Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

11.04.20

Micro e macro justiça


Luís Alves de Fraga

 

Nunca tive desejo de ser político. Gosto de servir o meu país em áreas muito distintas da política. Servi-o e, creio, continuo a servi-lo, agora já só limitado à escrita e a quem lê o que escrevo. Servi-o como militar e como professor. Desta última actividade resultou uma outra forma de servir o meu país: fazer História, investigando o passado recente. Mas, servir como político ficou sempre fora dos meus objectivos.

Todavia, há muitos anos, iniciei-me no estudo da Ciência Política, naquilo que os políticos fazem, e aprendi que há uma relação de causa-efeito entre a política/políticos e a sociedade. Os políticos e a política, para sobreviverem, precisam da sociedade e os cidadãos, para encontrarem soluções para os seus problemas, os seus desassossegos, as suas angústias, as suas inseguranças, precisam dos políticos.

Entre uns e outros há sempre um diálogo dialéctico delimitado pela acusação e pela justificação; a sociedade acusa e os políticos justificam. Nem sempre são facilmente inteligíveis as justificações, embora as acusações saltem facilmente à vista.

 

Para estudar este tipo de fenómeno social tem de se ser capaz de se posicionar num dos termos da argumentação dialéctica, percebê-lo e, depois, saltar para o outro termo e compreendê-lo, porque ambas as partes têm razão ou, pelo menos, a sua razão. Neste jogo de tese-antítese o investigador, o politólogo, tem de estabelecer a síntese quase nunca aceite por nenhuma das partes, embora seja a que busca o equilíbrio moderado e moderador.

 

Vem tudo isto a propósito das queixas que já se fazem ouvir por parte dos casais com filhos pequenos ‒ em idade de infantário ou primeiros anos de escolaridade ‒ a fazerem teletrabalho, confinados ao espaço de casas pequenas. Dizem que não conseguem atender a todas as solicitações e a solução passaria por, segundo estes pais e trabalhadores, o Estado pagar a um dos progenitores uma parte do salário e as obrigações laborais passarem a meio tempo e deixarem de pagar aos infantários ou escolas que, de facto, não lhes estão a fornecer qualquer tipo de serviço. Assim tornar-se-á possível prestar atenção aos filhos e ao emprego!

 

Compreendo completamente as razões destes trabalhadores e pais angustiados pela alteração de rotinas que lhes desconjuntou a vida. Mas há uma distância entre compreender e concordar! Para compreender basta colocar-me no lugar deles; para concordar tenho de analisar a solução preconizada por eles.

 

Começando pelo pagamento das escolas/infantários.

Se estes estabelecimentos continuam a cobrar mensalidades por serviços que não realizam é porque têm de continuar a pagar aos empregados, que os auxiliam em tempos de normalidade. Mas, aqui, admito, deveria ser o Estado a liquidar esses encargos, libertando as escolas e infantários dessa despesa e, deste modo, aliviando as famílias de tal obrigação. Acho que é um dever social, pois acompanha a problemática da restante economia.

Já, quanto ao meio tempo e meio salário, temos de olhar para o problema do empregador. Vejamos.

Se o empresário tem gente a laborar em regime de teletrabalho é porque consegue margem para se manter activo; se lhe retiram capacidade de produção, passando a um meio tempo de trabalho, afectam-lhe a quantidade produzida, logo, ou tem de dispensar por completo o trabalhador para o substituir por outro ou tem de contratar alguém para dar continuidade ao trabalho que não é feito ou, em última instância, tem de pedir ao Estado a compensação financeira para aquilo que deixa de produzir.

 

Estamos, por conseguinte, perante dois tipos de problemas: um ‒ de natureza micro ‒, o dos trabalhadores com filhos pequenos confinados ao domicílio; outro ‒ de natureza macro ‒, o de uma economia que, para satisfazer as exigências de alguns trabalhadores, vê desequilibrada a sua capacidade produtiva.

Qual é que deve ser sacrificado e qual deve ser beneficiado?

