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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Famílias e governos

 

Propositadamente não tenho querido entrar na polémica, mais que pública, de haver muitos familiares de governantes em cargos de nomeação ou de escolha dentro do aparelho do Estado. Não quis, porque acho a discussão absolutamente pueril, própria de quem desconhece a história social e política portuguesa do século XIX, a partir do ano de 1834, data da vitória do Liberalismo.

 

Com efeito, desde a data em que se passaram a escolher por votação os representantes políticos do “Povo”, em Portugal, o “negócio” de votos a favor do partido B ou C, em troca de lugares “à mesa do orçamento” tornou-se a coisa mais vulgar e corriqueira na prática política nacional.

 

Nesta nova “fase” da democracia nacional – fase iniciada em 25 de Abril de 1975, data das primeiras eleições livres – começaram a chamar-se para a “mesa do orçamento” os boys e, quase ao mesmo tempo, os familiares próximos ou distantes.

Qual é, por conseguinte, o actual espanto?

Os “espantados” – e não são poucos – não percebem que todo este burburinho resulta da falta de “assunto” da oposição à direita para fazer campanha?

 

Eu sei, eu sei, nem tudo está bem na acção governativa de António Costa, mas dois argumentos de peso têm de ser levados à conta do Governo: saber juntar toda a esquerda para governar com relativa tranquilidade e reduzir o deficit orçamental com a consequente liquidação de dívida.

Também sei que não satisfez as reivindicações dos professores, dos enfermeiros, nem fez investimentos nos caminhos-de-ferro e nem fez… um grande número de coisas! Sei isso tudo, contudo, os meus leitores já perderam a capacidade imaginativa para poderem vislumbrar o que seria se estivéssemos a ser governados pelo PSD de Passos Coelho? O que é que já teria sido vendido “ao preço da uva mijona” a empresas estrangeiras? Como estaríamos de salários e de desemprego?

 

Meus Amigos, o que tem sido feito de mais ousado em política salarial e económica pelo partido do Governo resulta da acção conjugada do PCP e do BE, porque cada partido tem a sua matriz de acção; por isso mesmo, estaríamos em muito maus lençóis se na governação estivessem o PSD e o CDS.

 

Vamos passar a discutir o que é importante e deixar de lado os assuntos que só favorecem a oposição de direita?

BREXIT

 

Por outras palavras, tenho dito o mesmo até à exaustão.

 

«A discussão em torno do Brexit documenta o âmago da crise das democracias liberais na Europa e apresenta-se como uma chamada de alerta contra a desmontagem da cultura ocidental através de um multiculturalismo desenfreado implementado através de uma desculturalização da Europa. Como reacção surge um nacionalismo superficial encostado à economia e à tradição.

(…)

O Brexit vem dar razão aos países que criticam o centralismo de Bruxelas e que defendem o patriotismo europeu e nacional.

O dilema da Europa em Bruxelas é criar mais problemas do que os que resolve; isto é, a incapacidade de criar um compromisso entre os que querem uma Europa mais ela, mais cultural e os que querem uma Europa mais comercial, mais na mão dos boys. Pouco a pouco vai-se tendo a impressão que, numa sociedade de intrigas, tudo anda a fazer batota, mas o trágico é que ninguém nota!»

(António Justo in “ABC Portucale – Portugais-Français – Jornal comunitário em português”. n.º 130, ano 6, 30 de Março de 2019).

Lançamentos de livros

 

No passado dia 26 tive a honra e o grato prazer de apresentar o livro, da autoria da Senhora Dr.ª Noémia Louçã, intitulado Uma Fragata no 25 de Abril: A Verdadeira História da Almirante Gago Coutinho.

Trata-se de uma obra que, julgo, finalmente, vem deixar claro o que se passou a bordo daquele navio da nossa Armada, escrita pela viúva do capitão-de-fragata António Seixas Louçã, comandante do vaso de guerra. Tem anexos muito interessantes e esclarecedores.

