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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

O peso dos sonhos

 

Em um dos telejornais de ontem vi uma entrevista feita a uma jovem cientista portuguesa. Infelizmente, não recordo o nome, mas recordo bem o conteúdo da conversa.

 

A jovem licenciou-se em Química, no Instituto Superior Técnico, e, depois, para dar corpo a um sonho de infância, escreveu para a NASA e acabou colaborando com aquela instituição numa área extremamente específica e interessante: a descoberta do começo da vida na Terra. A sua tese de doutoramento foi sobre a comprovação da hipótese de a vida no nosso planeta ter sido “importada” através dos asteróides.

Convenhamos, é aliciante fazer investigação nestes domínios! Sinto-me fascinado e, sobre o assunto, tenho duas histórias que vos quero contar, com alguma imodéstia, mas muita sinceridade.

 

Frequentava o quinto ano de escolaridade e o professor de Língua Portuguesa mandou fazer uma composição sobre o que gostaríamos de ser quando fossemos adultos. Como a minha mãe já sofria bastante de doença cardíaca, dominado eu por Morfeu – esse deus grego do sonho – eis que ousei dar liberdade às minhas tendências oníricas e escrever que gostaria de ser cientista para encontrar o medicamento capaz de curar a minha progenitora. O professor, o Dr. Xavier Roberto, director da escola Nuno Gonçalves, lançou, na redacção, que ainda guardo, qualquer coisa como: «Se quiseres e fores persistente, poderás realizar o teu sonho».

Não imaginava eu as imensas aptidões necessárias para conseguir alcançar o caminho sonhado.

 

Em jovem, já aluno dos Pupilos do Exército, fiz opção pela carreira militar e fui defrontado com o grande obstáculo da minha vida: as Matemáticas e Físicas, pois sem elas jamais seria oficial das Forças Armadas. Foram anos de intenso trabalho, de lutas titânicas e de frustrantes classificações meramente suficientes. Mas fiz!

 

Estava, há cinquenta anos, em Moçambique e recordo perfeitamente, nesta época natalícia, as montras de certas lojas mostrarem-se repletas de excelentes máquinas de calcular, marca Texas, dotadas de capacidade para resolver funções algébricas até havia pouco tempo só capazes de ser solucionadas por recurso a tabelas de cálculo. Ficava extasiado a olhar para aqueles “encantos” e, em alguns momentos, já não de sonho, mas de “loucura”, imaginei-me, após o regresso a Portugal, matriculado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em Matemáticas, para poder usar aqueles artefactos encantadores.

 

A sensatez prevaleceu em mim e matriculei-me em curso da área das Ciências Sociais, muito mais condizente com as minhas aptidões e vocações. Mas, como se prova, ficou cá dentro o “bichinho” a roer e a dizer baixinho: «Se quisesses, poderias ter lá chegado!»

 

Eis como uma entrevistas a uma cientista de sucesso me veio fazer recordar coisas há muito adormecidas, mas saudosas e nostalgicamente adormecidas no convencimento de que, com muito trabalho e muita perseverança, teimosia, talvez, lá chegaria!

 

O peso dos sonhos é terrível, quando os queremos realizar.

O ambientalismo e a hipocrisia

 

Estou farto de hipocrisias e tanto mais quanto elas são comuns e aceites pacificamente por toda a gente. A luta pela melhoria ambiental é aquela que mais me incomoda, porque se “brinca” com os sentimentos dos jovens, levando-os a acreditar num determinado tipo de disputa, que, afinal, é só uma parte de um todo que se esconde.

 

A grande preocupação com o aquecimento global leva toda a gente a centrar a atenção nas fontes energéticas poluentes e, à frente de todas, lá vêm os veículos automóveis, depois as fábricas produtoras de CO2. Pois é! E quando é que se fala na poluição feita pelas aeronaves que cruzam a todo o tempo o espaço e cujo número aumenta desproporcionalmente? Será que os aviões não poluem?