 

Este é o dilema dos grandes decisores políticos, porque há sempre custos sociais ou económicos qualquer que seja a solução escolhida.

O problema de quem toma decisões é que, também, tem de saber dormir sem pesos de consciência, porque reclamar é fácil. E também é fácil ser faccioso, intransigente e surdo, limitando-se a olhar uma só parte e esquecendo a globalidade dos problemas.

Aqui têm o motivo por que me dediquei à politologia e não à política.

10.04.20

Não é, e por que não é!


Luís Alves de Fraga

 

Esta pandemia não é uma guerra! Não é, porque uma guerra pressupõe um inimigo e o vírus, sendo uma ameaça, é de natureza sanitária e jamais de natureza bélica.

O vírus não é inteligente. A nossa falta de cuidado e de inteligência é que lhe dá perigosidade, por isso, ele não é um guerreiro, não é um inimigo, porque inimigos somos nós de nós mesmos.

Então, não há linha da frente, porque não há frente nem retaguarda para o vírus. Há gente ‒ gente muito meritória ‒ que trata de nós, quando fomos inimigos de nós mesmos.

 

Uma pandemia viral não é uma guerra, nem uma guerrilha nem um conflito bélico assimétrico. Uma pandemia viral é um descuido sanitário.

Não confundam o pessoal de saúde com soldados.

O pessoal de saúde aprende a retardar a morte ou a torná-la menos insuportável; os soldados, embora não gostando de matar, aprendem a matar sempre que for necessário; a matar da maneira mais eficaz e mais eficiente.

Os ministros não são generais; são políticos, que, neste momento, estão a saber liderar uma situação anormal, mas não uma situação de guerra.

 

É tempo de não confundir o sentido das palavras. É tempo de não confundir conceitos. É tempo de perceber quem é inimigo de quem e quem faz mal a quem.

09.04.20

102 anos passados


Luís Alves de Fraga

Relatório sumário do Gen. Gomes da Costa.JPG

 

No dia de hoje, pela hora a que escrevo, já eram poucos os soldados a oferecer resistência à avalanche alemã, em La Lys, nas trincheiras do sector do Corpo Expedicionário Português (CEP), no ano de 1918.

 

Foi o derradeiro grande esforço nacional na Grande Guerra. Não foi uma estrondosa derrota por vários motivos.

 

A batalha de La Lys, iniciada à 4h15 de 9 de Abril de 1918, só acabou no dia 24 desse mesmo mês, quando as forças britânicas conseguiram travar o avanço alemão; se tivéssemos de lhe chamar derrota tê-lo-ia sido tão portuguesa quanto britânica até ao dia 23, pois só no dia seguinte os alemães desistiram.

Depois, não foi uma derrota, porque não se saldou na vitória germânica.

Foi um confronto que os soldados portugueses não conseguiram superar; mas não o superaram eles, nem ninguém, que estivesse naquele lugar, àquela hora, naquele dia e ano, o conseguiria superar.

É tempo de deixarmos de nos lamuriar, de denegrir o esforço dos nossos militares.

Distribuição do rancho no Pátio sas Osgas.jpg

Por outro lado, também não foi um desastre tremendo em baixas por morte! Para o que poderia ter sido, foi insignificante ‒ aqui fala a frieza do militar e do historiador ‒, pois nesse dia só morreram 423 combatentes!

E foi assim, porque os alemães fizeram um excelente movimento táctico: penetrando nos flancos da 2.ª divisão do CEP, envolveram-na e, ao criar uma bolsa, atacaram por trás, impedindo a resistência, pois toda a estrutura defensiva estava virada para a frente. Foi a falta de capacidade de combate dos britânicos, em especial no flanco esquerda da divisão portuguesa, que permitiu a manobra germânica.

Claro que os nossos soldados “foram apanhados à mão” como quem apanha coelhos! Mais de seis mil homens ficaram prisioneiros! Contudo, também este número não nos deve espantar, porque noutros momentos de grandes batalhas, durante este conflito, foram feitos prisioneiros, por vezes, dez ou vinte mil soldados franceses ou britânicos, tal como os aliados aprisionaram milhares de alemães.