 

Sem pretender fazer aqui o relato do que disse na apresentação, julgo que posso sintetizar afirmando duas coisas:

Passou tempo demais para se manter silêncio sobre o papel fundamental do comandante Louçã para que não houvesse derramamento de sangue, naquele dia, no Terreiro do Paço, em Lisboa, pois, quase tudo o que a imprensa afirmou sobre o comportamento da fragata é falso, como distorcidas são algumas afirmações de certos intervenientes nos acontecimentos, uma vez que o comandante nunca perdeu o comando da fragata, nem deixou de controlar todos os acontecimentos a bordo. O resto são equívocos próprios de um tempo de acusações, de distorções, de omissões, de medos mal contidos, de pseudo-heroicidades – que as não houve, de facto – de responsabilidades e irresponsabilidades mal geridas;

Na minha leitura do livro, enquanto historiador, não fiz julgamentos, mas, penso, terei contribuído para leituras mais atentas e olhadas de outros ângulos, às vezes, pouco evidentes para quem anda por fora das coisas militares.

 

Não sei quem foi que disse, mas ouvi algures, as revoluções engolem quem as faz e atiram para a ribalta da História quem soube delas se aproveitar.

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Ontem, dia 28, fui assistir ao lançamento de mais um livro do meu “velho” companheiro de estudos, no Instituto dos Pupilos do Exército, Jacinto Rego de Almeida.

É um romance com um estranho nome: Traga uma orelha de Pedro Sanches.

 

A professora que fez a apresentação da obra presenteou-nos com uma boa lição de literatura sobre o “roman noire” e a sua história, enquadrando os livros do Autor – e este também – nesse grupo, ainda que, em parte, reconheça nele desvios à “norma” que definiu.

 

Foi um fim de tarde bem passado, até porque tive oportunidade de rever alguns companheiros do tempo da juventude e porque o lançamento do livro foi levado a cabo num excelente local, meu desconhecido, em Benfica: o palácio Baldaya.

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“Deus e o Diabo”

 

É por este nome que dá um programa televisivo – do qual ontem vi um pouco, pela primeira vez – conduzido por José Eduardo Moniz.

Fiquei estarrecido! Aquilo não é coisa que se passe nas televisões, aquilo é um tempo de antena anti-governo.

 

Realmente, só faltava indicar qual a opção partidária à direita do Partido Socialista (PS) na qual se devia encaixar o programa. Se alguma coisa o Governo fez certo, logo de seguida, sem dó nem piedade, José Eduardo Moniz aponta uma série de defeitos.

Isto não é jornalismo! Isto não é serviço público, nem serviço informativo! Isto é envenenar a audiência para a colocar contra o PS. E não se trata aqui de defender António Costa e o seu agrupamento político, mas acusar uma má prática de jornalismo.

 

Com a proximidade das eleições europeias e de todas as que se lhes seguem, começaram a vir à tona novos argumentos e novas formas de ataque à única fórmula governativa jamais tentada em Portugal, depois de 1974: a da unidade de esquerda, através de um acordo de incidência parlamentar, sem perda de identidade dos partidos que o assinaram. É este Portugal de esquerda que a direita não aceita e contra o qual faz tudo e, contra o qual, usa todos os argumentos.

Um exemplo bem patente desta desbunda do “vale tudo” ouvi-a num programa televisivo onde se sentam, semanalmente, os representantes dos eurodeputados portugueses. Disse o eurodeputado Nuno Melo, filiado no CDS, para atacar a eurodeputada do BE e o eurodeputado do PCP: «Desliguem-se do apoio que dão ao partido minoritário que governa e sejam coerentes com os vossos ideais» (estou a citar de memória, por isso, se as palavras não foram estas, foi este o sentido da sua afirmação).

