na, então, Base Aérea n.º 2, na Ota, onde se concentrava, na prática, quase todo o saber especializado do ramo: ali fazia-se recruta e curso de cabo, de sargento e de oficial especialista. Eram raras as especialidades que iam fora para aprender fosse o que fosse ‒ talvez os da área de electrotecnia, que frequentavam a Escola Militar de Electromecânica, em Paços de Arcos. Na fase inicial, nos anos de 1950, bastantes sargentos foram aos EUA fazer cursos práticos para conseguirem levar a bom termo a manutenção da frota aérea renovada com material americano.

 

Teriam de passar mais de duas dezenas de anos para, através de umas quantas medidas acertadas, levar este bando fardado até ao que de mais semelhante pode haver com um ramo das Forças Armadas.

Irei, com calma e paciência, mostrando essa mutação.

07.06.20

Fases da minha vida ‒ 16

(O estudo e as classificações)


Luís Alves de Fraga

 

Ao ingressar na Academia Militar, ido dos Pupilos do Exército, foram várias as novidades encontradas ‒ algumas já referidas ‒, mas a que contundiu mais com os hábitos adquiridos por mim, em anos de internato, foi a relacionada com as horas destinadas a estudo.

Com efeito, nos Pupilos só tínhamos duas horas e meia para estudar, que exigiam um grande aproveitamento do tempo, mas, na Academia, as horas de estudo, creio, eram duas, antes do jantar, e não era exercida grande vigilância sobre quem as utilizava para o fim previsto ou para outro qualquer. Isto foi a minha perdição, no primeiro ano. Perdição acumulada com a dificuldade das matérias leccionadas (as tais do primeiro ano da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).

Vejamos como se harmonizaram os astros para desgraça minha.

 

Habituado a testes ‒ na altura, chamados pontos escritos ‒ deparei-me com a total ausência de controlo do saber até às primeiras frequências, por volta de Fevereiro. Assim, passava as horas de estudo a escrever contos, a ler romances, a compor epístolas para uma namorada que tinha, a fumar, a conversar, enfim, a fazer tudo menos a apreender as complexas matérias leccionadas em aulas teóricas ‒ durante as quais, consequência da lengalenga das explicações doutorais, era possuído do maior sono jamais imaginado ‒ e em aulas práticas onde, de prático, fazia quase nada.

Está claro, as notas do final do primeiro semestre foram uma desgraça completa! Tão desgraçadas que, por volta do mês de Abril, me convenci de que só um milagre me podia salvar. E, na minha cabeça, o milagre começou a ganhar forma: a guerra em Angola ia acesa e rija, a marcha de contingentes militares para África fazia-se em grande velocidade, donde, era preciso despachar oficiais também, depressa e em força, de modo a seguirem de pronto para a colónia. Acrescia que, em Portugal, a situação política parecia estar instável ‒ ocorrera, no começo de Janeiro de 1962, o assalto ao quartel de Beja ‒ provada pelas sucessivas entradas de prevenção das unidades militares (e da Academia Militar também). Logo, não ia ser por causa das Matemáticas Gerais, da Geometria Descritiva e da Física Geral que se deixaria de fazer oficiais do quadro permanente. Assim, o problema não era meu, mas deles! Deles, ou seja, do ministro do Exército, do comandante da Academia e dos respectivos professores, que tinham ali mesmo à mão de semear uma caterva de jovens entusiastas capazes de pegar em armas e defender o Império. Seria verdadeira estupidez desprezar tamanha oportunidade!

Tal como eu, uma boa multidão de jovens cadetes acreditou no milagre: o problema era deles!

Realmente, em Julho, depois das manobras finais, o problema foi nosso: reprovámos redondamente, sem apelo. Ou seja, de trinta e dois alunos do primeiro ano de Administração Militar, passaram para o segundo, salvo erro, nove! Na verdade, aprovaram somente vinte e oito por cento dos alunos!

 

No ano seguinte arranjei como desculpa para o chumbo o facto de gostar muito de ser cadete! Era uma vida cheia de maravilhas… Mas apliquei-me ao estudo com afinco!

Foi por via desse afinco que fui punido a primeira vez na Academia (punição escolar, que não fica registada no processo individual, depois da ascensão a oficial). Eu conto.