Prisioneiros_ingleses_portugueses_09_04_1918.jpg

 

Na passagem do centenário da Grande Guerra bastantes historiadores portugueses, com responsabilidades, porque profissionais da História, e outros com vocações recentes, choramingaram o esforço dos nossos soldados e fizeram da intervenção no conflito um erro político, porque se limitaram a interpretar os queixumes das memórias inéditas, algumas, e não foram capazes de perceber as mais profundas razões determinantes da opção beligerante.

 

Se compararmos o efectivo de homens e mulheres ‒ as enfermeiras militares e da Cruz Vermelha ‒ mandados para França e a totalidade de mortos (em combate, por desastre e por doença) verificamos que a percentagem foi exígua quando comparada com as, nos dias de hoje, em acidentes de viação, por gripe e por covid 19. Assim, de 55165 mobilizados faleceram 1992 militares ou seja 3,6%, durante dezanove meses.

Tendo sido poucos os mortos ‒ se comparados com os números dos outros Estados beligerantes ‒ nem mesmo assim podem ser esquecidos. Lutaram por uma causa da qual, a maioria, não compreendia a razão. O seu esforço e sacrifício não foi em vão; permitiu que Portugal saísse de cabeça erguida na conferência da paz, ao invés da posição subserviente, que os não beligerantes aceitavam para conservar uma neutralidade vergonhosa e que em nada defendia o interesse nacional.

 

09.04.20

Fases da minha vida ‒ 1.A

(Coisas do ser e do coração)


Luís Alves de Fraga

 

Afinal, resolvi não passar de imediato para a minha entrada no Instituto dos Pupilos do Exército, porque, ou bem que vou falar de mim e, então, não deixo coisas curiosas para trás ou vou, somente, levantar pontas de véus da minha vida. Assim, opto pela primeira hipótese. Vamos lá a algumas curiosidades ‒ que me lembro ‒ da minha mais recuada infância.

 

O meu primeiro encantamento pelo belo sexo começou ‒ não posso precisar a idade, mas antes da meia-dúzia ‒ quando a minha irmã (mais velha sete anos do que eu) levou, para estudar, lá em casa, uma colega trigueira e com covinhas nas bochechas quando sorria. Não parava de me pendurar na cadeira onde se sentava e não conseguia conter o desejo de a encher de beijinhos. Se eu tivesse cinco anos, ela deveria ter doze. Só não menciono o nome de tal beldade por natural resguardo. Nunca o esqueci!

 

Mantendo-me neste domínio, recordo, o elemento que mais me atraía nas jovens mulheres (meninas com mais dez, quinze anos do que eu): eram os vastos seios, que admirava sem retenção moral ‒ que não tinha ‒ de qualquer espécie… Eram bonitos e, se me perguntassem ‒ que muitas vezes perguntaram ‒, não receava dizer que Fulana tinha umas bonitas maminhas, por serem grandes!

E este desbragamento levava-me a ficar silencioso e calado ‒ o extremo contrário do meu comportamento habitual ‒ em certas circunstâncias, que passo a recordar.

 

Os meus pais gostavam de ir, com outros casais amigos, ao teatro de revista, no Parque Mayer, em Lisboa. Alugavam um camarote de terceira ordem ‒ os mais baratos ‒ e lá entravam quatro adultos, eu e a minha irmã. Ficava ao colo da minha mãe.

Terei visto actuar nomes grandes desse género teatral ‒ Estêvão Amarante, Luísa Satanela, Hermínia Silva, Beatriz Costa ‒ e, não percebendo bem os diálogos dos vários quadros, que faziam rir os espectadores, concentrava-me ‒ recordo-me muito bem ‒ no conjunto de coristas, que generosamente, de acordo com os padrões daquele tempo, mostravam pernas bem torneadas, cinturas estreitas e vastos seios quase a saltar das vestes apertadas, coloridas e reluzentes. Era o meu momento de completa quietude e emudecimento. Como gostava de ver tais beldades moverem-se no palco e pavonearem-se ritmicamente ao som de músicas, que nem recordo nem saberia repetir, tal a minha absorção no quadro onde se deleitavam os meus olhos, já então, gulosos!