 

Não é assim que se faz oposição política nem sequer é assim que se faz política. Lastimo que por cá ainda esteja enraizado o espírito trauliteiro do século XIX e do começo do século XX. Isso quer dizer que avançámos muito pouco na nossa maneira de fazer política ou, se calhar, o exemplo que nos chega dos EUA, através das posturas de Trump, quer dizer que por lá se está a regredir na maneira civilizada de fazer política.

 

Tenho pena de que não haja forma de ensinar os políticos a comportar-se na luta partidária, tornando-a numa luta pelo bem-estar dos Portugueses em vez de ser uma luta para conseguir melhores condições para alcançar o ponto de viragem entre a honestidade e a desonestidade.

Espionagem

 

Alguma imprensa nacional faz, hoje, eco a um conselho dado pelo Governo em relação à utilização de telemóveis e computadores de fabrico chinês por parte de agentes da administração pública, com base em desconfianças de espionagem política e ou tecnológica.

 

Nada disto me causa qualquer estranheza, pois, há muitos anos, considero que existe uma rede informativa criada através dos emigrantes chineses na Europa e no mundo em geral.

As redes de informação são muito anteriores aos computadores e não foram eles que geraram a capacidade de acumulação de conhecimento; essas máquinas simplificaram e aumentaram as possibilidades de tratamento do saber, somente.

 

Já aqui referi o exemplo com mais de cem anos – iniciado por volta de 1870 – da espionagem alemã. Com efeito, sempre que um oficial do Exército ou da Marinha de Guerra pedia autorização para se ausentar para o estrangeiro ficava obrigado a, no regresso, fazer um relatório sobre o que havia visto com interesse para futuras operações militares.

 

O problema mais difícil no tratamento das informações é o da quantidade de analistas necessários para separar o que é importante daquilo que não tem, no momento, qualquer interesse. As informações militares ou tecnológicas funcionam como um puzzle de geometria variável: têm de estar adaptadas àquilo que faz falta naquele exacto instante.

Para se trabalhar na área das informações tem de se possuir uma visão de trezentos e sessenta graus, pois tudo é relevante e nada é relevante. Esta aparente contradição resolve-se sempre em função do objectivo que se define em dado momento.

Por exemplo, peguemos na acção da PIDE/DGS. Pouca gente sabia que aquela polícia, embora colhendo todo o tipo de informação, só dava real importância àquela que indiciasse ligações a grupos organizados de oposição ao regime vigente e, de entre estes, dava particular atenção ao PCP e, já nos anos sessenta do século passado, aos grupos de extrema-esquerda; para além disso, fazia “trabalho” na área de repressão da guerrilha em África e de perseguição à divulgação de pornografia. Ou seja, o indivíduo isolado, que dissesse mal do Governo, ficava com ficha nos arquivos, mas não era incomodado.

 

Na actualidade, com o auxílio dos computadores, é possível “trabalhar” a informação em instantes, reunindo-a segundo critérios diferentes, facto que aumenta, em muito, a potencialidade da espionagem.

Mas será que o simples facto de usar um telemóvel ou um computador chinês aumenta a possibilidade dos serviços de informação daquele Estado? Não brinquem comigo, por favor! Hoje qualquer telemóvel ou computador é vulnerável a qualquer serviço de espionagem de uma média potência, para não falar de uma grande potência! Meus amigos, para que servem os satélites espiões, que nos vigiam lá de cima?

Para o caso particular de Portugal, podemos não estar descansados, porque a China está cá em força… Controla, pelo menos, a empresa fornecedora de energia eléctrica, fora o resto!

Venezuela, pontos de vista

 

Ontem ao serão, lá tivemos, no primeiro canal da RTP, o programa “Prós e Contras”. Debateu-se, com muito calor e emotividade, a questão da política interna venezuelana.