 

Luta-se contra os sacos e garrafas de plástico, mas esquecem-se todos os materiais compósitos que nos rodeiam e fazem parte do nosso dia-a-dia, como, por exemplo, este computador em que escrevo.

 

Condena-se, e bem, a destruição da Amazónia, porque se está a acabar com o pulmão da humanidade; mas, cada vez mais, se usa a pasta de papel para fazer embrulhos, guardanapos, lenços, fraldas descartáveis e mais um inúmero conjunto de artigos que já não dispensamos.

 

Reprova-se com veemência, e bem, a poluição dos mares com a sobrecarga de lixo não degradável, mas quem é que condena a poluição das camadas mais altas da atmosfera onde vagueiam restos infindáveis de satélites, de foguetões, de tudo e mais alguma coisa que o Homem se encarregou de, nos últimos cinquenta anos colocar a girar à volta da Terra, porque já não passa sem telemóvel, sem GPS, sem informação meteorológica, sem observação para fins militares a partir do espaço?

 

E tudo isto não é uma hipocrisia? Não sabemos todos nós que se deitarmos menos plásticos nos oceanos há quem se encarregue de encher o espaço sideral de porcarias?

 

O pior mal do capitalismo é ser hipócrita, pois esconde-se atrás de uma moral irrepreensível e faz as maiores sujeiras de sempre.

Ser ambientalista não é ser parvo nem “bonzinho”; é, acima de tudo, estar atento e condenar tudo o que ataca a Natureza e o planeta num horizonte de 360 graus.

Vamos abrir os olhos e ver como deve de ser?

Revoluções

 

Quase sem correr o risco de errar, posso afirmar que houve, na vida da humanidade, somente duas revoluções políticas com consequências decisivas, que ainda se fazem sentir no tempo.

 

Uma, aconteceu no ano de 1789, e passou à História com a designação de “Revolução Francesa”. A característica fundamental residiu no facto de, uma vez por todas, se ter aceite que a soberania residia no Povo e que o governo justo impunha a separação dos poderes.

É verdade que na Grécia Clássica já se praticavam formas de governo democrático com a soberania a residir no voto popular – nem sempre correspondente à totalidade da população – mas essa “democracia” helénica acabou sendo submergida pela queda do Império Romano e pelo surgimento de outras fórmulas governativas só postas em causa durante o século XVIII.

O mais fantástico é que, mais de duzentos anos sobre o grito de revolta francês, ainda são verdadeiros e tidos como únicos e bons os princípios proclamados em Julho de 1789. A “melhor” liberdade é a que defende a propriedade e os direitos individuais; a “melhor” justiça é a que se faz em nome da sociedade em geral; o “melhor” governo é aquele que serve a maioria dos cidadãos.

 

Há cem anos, em 1917, na Rússia, houve uma outra revolução. Tinha como objectivo ser uma alternativa à Revolução Francesa, procurando exaltar valores de maior justiça e maior liberdade. Era, também, democrática só que entendia a democracia de modo diverso daquele que “nasceu” em França. A democracia do século XVIII assentava, em todas as circunstâncias, na liberdade individual e a russa na liberdade individual dentro de cada “área” (soviete) de votação; fora desse “círculo” impunha-se a vontade da maioria votante, silenciando-se as minorias. À propriedade individual dos meios de produção opunha a socialização desses mesmos meios e à liberdade de produção e consumo contrapunha a economia planificada. Os desejos individuais tinham de estar subordinados à conveniência colectiva. Os partidos políticos não tinham razão de existir para além do comunista, que defendia os interesses de todos.

 

Rapidamente uma revolução cheia de ideais nobres capazes de defender os interesses dos elementos mais desprotegidos da sociedade, transformou-se numa feroz ditadura. E ela explica-se simplesmente com base em um só facto: o confronto entre liberdade individual e liberdade colectiva.