Para gáudio de alguns adultos amigos dos meus pais, quando me interrogavam sobre a minha redobrada atenção explicava tudo muito claramente e, posta a hipótese de poder ir até aos bastidores, uma vez, inquiriram-me sobre o que gostaria de lá fazer ou ser; a minha resposta foi desconcertante: espelho! Espelho para ver as coristas vestirem-se despirem-se!

 

Algo de semelhante ocorria quando íamos ao Coliseu dos Recreios assistir a espectáculos circenses. Nunca me encantaram os ilusionistas que tiravam coelhos da cartola, nem os domadores de leões, nem os apresentadores de cães amestrados. O que me enfeitiçava mesmo eram as partenaires nos seus fatos minguados, cheios de lantejoulas, bamboleando-se ao fazerem gestos largos, que permitiam ver as curvas fartas, à moda da época.

 

Saltando no tempo, talvez quatro ou cinco anos, no Carnaval de 1951, a grande moda musical, um furor, foi a raspa!

Nesses dias de folguedo, fomos a um dos vários bailes do Lisboa Ginásio Clube, onde eu e a minha irmã, desde sempre, praticávamos educação física. Por lá conheci uma menina dois anos mais velha do que eu ‒ a Maria Amélia ‒ que morava na minha rua, um pouco lá mais para baixo. Confesso, foi a minha primeira grande paixão verdadeiramente amorosa.

 

Naquele tempo, tudo era difícil. As meninas não saíam de casa quando queriam e não havia justificação para se encontrarem com um rapazinho desconhecido da família. Resultado: restava-me esperar, especado, em frente do prédio, olhando a janela e assobiando a raspa ‒ cujos acordes ainda sei ‒ na esperança de que a Maria Amélia viesse espreitar e me compensasse com um sorriso ou, maravilha das maravilhas, com um aceno de mão.

Nada aconteceu. A paixão durou ainda uns meses, mas, depois, foi substituída por uma outra nascida nos bancos da catequese, na igreja dos Anjos.

 

Era uma menina loura, quase angelical, que concitava sobre si o desejo de alguns rapazes ‒ os mais atrevidos ‒ se sentarem ao seu lado, enquanto a catequista falava dos pecados mortais, veniais e das labaredas do inferno.

No inferno estava a minha vida, porque um parvalhão, reguila, chegava mais cedo e sentava-se ao lado da minha diva.

Claro, tudo acabou numa cena de soco e pontapé, no jardim da igreja. Ele ficou com um olho negro e eu com um alto atrás da orelha esquerda. A beldade loura deixou de ir à catequese e nós, os pretendentes, ficámos a olhar-nos de soslaio.

 

Quando me preparava, numa explicadora, para os exames de admissão ao liceu e aos Pupilos, conheci uma menina, também loura e de cabelo comprido, que apagou a lembrança de todas as outras. Era mais velha um ano do que eu e acabou por vir a ser um caso muito mais sério do qual falarei em altura mais apropriada.

08.04.20

Fases da minha vida ‒ 1


Luís Alves de Fraga

 

Tanto quanto me lembro, em criança, nunca quis ser nem cowboy, nem índio, nem polícia (abrenúncio satanás!) nem bombeiro, nem médico ou enfermeiro.

Lembro-me de brincar com a serrinhas de cortar as ampolas das injecções, que o meu pai aplicava, fazendo operações em bonecos de papel pouco imaginativamente inventados por mim. Mas isso não me levava a expressar a vontade de ser médico! Julgo, essa brincadeira era consequência da profissão do meu progenitor.

 

Talvez, por ter nascido durante a 2.ª Guerra Mundial e ter visto muitos filmes sobre o conflito ‒ não existiam limites de idade para assistir a espectáculos ‒ comecei a ter gosto pelas brincadeiras com soldados de chumbo, que os havia à venda em vários locais e com fardas e cores atractivas, imaginando-me a comandar tropas em lutas e confrontos tão variados quanto a minha imaginação me permitia.