 

Não acompanhei, logo desde o começo, o debate, mas vi o suficiente para perceber que existiam, no painel e na sala, dois grupos distintos de pessoas e duas maneiras diferentes de compreender e explicar o que se passou e se passa na Venezuela: um, claramente minoritário, que procurou olhar com realismo e legalismo para a situação e outro, necessariamente maioritário, que puxou toda a discussão para o plano emocional e, sem o mencionar explicitamente, para o plano da legitimidade.

 

Ambos estão certos e ambos têm razão, mas, parece, ambos querem estar de costas uns para os outros.

⸺ No plano da política interna o que é que se passa, afinal?

  1. O “chavismo” não é consensual dentro dele mesmo, porque existem tendências mais para a direita e mais para a esquerda;
  2. A oposição – aparentemente unida para combater o “chavismo” – discorda da existência de uma assembleia constituinte, uma vez que existe uma assembleia nacional;
  3. A assembleia constituinte foi eleita por votação nacional, tal como a assembleia nacional, mas, na primeira, os “chavistas” têm a maioria e, na segunda, a maioria cabe à oposição;
  4. Cito: «De acordo com o artigo 347 da Constituição venezuelana, o povo venezuelano é a fonte de poder, que pode ser exercida através da Assembleia Nacional Constituinte, que pode ser chamada para mudar o sistema de governo e criar a nova Constituição» (https://br.sputniknews.com/americas/201707308992078-pros-contras-assembleia-constituinte-venezuela/);
  5. Cito: «Na sua (auto)proclamação como Presidente da República a 23/01/2019, Juan Guaidó invocou o artigo 233º da Constituição venezuelana. Esse artigo regula o que a lei fundamental do país designa como ausências absolutas do Presidente da República (morte, renúncia, demissão decretada pelo Supremo Tribunal de Justiça, incapacidade física ou mental permanente, abandono do cargo declarado como tal pela Assembleia Nacional, bem como revogação popular do seu mandato). A consequência constitucional estabelecida é “uma nova eleição universal, directa e secreta será realizada dentro dos trinta dias subsequentes”; e que durante o período onde ocorre a eleição e tomada de posse do novo presidente, “o Presidente da Assembleia Nacional tomará o cargo da Presidência da República”»;
  6. Cito: «Juan Guaidó invocou ainda o artigo 350º da Constituição, o qual confere uma espécie de direito de desobediência civil, ou de resistência, face à opressão: “O povo da Venezuela, fiel à sua tradição republicana, à sua luta pela independência, paz e liberdade, ignorará qualquer regime, legislação ou autoridade que contrarie os valores, princípios e garantias democráticas ou enfraqueça os direitos humanos”» (https://www.publico.pt/2019/01/25/mundo/noticia/batalha-venezuela-constitucionalidade-legitimidade-reconhecimento-internacional-1859249).

 

Como se percebe, falamos de duas “legitimidades” em luta, porque ambas resultaram de eleições, cujos resultados são contestados por ambas as partes.

Cabe aos Venezuelanos decidirem este diferendo, sem intervenções externas, porque, a existirem, só demonstram que, de ambos os lados, há interesses diferentes e estranhos ao povo daquele país sul-americano. E esse é o fundamento para Maduro se defender da “intervenção” estrangeira – passamos, agora, a um outro plano: o das sanções económicas contra a Venezuela – que, objectivamente, interfere na vida daquele Estado soberano.

Ontem, para dar legitimidade à intervenção estrangeira, Francisco Assis, numa manobra de baixa propaganda – pois é em tudo semelhante ao que a PIDE/DGS fazia para descredibilizar a oposição ao fascismo – afirmou, sem qualquer indício de prova, que Cuba infiltrou na Venezuela o seu serviço de informações! Assim, justificava-se, com uma penada, a intervenção americana, europeia e todas as que se quisessem.

 

Quando é que a comunidade internacional deixa de interferir na resolução dos problemas internos dos Estados? O Direito Internacional prevê as soberanias nacionais que, pelos vistos, podem ser boicotadas sempre que um ou vários Estados mais fortes quiserem.