 

Corria, provavelmente, o final do mês de Maio ou o começo de Junho e era uma sexta-feira à tarde, momento dedicado às célebres marchas pelas estradas secundárias que cruzavam a Amadora e iam até Belas, serra da Carregueira, Caneças, À da Beja e por aí fora; marchas onde fardávamos de fatos camuflados, capacete de aço, cartucheiras, cantil e a velha espingarda Mauser. Eram quilómetros para lá e para cá, de maneira a chegarmos ao aquartelamento próximo das seis horas, com bolhas nos pés e um cansaço que nos invadia completamente, quase nos incapacitando para outras actividades. No sábado seguinte, de manhã, íamos ter uma frequência ‒ a última ‒ de Geometria Descritiva; na anterior a minha nota fora fraca e se não a compensasse significativamente iria parar a exame final e poderia reprovar, facto que me punha a meio caminho da saída da Academia. O mesmo se passava com o meu amigo e camarada de curso, também antigo aluno dos Pupilos, António José Mendes Dias Trancoso. Tomámos uma resolução: faltar à marcha e ficar a estudar na camarata, onde seria improvável irem procurar-nos. Pensado e feito.

Numa das voltas do batalhão, ao passar por uma sebe, que oferecia condições para não sermos vistos, saímos e fomos, equipados, para a camarata, e, fazendo da cama estirador e dos baús bancos, começámos a rever a matéria empenhadamente. Como estava de costas para a porta não vi entrar o oficial de serviço ‒ único que tinha de ficar nas instalações ‒ que nos viu, sem a mínima réstia de dúvida, a estudar. Não teve compaixão. Participou e fomos punidos com a módica quantia de cinco dias de prisão escolar cada um! Equivalia a dez dias de detenção, facto que me dava margem de trinta dias para futuras punições. Houve quem, no ano anterior, por estar ausente desde uma quarta até à segunda-feira seguinte, só fosse punido com o triplo do número de dias de prisão! Às vezes, mais vale cair em graça do que ser engraçado!

 

Passei o ano e fui progredindo, em marcha normal, nas matérias, daí para a frente, fáceis de concluir, por serem ou de índole técnica (dessas tinha mais do que a necessária preparação adquirida no curso dos Pupilos) ou de natureza castrense (dessas eu gostava).

No terceiro e último ano do curso era-nos dada a possibilidade de escolher entre prosseguirmos carreira no Exército ou passar para a Administração Aeronáutica (a Força Aérea ainda não tinha a sua Academia). Poucos optámos pela segunda solução, mas, mesmo assim, alguns ficaram excluídos por falta de vaga: estávamos escalonados por classificação e esta contava até às centésimas.

 

Foi nesse ano que se iniciou a disputa pela obtenção de melhoria de notas, pois alguns camaradas meus sabiam da importância futura de ficar à frente ou ficar a trás… Isso poderia representar anos na promoção ao posto imediato. E, por causa disto, passaram-se coisas pouco dignas e dignificantes, que me escuso referir, mas que não esqueci, e, como se vê, não esqueço. Mesmo assim, consegui ficar classificado em penúltimo lugar num curso (o de Administração para a Força Aérea) de oito alunos. Estávamos no ano de 1965.

A guerra havia-se estendido à Guiné e a Moçambique. A falta de oficiais do quadro permanente era enorme. Nesse ano, sim, o Exército estava com um grave problema entre mãos. Tão grave que se tornou determinante para que o último passo do curso da Academia Militar fosse abreviado: não tivemos férias e iniciou-se logo o tirocínio, que, na Administração Aeronáutica, acabou nas primeiras semanas de Dezembro de 1965.

 

Foi promovido a alferes com a antiguidade de 1 de Novembro desse ano. A minha vida profissional ia começar.

04.06.20

Fases da minha vida ‒ 15

(Instrução física e militar)


Luís Alves de Fraga

 

Desde o primeiro até ao último ano do curso da Academia Militar a actividade física intensificava-se e mudava de modalidade, ou seja, aquilo que no início se limitava a ginástica, hipismo, marchas de média distância com equipamento e armamento completos e ordem unida, no ano final passava à prática de boxe, judo, luta militar, aplicação militar (exercícios incluindo todo o tipo de obstáculos e outros mimos).

 

O objectivo era evidente para quem estivesse com atenção e algum espírito crítico: criar, em doses sucessivas, o endurecimento, a coragem, a resiliência nos futuros oficiais. Claro que estes aditamentos, porque não são de natureza física, instalavam-se, com maior ou menor firmeza, nas nossas mentes, gerando mecanismos psíquicos para nos capacitarem a enfrentar o esforço físico e o sacrifício em combate. A morte e a dor teriam de nos passar ao lado de forma a não afectar a determinação nos actos de obediência e de comando. Só um treino desta natureza justifica que não tenham sido muito grandes ‒ em número e gravidade ‒ os casos de stress pós-traumático entre os oficiais do quadro permanente durante e no fim da guerra em África. Não me restam dúvidas, nós saíamos bem preparados para, psicologicamente, suportar embates de várias naturezas. Acima de todos havia um que, sem dúvida, caracterizava (e deve caracterizar ainda) os jovens alferes, tenentes e capitães do meu tempo: a capacidade de tomar decisões em situação de desnorte, caos ou catástrofe. Podiam não ser as melhores decisões, mas havia sempre uma, qualquer que fosse.