Acho que, a acrescentar ao já dito, teve também influência nesta fase inicial da minha vida o facto de o meu avô materno ser 1.º sargento reformado de cavalaria, falar das campanhas de África, contar episódios da Grande Guerra em França e, mais ainda, ter um grande planisfério onde pregava alfinetes com papelinhos coloridos para marcar as reconquistas aliadas.

 

Mas, claramente, ser agente da autoridade cívica, embora andassem fardados e armados, nunca esteve no meu imaginário infantil, porque recordo muito bem a tarde em que foi conhecida a vitória aliada na Europa, a alegria popular na zona da Graça, em Lisboa, e a manifestação espontânea que se gerou, descendo a minha rua e o modo como a polícia de segurança pública atacou à bastonada esses homens, tão-somente por festejarem o fim de um tempo de medo e insegurança. Lembro ainda a raiva que senti subir por mim acima! Não percebi, nos meus quatro anos de vida, o motivo para aquela brutalidade. A minha mãe segurava-me à janela do nosso segundo andar e queria-me calado quando eu gritava uma raiva que, ainda agora, não sei de onde me chegava.

 

A minha antipatia pelos polícias vinha já de trás, por causa da perseguição que faziam às peixeiras, que, ao fim da tarde, gritavam os seus pregões para que as freguesas lhes comprassem os peixes trazidos nas canastras à cabeça. Deixava-me possesso o modo como os agentes corriam atrás daquelas mulheres, obrigando-as a perder mercadoria, que caía no chão, e chinelas, que lhes saltavam dos pés. Depois de terem feito todo o desalinho, os guardas iam-se embora, para a Graça, enquanto as desgraçadas voltavam a recolher os pertences deixados ao longo do passeio fronteiro ao meu prédio.

Creio, assim se justifica a minha antiga aversão pelos polícias ‒ reconheço, é um preconceito sem fundamento nos dias de hoje ‒ e só à custa da lógica racional a ultrapasso no plano pessoal e, até, institucional.

 

Assim fui crescendo e, um dia, já não recordo como, fiz amizade com um rapaz, um pouco mais velho, morador na minha rua. Estava de férias e falou-me do Instituto dos Pupilos do Exército ‒ filho de divorciados, o pai era sargento ‒ onde era aluno. Eu frequentava aquilo que hoje se designa por quarto ano de escolaridade. Entusiasmei-me com a farda, a vida por ele descrita, as possibilidades futuras, coisa que, para mim, naquela altura, não constituía preocupação. Cheguei a casa e disse ao meu pai: «Gostava de ir para os Pupilos do Exército». Pegou-me na palavra e não mais a deixou cair.

Iniciava-se, então, a segunda fase da minha vida.

06.04.20

Fascismo português

(Uma nova achega para o definir)


Luís Alves de Fraga

 

A Guerra Colonial, entre 1961 e 1974, não foi mais do que a continuação das chamadas Campanhas de Pacificação, levadas a cabo nos últimos anos do século XIX e primeiros do século XX e, assim, se demonstra que Portugal não defendia um Império herdado da gesta de quinhentos, mas queria consolidar um império resultante da Conferência de Berlim, realizada em 1884-1885.

 

Isto demonstra, também, que o Estado Novo era tão fascista-expansionista como o italiano ou o alemão, com uma só diferença: estes eram agressivos e conquistavam visivelmente e o fascismo português conquistava invisivelmente, acobertando-se numa mentira histórica: a da defesa de um património herança de uma Expansão Marítima, que, ao invés de levar a cabo uma política de conquista territorial como a que foi adoptada pela Espanha, optou por uma política comercial marítima, mais amistosa e humana, estreitando os laços entre a Europa e África e o Oriente.

 

Temos de tomar consciência desta nuance do fascismo português, da qual, creio, sou pioneiro, pois não vi isto escrito, até agora, em lado nenhum e antes de eu o dizer ou até pensar.