 

Quando é que percebemos que também nós somos vítimas dessa intervenção, ainda que encapotada de legalidade e legitimidade?

⸺ Não somos?!

Então, averiguem de onde vieram as “ordens” para se vender ao desbarato as nossas empresas estratégicas! E a imposição de paragem da nossa indústria têxtil!

Ora bolas!

 

Que raio de memória curta têm os políticos! Comem, como se dizia noutros tempos, muito queijo…

Então, agora, por causa de uma lei que proíbe a propaganda eleitoral feita pelos membros do Governo no exercício das suas funções, a inauguração de uma creche, de um centro de saúde, de um fontanário, de uma ponte ou, se calhar, da colocação da placa com um nome de rua, está interdita no tempo anterior a eleições!

Isto dá muito jeito à oposição, ou àquela que, estando no governo autárquico, pouco trabalho tem para apresentar. Pois é, não se pode “enganar o Zé”, mas, no passado, isso foi flagrante, havendo, até, um político reformado que, se bem analisada a vida dele, seria o “rei” das inaugurações. Refiro-me, naturalmente, ao Alberto João Jardim.

 

Esta busca de “corrupção” eleitoral, se levada ao extremo, acaba bloqueando a actividade governamental. Já temos aí um exemplo: a redução do custo dos passes sociais nos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

Arre gaita, se se não baixam os custos é porque há dinheiro para os bancos e não há para tornar a vida mais barata; se se baixam certos custos é porque se está a fazer propaganda eleitoralista! Não há cabeça que compreenda as críticas desta oposição!

Se calhar, se a oposição fosse Governo fazia como já fez no passado e os que são Governo, sendo oposição, diriam exactamente o mesmo.

É por causa desta quase imoralidade, desta incoerência, desta falta de verdade – que, afinal, não pretende beneficiar o Povo – que todos nós acabamos por descrer da política, dos políticos e do que eles fazem.

 

Mas isto é grave!

É grave, porque abre a porta aos populismos e, invariavelmente, às ditaduras, pois os eleitores, desprendendo-se do “contrato social” com os políticos e a política, na sua indiferença, acordam um dia com a “canga” posta ao pescoço e a “rédea” curta sem liberdade para criticarem, então, seja o que for.

Importante é perceber que está por trás de tudo isto um outro poder, aparentemente inocente e “útil”, todavia extremamente perverso e insidioso: a comunicação social e os seus objectivos obscuros. Assim, cada vez mais, ao contrário de buscarmos nela informação que nos ajudaria a formar uma opinião, teremos de estar atentos aos fins por ela prosseguidos e desconfiar do “gato que nos querem vender por lebre”.

 

É uma tristeza, mas, se há – e há mesmo – uma crise económica global, há, bem pior do que ela, uma crise de valores capaz de nos levar à pobreza intelectual e política.

França, uma guerrilha sem sentido?

 

Ontem, sábado, em Paris, na avenida mais emblemática da cidade, os “coletes amarelos” – provavelmente agitadores profissionais – lançaram o caos terrorista, face a uma polícia quase manietada por causa do julgamento politicamente correcto dos Franceses, dos Europeus e de todos os “amantes” das “liberdades bagunceiras”. A destruição, roubo e defenestração de lojas de marcas conhecidas em todo o mundo atingiu o rubro, o máximo.

 

Isto que se arrasta há muitas semanas a fio, já não é uma contestação: é uma forma de afronta descontrolada praticada por gente sem cultura para viver na França das Liberdades, da Igualdade e da Fraternidade, na França da Revolução Francesa, na França “madre” da Cultura contemporânea, na França do pensamento científico, na França berço de filósofos, poetas, ficcionistas, pintores, escultores, ourives, compositores, bailarinos.