Como exemplo desta situação ‒ verificável pela consulta dos jornais da época ‒ temos os títulos das notícias, na sequência do dia 25 de Abril de 1974, chamando aos capitães os homens sem sono, porque acudiam a toda a hora e em qualquer circunstância aos mais diferentes pedidos de intervenção para resolver problemas sociais, políticos e, até, económicos. Afinal, o que estava em jogo, era a capacidade de decidir em ambiente de anomia social. Era para isso que tínhamos sido preparados.

 

Explicar os mecanismos usados, ao nível da instrução militar, para alcançar o fim indicado, não é tarefa fácil, mas vou tentar, através de exemplos pessoais, juntar aqueles que, na minha opinião, terão servido para o efeito.

Como já referido, o hipismo é, e foi, a modalidade mais apropriada para aprender o que fazer e como fazer no momento certo, pois não se trata somente de uma técnica que se conhece, porque, na sua prática, estão em jogo duas vontades autónomas e completamente independentes: a do cavaleiro e a do cavalo. O primeiro tem de dominar o segundo, sendo que este procurará impor a sua vontade, se não se sentir subordinado.

A velha e desgastada pergunta dos instrutores de hipismo, quando um cadete era atirado ao chão pelo cavalo ‒ «Quem o autorizou a desmontar?» ‒ não era absolutamente nada sádica! Ela traduz o que acabei de referir: sem autorização do instrutor, o acto de desmontar só podia resultar da vontade do cavalo e essa não tinha cabimento no picadeiro! E não se pense que, a este propósito, o nosso rei D. Duarte era um simples pensador sem razão. Ele, como qualquer cavaleiro medieval, conhecia bem o valor psicológico de montar toda a sela (há selas mais fáceis de montar do que outras). E o que era verdade no século XV continua a ser verídico nos séculos XX e XXI.

 

Uma outra modalidade de instrução decisória passa pelo exercício da liderança e, para tal, todos os cadetes eram treinados, comandando temporariamente conjuntos de camaradas seus. Creiam, não é nada fácil exercer acção de comando ou chefia sobre iguais, sobre aqueles que se sentem tão habilitados para o exercício do mando como aqueles que os mandam. Para se alcançar essa capacidade não basta ser empossado no cargo; é preciso conseguir superioridade sobre quem se comanda, ou seja, é necessário saber liderar. Quando se é capaz de comandar iguais está-se habilitado a comandar quem, naturalmente, se sente menos capaz para o exercício da autoridade.

Era isto que se aprendia, ao longo dos meses, dos anos, na Academia Militar do meu tempo.

 

Mas, a prática, ia mais longe, para nos treinar em ambiente semelhante ao que se vive em combate sujeito a grande esforço físico e, até, algum perigo. Disso tivemos a experiência nas manobras, no Campo Militar de Santa Margarida, no começo do Verão de 1962.

Fizemos de soldados, de graduados e passámos por todos os esforços ‒ o que custou foi esse ano, porque, nos subsequentes, já estávamos habituados ‒ comuns a uma dura campanha. As longas marchas sob um sol escaldante, as esperas infinitas para mudar de posição, mas, mais do que tudo, as provas de patrulhas segundo percursos devidamente balizados, às vezes, ouvindo o zumbido dos disparos de armas com munição verdadeira, constituíam um processo de nos ir pondo à prova e, ao mesmo tempo, de nos fazer ultrapassar as dificuldades psicológicas que se levantam em momentos de intenso esforço físico e psiquíco, associando a tudo isto um outro efeito: o da interajuda no grupo.

 

Todos os anos fomos tendo manobras, exercícios e treinos mais duros, contudo, sentidos mais brandamente, pois a nossa forma de estar e pensar já estava a moldar-se dentro do formato que nos devia acompanhar por toda a vida.

A Academia Militar, tal como as suas congéneres da Marinha e da Força Aérea, em Portugal e em todos os países, era ‒ e deve continuar a ser ‒ uma fábrica de oficiais militares.