05.04.20

Ajudas do Estado


Luís Alves de Fraga

 

Claro que, quando a economia começa a ameaçar ruir, é ao Estado que compete segurar todas as pontas para que não caiamos no caos absoluto. Disto não há dúvidas, por mais que se esteja contra este ou aquele governo.

Naturalmente, temos de nos perguntar sobre quem é o Estado. Na velha definição aprendida há muitos, muitos anos, o Estado é a Nação politicamente organizada e, ao aceitar que assim é, aceitamos que no Estado reside a nossa vontade colectiva, colectivamente delegada para nos assegurar bem-estar, defesa, segurança, ordem e integração no concerto dos outros Estados também soberanos.

 

Talvez nunca, nos últimos anos, a figura Estado tenha tido tanta presença junto de nós, pois, agora, todos esperamos que seja ele o nosso protector, o nosso amparo, o nosso sustentáculo. Estranhamente, nesta altura, esquecemos a relutância que temos quando toca a pagar impostos para dar existência à máquina estatal, porque todos fugimos o mais possível a essa contribuição; fogem os ricos e fogem os menos ricos. Sendo esquisito, contudo, é compreensível, esta forma dicotómica como percepcionamos, por um lado, as obrigações do Estado e, por outro, os seus direitos, pois é um direito estatal a arrecadação de impostos para cumprimento dos seus deveres.

Compreendem-se os nossos estados de espírito perante o Estado, porque somos fruto de uma cultura individualista: exigimos receber e evitamos pagar. Prevalece o eu liberal em oposição ao nós colectivo. Esse nós só funciona, e com toda a carga imperativa, quando cada eu individual se sente ameaçado e, então, surgem as obrigações colectivas do Estado.

 

Aplaudimos e louvamos os esforços do pessoal sanitário, que nos salva e nos trata agora, mas esquecemos que eles têm de viver dos nossos impostos e, bom será que mantenhamos a recordação actual quando chegar o momento de lhes reduzir as horas de trabalho e aumentar os salários. Acreditem que essa hora vai chegar! Vai chegar da mesma forma que a administração da TAP já se posiciona para pedir ao Estado a ajuda a que se julga com direito em consequência da falta de operação.

 

Temos aqui um caso típico de um eu colectivo a funcionar como um eu individual. Vejamos.

A TAP vai ter um grande prejuízo no final desta crise. Claro que vai, tal como todas as grandes empresas que vivem de um mercado flutuante, mas o capital que sustenta a companhia de aviação é conseguido pela compra de acções, o que quer dizer que o prejuízo é suportado em função da não distribuição de dividendos aos accionistas. Estes têm bom remédio: vendem as acções de modo a perderem o menos possível. E vendem ao Estado, pois assim será justo o processo de o dinheiro público poder dar entrada com vantagem na companhia aérea. Injusto seria injectar dinheiro a fundo perdido, pois, mais tarde, os dividendos irão cair nos bolsos dos accionistas.

Claro que o conselho de administração da companhia pode, se assim o decidir, lançar um grande empréstimo sob a forma de obrigações!

Poder, pode, mas é mais fácil, à semelhança do que a banca fez, levar o Estado a capitalizar a TAP, o mesmo é dizer, levar todos nós a pagar o prejuízo que deve ser suportado pelos accionistas, na medida em que, havendo lucro, este não é entregue ao Estado, ou seja, a todos nós.

 

A TAP não se pode querer comparar a uma pequena ou média empresa capitalizada à custa de bastantes sacrifícios dos sócios, geralmente dois ou três com pequenos recursos financeiros. Neste caso, esses negócios têm de ser olhados pelo Estado como se de cidadãos individuais se tratassem, olhados do mesmo modo como olha o desempregado, o doente, o reformado.

 

É no exercício deste difícil equilíbrio entre ser político e ser servidor da nação, que os governantes, porque dão pernas, braços, corpo e rosto ao Estado, têm de mostrar a sua real capacidade e, acima de tudo, a sua honestidade.