Essa França está a atravessar uma crise económica, financeira e social. Mas está ela e toda a Europa, talvez todo o mundo dito ocidental. A solução passa pela resposta a uma só pergunta:

⸺ Democracia, globalização e defesa ambiental são compatíveis?

 

O mundo, depois de ter deixado o paradigma da bipolarização, traduzida na Guerra-Fria, entrou na multipolarização condutora à globalização e, de há tempos a esta parte, está a caminhar a grande velocidade para a “tripolarização”: Estados Unidos, Rússia e China.

Cada uma destas potências reivindica para si a “democracia”; uma democracia que está bastante longe da que se vivia no mundo ocidental antes e durante a Guerra-Fria. É, na minha opinião, este confronto que está a gerar a confusão sobre o que é a democracia.

 

Toda a gente, que tem tudo a perder, quer o regresso ao passado ou a entrada no mundo do consumo desmedido do presente vivido pelos afortunados para quem a vida alheia pouco conta.

A solução não passa por defender o desequilíbrio do presente, mas por procurar a estabilidade capaz de criar justiça relativa nas sociedades excluídas do bem-estar, das sociedades definidas nos anos 60 do século passado por sociedades da abundância.

Mais uma vez, é a França quem está a chamar a atenção do mundo para a necessidade de mudar, de fazer uma revolução.

História apologética

 

Todos nós – excepção feita a alguns – sabemos a História que nos convidam a estudar na escola, nos diferentes graus de ensino.

Quando eu andava na instrução primária (hoje 1.º ciclo), no tempo do fascismo, chegava a casa muito entusiasmado com os feitos dos Portugueses – eram fenomenais e, “de certeza”, mais importantes do que todos os outros povos – e, ao almoço, quando relatava ao meu Pai essas “glórias” a sua única observação resumia-se à frase: «E tu não desconfias?»

 

Só bastante mais tarde percebi a pergunta do meu progenitor!

Quase toda a História ensinada nas escolas de todo o mundo é História apologética, ou seja, uma “História” feita à medida, para “valorizar” os diferentes Estados ou unidades políticas. Essa “História” faz-se através de ocultações, distorções, falsificações. É sempre uma “História” heróica e, jamais, indigna.

 

Os povos de todo o mundo têm necessidade de incorrer nestas artimanhas de natureza política para gerarem coesão nacional e, ou, grupal. Trata-se de um História mítica.

Quando se analisa este fenómeno numa perspectiva sociológica ou política ele é perfeitamente desculpável, embora não se possa, nem deva, tomá-lo como verdadeiro; ele será verdadeiro na dimensão em que o for, realmente. Todavia, quando este fenómeno é analisado segundo a perspectiva histórica, todas as barreiras apologéticas devem ser derrubadas para deixar a claro a verdade dos factos, com as suas vertentes heróicas e as suas vertentes menos dignas. Essa será a História que conta e explica.

 

Por causa da viagem de circum-navegação começada por Fernão de Magalhães, vêm agora os académicos espanhóis reivindicar louros e honrarias para si, através de distorções da História.

Claro que se trata de um nacionalismo duplamente explicável!

 

Com efeito, a Espanha, por ser uma manta de retalhos culturais, políticos e linguísticos, carece de elementos “históricos” que “puxem” pela sua “identidade nacional”; mas, este “puxão”, vem deixar mais evidente um mal bem mais lamentável do que o anterior: põe a nu um franquismo bacoco, anacrónico e indigesto.

 

Cabe-nos lutar por repor a verdade histórica despida de nacionalismos e dar ao desprezo aquilo que, de inverdade, os académicos espanhóis querem que seja aceite como certo e indiscutível.

Os bacocos e falsos são eles – sem desconfiarem que a sua exaltação é própria de quem tem muito pouco de que se vangloriar – por isso, teremos de mostrar a nossa superioridade intelectual, pois, em verdade, quem deu mundos ao mundo, fomos nós.