 

A Revolução Russa (Soviética) durou até ao final do século XX (1991), ainda que, em 1989 tivesse começado a derrocada com a queda do muro de Berlim. O fim da URSS veio demonstrar o falhanço do ideal revolucionário. Por muitos substitutos que se queiram implantar em vários Estados, jamais haverá a crença na solução soviética. Pode continuar a haver ideologia comunista, partidos comunistas, mas não ultrapassarão a fase da utopia ou, no máximo, a do apoio a soluções socialistas mais radicais que não excluam a liberdade individual. Tudo o que for além disso, entrará no domínio dos fascismos cheios de contradições.

 

Em tempos quis que a solução soviética pudesse ser uma realidade, dada a beleza do ideal socialista soviético, mas, quanto mais aprofundei o estudo da realidade, mais longe me deixei ficar dessa “solução” impossível. Solução impossível, porque o maior desejo de todo o homem é o de liberdade. É uma pena que o sonho não passe desse nível… do nível do sonho.

O sonho americano

 

Toda a família do lado do meu Pai tem origem na ilha das Flores, na Fajã Grande, a povoação mais ocidental da Europa. Dois dos irmãos mais novos emigraram para os EUA, sonho de qualquer açoriano pobre ou somente remediado. O tio José emigrou tinha eu pouco menos de quinze anos. As saudades da ilha eram grandes e a adaptação à nova vida, na Califórnia, recordavam a tranquilidade da freguesia distante. Estes foram os motivos que o levaram, mesmo com grande medo da viagem de avião, a voltar aos Açores, com passagem por Lisboa, ao cabo de três ou quatro anos de EUA.

 

Nos breves dias que esteve na capital, eu, jovem curioso, quis perceber algumas coisas da vida na Califórnia, nomeadamente, como era a liberdade democrática no seio de uma sociedade onde prevaleciam, nessa época, valores como o trabalho e oportunidades.

Deve ter-se em conta que haviam passado pouco mais de dez anos sobre o fim da 2.ª Guerra Mundial e a sociedade americana vivia um boom económico fora de série. A Europa ainda apresentava significativos sinais da devastação; nos EUA imperavam os grandes automóveis reluzentes de cromados e pneus pintados de branco, as casas de madeira, confortáveis, com jardins na frente, os primeiros acordes de rock, as primeiras problemáticas de filhos criados sem pai por terrem morrido na guerra, as grandes superproduções cinematográficas de Hollywood, enfim, um mundo com alguns contrastes ainda não imediatamente visíveis entre os Estados do Norte e os segregacionistas do Sul. Eu queria perceber como era viver numa sociedade onde as pessoas não se afirmavam pelo que vestiam, mas pelo trabalho independentemente do género ou tipo.

 

O tio José, pacientemente, dentro das limitações de uma imigração recente, lá foi tentando saciar as minhas curiosidades. Ele não tinha grande experiência de democracia, mas já tinha percebido que estava numa sociedade onde poderia exercer o direito de crítica sem ter receio de denúncia política. Mas, para se perceber o que era o Portugal dessa época distante e, acima de tudo, o elitismo de uma sociedade miserável, o que ele mais evidenciou e, consequentemente, me marcou, foi o facto de poder ir ao banco tratar dos seus depósitos, vestido com o fato-macaco usado no dia-a-dia, e não ser descriminado nem na ordem de atendimento nem na deferência tida para com ele. Na sua ilha distante, nesses tempos, para se ir ao banco ou a uma repartição pública era impositivo trajar como se se fosse à igreja, ao domingo. Portugal era um país de pelintras cheio de preconceitos. Podia ser-se pobre, mas tinha de se parecer, no mínimo, remediado. Isto era, também, uma forma de impor a ditadura e o fascismo.

 

Felizmente tive um tio José que me mostrou a diferença e me possibilitou recordar esta história para a deixar aqui para todos quantos não conheceram o Portugal do obscurantismo poderem fazer dele uma pálida ideia.

As minhas opções políticas

 

As minhas últimas reflexões, têm provocado opiniões diversas por parte dos leitores, razão que me leva, também, a deixar-vos uma explicação sobre as minhas opções políticas.