Vamos ver, vamos ver…

02.04.20

Comparações


Luís Alves de Fraga

IMG_20180803_124353.jpg

 

 

Nos primeiros dias de Agosto de 1914 a França mobilizou, apressadamente, as reservas militares e fê-las marchar para a frente de combate a fim de suster a avalanche alemã que, depois de invadir a Bélgica, entrou de roldão e em força pelas fronteiras, pondo em risco a capital do país. Até os táxis de Paris foram mobilizados, para levar para a frente de combate, os soldados necessários. Os militares seguiam alegremente para a luta, despedindo-se com largos sorrisos, pois estavam convencidos que voltariam antes de Dezembro para festejar o Natal com as famílias.

 

Os combates foram ferozes e a frente estabilizou-se sem haver hipóteses de a romper em lado algum. Duas linhas de trincheiras foram abertas desde o canal da Mancha até à fronteira com a Suíça. De lado a lado os homens enterraram-se e passaram a combater quase sem se verem, pois a maioria das mortes resultava dos estilhaços das granadas de artilharia disparadas de parte a parte. Para levantar o moral das tropas, lá se fazia, de quando em vez, uma incursão à trincheira adversária.

A guerra durou quatro anos e quatro meses.

 

A dez quilómetros para a retaguarda das trincheiras ‒ às vezes, menos ‒ a vida corria quase como se não houvesse guerra: salões de chá, mercearias, tabernas faziam negócio com os militares e com alguns civis que não haviam fugido. O cultivo das terras continuava a fazer-se. Todavia, isto era uma mera ilusão, pois, nas grandes cidades, faltava tudo, e o que se vendia era a preços exorbitantes. As redes de comércio externo e interno estavam destruídas. As diferentes indústrias tinham-se convertido em fábricas de material de guerra ou de produção de artigos necessários para as tropas.

Os bancos faziam investimentos em fábricas e empréstimos aos Estados para poderem pagar a guerra. Os Estados emitiam moeda e, assim, dando meios de pagamento aos cidadãos comuns, inflacionavam os preços. Tudo foi diferente e esquisito durante esses quatro anos. Por falta de homens para trabalhar nas fábricas, as mulheres passaram a desempenhar essas funções duras e pesadas. Os únicos pensamentos transversais à sociedade, em França e nos outros países beligerantes, eram: como sobreviver, como aumentar os lucros; como lutar contra a fome; como pagar as dívidas.

 

A pandemia que vivemos veio colocar a humanidade em cenário de guerra: uns combatem, dando possibilidades de tratamento, outros tentando sobreviver à doença. Esses são os que estão nas trincheiras.

Na retaguarda estão os que esperam por ser mobilizados para a frente por terem contraído a doença e os que se defendem dela enfiando-se no seu buraco com a esperança de nenhum estilhaço os atingir.

Mas, também na retaguarda, o descalabro económico é quase total. É como se os bombardeamentos impossibilitassem a laboração. Estamos a viver um verdadeiro estado de guerra com o ruir dos circuitos produtivos e económicos. É uma guerra que não vai acabar no Natal! Mas, se acabar, deixa atrás de si um rasto de destruição imenso. E mais imenso vai ser quanto mais tempo durar.

 

A reconstrução tem de ser feita com critério. Primeiro, vamos retomar o que é essencial ‒ trabalho e bens indispensáveis ‒, depois, e só depois, os consumos supérfluos.

A grande diferença de 1914 para os dias de hoje é que, entretanto, a função do Estado alterou-se: no começo do século passado não era elemento interveniente na economia; agora, sabemos que lhe cabe um papel fundamental na relação entre o trabalho e o capital, entre liberdade de mercado e regulação do mesmo.

 

Depois da pandemia espera-se que os Estados ponham de lado o liberalismo, tão do agrado da finança, e assumam o papel de defensores dos equilíbrios sociais, porque é para sustentar a sociedade que existem os Estados com os seus mecanismos reguladores. E que os políticos não esqueçam que o poder do Estado é um poder delegado, pois a soberania reside no Povo, o mesmo é dizer, na sociedade.

Pág. 2/2