Vagueando…

 

Ontem voltei, mais uma vez – e é sempre bom voltar – ao Instituto dos Pupilos do Exército, para apresentar um livro do meu Companheiro e Amigo de há muitos anos (quando o tempo é muito, mesmo muito, não vale a pena dizer quanto é!) Jerónimo Pamplona, também ele antigo aluno.

 

Escreveu um livro interessante sobre o que foi, desde o início, o nosso Instituto: uma Escola para preparar homens úteis ao país, à sociedade, mas apoiando essa utilidade numa gama de valores que se não adquirem, comummente, em outros estabelecimentos de ensino.

Os Pupilos tiveram (têm) uma matriz muito bem definida: foram (são) obra da República – da 1.ª República – e foram (são) tutelados pelo Exército. Assim, por mais que se queiram arranjar explicações diferentes, os valores transmitidos aos alunos são os mais puros da vivência castrense: a camaradagem, a solidariedade, a disciplina, o espírito de emulação, a verdade, a verticalidade, a coragem, a frontalidade e o sentido de serviço social.

Ao fundar o Instituto, o legislador, não quis fazer uma escola igual às que já existiam; procurou que o ensino, não sendo especulativo, fosse prático, mas com conhecimentos científicos suficientes para “fazer bem feito”. Vivia-se o positivismo, que continuou, de uma forma inexplicável, dentro dos muros daquela Casa.

 

O Jerónimo Pamplona escreveu um livro socorrendo-se de depoimentos de alunos de todos os tempos, que deixaram escritas as suas impressões sobre as mais variadas facetas da educação nos Pupilos do Exército.

Vale a pena ler esta obra. Mas não é preciso ter sido aluno para ler o livro com vantagem; é importante que ele chegue a toda a gente para se perceber como uma farda, um hino, um lema e uma tradição moldam caracteres sem distorcer as suas características naturais, mas acrescentando-lhes valores – muito mais importantes do que conhecimentos – que impulsionam para a Vida com um lastro que as “tempestades”, em geral, não levam a “naufrágios”. A “malta” está preparada para enfrentar “mares e ventos”, produzindo sempre algo de útil para a sociedade!

 

Corre nos cinemas um filme português. Tem o nome de uma mulher – Snu – que, antes de se apaixonar pelo político Francisco Sá Carneiro, através da editora Dom Quixote, abanou a ditadura com os livros postos à venda. Muitos desses volumes representaram uma lufada de ar fresco na atmosfera bafienta do final do Estado Novo. Sem esforço de memória, recordo os “Cadernos Dom Quixote” – dos quais fui assinante – e os livros de Roger Garaudy, verdadeiras pedradas no charco da ditadura.

 

O filme “tenta” ser fiel à verdade histórica, mas, sub-repticiamente, passa uma imagem de um Sá-Carneiro “progressista”, um homem da social-democracia, um político a querer mudar Portugal para um socialismo “à moda da Europa do Norte”.

Mas eu vivi esse tempo, tendo idade já adulta e não esqueço. Foi uma altura, esses anos de 1974 a 1980, em que toda a gente falava de socialismo e todos queriam o socialismo. Até Freitas do Amaral, pelo menos uma vez, declarou que também queria o socialismo para o CDS, veja-se bem!

Quando estes embustes não são explicados às novas gerações elas acreditam numa “verdade”, afinal, falsa.

 

Mas, o filme também nos mostra, e de maneira bem real, o como éramos conservadores, o como nos deformou uma ditadura retrógrada, o como a Igreja tinha poder sobre as capacidades de decisão, o como vivíamos cheios de preconceitos e agarrados a tradições.

 

Tecnicamente a fita não fica atrás de qualquer média produção americana, francesa, espanhola ou italiana.

Cuidado, não saiam da sala de espectáculos com a impressão de que Sá Carneiro foi um “vidente político” ou um “salvador da Pátria” morto cedo demais!

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