 

Quando digo ser de esquerda quero afirmar que o meu quadro ideológico se limita pela luta contra a miséria, a pobreza, a marginalização social, a carência de assistência sanitária, de educação e instrução gratuita ou facilmente acessível para todos, a falta de oportunidades para chegar ao limites das possibilidades intelectuais, a ausência de habitação condigna, a descriminação social, enfim, contra tudo o que pode reduzir a capacidade de usufruir de mediana felicidade na vida.

Sei que tal luta tem de ser enquadrada por uma acção política a desenvolver por um ou mais partidos. E é aí que eu “encalho”, pois, compreendendo o que é a “liberdade colectiva” gosto, admiro e defendo a liberdade individual. Ou seja, há partidos que imaginam a realização da justiça social depois de reduzirem ao silêncio a liberdade individual em nome de uma liberdade colectiva – dito de outra maneira, uma liberdade individual num determinado contexto que se tem de sujeitar à vontade da “liberdade” do colectivo sem dela poder discordar. Para esses partidos, de uma maneira ou de outra – quer sejam mais revisionistas ou menos – impera uma massificação opinativa, sendo que a discordância é anti-revolucionária.

 

Há partidos que visam a satisfação da justiça social sem recorrer à limitação da liberdade individual, porque vêem nela a possibilidade de denúncia de erros políticos e de melhoria do sistema. São partidos que pretendem realizar o melhor de dois sistemas: a liberdade e a justiça social. E conseguem-no fazer através de processos fiscais onde os grandes investimentos capitalistas aceitam ser taxados para serem servidos com mais eficiência e produtividade. Mas, também, conseguem-no fazer através de uma educação social onde cada cidadão não quer ser mais “esperto” do que o outro, aldrabando e corrompendo o sistema para ter mais benefícios. Trata-se da criação de uma sociedade onde a educação visa o respeito pelo social e pelo colectivo; é um sistema para gente que quer ser identificada como honesta e não como gente corrupta e corruptível. É um sistema que assenta na capacidade de diálogo e não na imposição de vontades através de lutas amarfanhantes. É um sistema que começa na escola e na tenra idade, em casa e no leite materno. É um sistema que não aceita atropelos, mas gera oportunidades.

 

Há partidos políticos capazes de vencer eleições e gerarem administrações públicas com as virtudes enunciadas. São partidos cuja preocupação começa na revolução educativa do povo e não na revolução reivindicativa dos trabalhadores. São partidos que cultivam o respeito pelo individual e colectivo. São partidos que defendem o “auto-policiamento”.

 

Essa é a minha esquerda! Mas, na falta dela, aceito a que temos, desde que me respeite, e voto como achar conveniente em cada um dos partidos que a compõem; quando não me respeitar, abstenho-me de votar, de falar e, se tiver vida e saúde, exilo-me algures onde possa expor o meu pensamento.

 

Portugal está longe da revolução que eu descrevi. Está longe e duvido que a queira! Alguns aceitam, por comodismo e, se calhar, por convicção, a outra revolução, a que amarfanha a liberdade individual e que nunca há-de chegar! Entretanto, reivindicam e desequilibram a possibilidade de caminharmos lentamente para a revolução educativa. Mas, sobre essa, escreverei um dia destes.

 

P. S. Vamos lá esclarecer aqueles que andam à "procura" do partido capaz de reunir aquilo que exalto.
Esse partido será sempre de matriz à esquerda, por causa do pendor humanista, mas terá de ser "revolucionário", porque a primeira condição para poder existir é a de fazer a "revolução" educativa, em casa e na escola, pois só assim se geram cidadãos capazes de integrarem Valores e Princípios, que os tornam responsáveis, sérios, honestos, trabalhadores, ponderados, respeitadores de direitos e OBRIGAÇÕES.
Esses ideais já se cultivaram em Portugal, mas foram torpedeados pela força do OBSCURANTISMO, que saiu vitorioso em 28 de Maio de 1926, quando a ditadura se impôs à República.
Depois de 25 de Abril de 1974 nunca mais ninguém deu vigor verdadeiro à aprendizagem da CIDADANIA e do que ela representa na República para a conservação da Democracia.

Governo da casa

 

Há dias, em conversa com alguém pouco dado ao conhecimento da ciência económica, tentei explicar as razões políticas das restrições que se vivem em Portugal, neste momento. Para tal socorri-me do exemplo simples e conhecido de todos nós do “governo da casa de família”.

 

Um agregado familiar com dívidas altas, com rendimentos baixos e várias fontes de despesa mensais ou anuais tem, quando bem gerido de garantir o pagamento de parte das dívidas e dos respectivos juros, depois deve dividir o restante pelos encargos essenciais à vida dos membros da família e pelo necessário para conseguir que haja, em cada mês ou cada ano, ingressos financeiros, ou seja, tem possuir dinheiro para alimentação, para saúde, para educação, para liquidar alugueres de bens e serviços indispensáveis, para transportes, para vestir e calçar, para pequenos gastos extras e uma reserva para ocorrer a despesas extraordinárias ou inesperadas.

 

O orçamento do Estado não difere muito deste que deixei esboçado, com uma diferença: para haver dinheiro para as despesas tem de haver receitas e estas são provenientes dos impostos; se os impostos recaírem mais sobre as empresas estas fazem recair sobre os preços dos produtos essa sobrecarga, havendo, por conseguinte, menos hipóteses de venda desses mesmos produtos; se os impostos recaírem mais fortemente sobre os rendimentos das famílias, estas terão menos possibilidades de compra dos produtos produzidos pelas empresas, mesmo que a mais baixo preço.

Assim, um orçamento, para além de ser uma previsão, é um instrumento disciplinador de todos os intervenientes económicos de um Estado: empresas e famílias.

 

Quando as famílias, dependentes de emprego do Estado, exigem, por recurso à greve, que ele aumente os seus rendimentos salariais estão, necessariamente, a desequilibrar o orçamento, porque para fazer face a uma maior despesa terão de cobrar, de qualquer maneira, mais impostos em qualquer das duas únicas fontes de onde pode receber rendimentos. Quando não estávamos na CEE ou União Europeia o “jogo” podia efectuar-se de maneira um pouco diferente, pois havia outras formas de aumentar as receitas: subir as taxas aduaneiras fosse para a importação ou para a exportação ou, ainda de um modo mais sofisticado, reduzindo ou aumentando o “custo” do nosso dinheiro, ou seja, inflacionando a moeda.

 

Julgo que dada a explicação de uma forma simples se pode compreender melhor a irresponsabilidade do presente surto de greves reivindicativas de maiores aumentos. Se os trabalhadores estivessem melhor informados e mais atentos ao orçamento do Estado, percebiam que nem para fazer funcionar a única forma de aumentar a riqueza nacional há dinheiro. Ou seja, o Estado não consegue fazer investimentos em infraestruturas básicas que, só pelo facto de serem levados a cabo, dariam trabalho a mais gente e, por conseguinte, mais possibilidades de maior crescimento económico.

 

Não há maneira de nos convencermos que estamos a viver um “aperto”, que não se vê, porque parece estarmos a “nadar em facilidades”. O termos saído da alçada da Troika não quer dizer que estejamos em pleno desenvolvimento. Todos os anúncios animadores que o Governo faz correspondem a qualquer coisa como eu dizer em linguagem vernácula e chã: “estávamos no cano do esgoto; passámos a estar na beira da sanita à espera de cairmos na merda”.

Para onde vamos?

 

Algo de muito estranho se está a passar em Portugal e não quero acreditar que se trate de um mero contágio. As greves estão a subir de tom sem razão aparente de qualquer espécie. Os motivos de reivindicação são, quase todos “velhos” e poderiam ter sido feitos há seis meses, um ano ou mais lá atrás, mas estão a ser gritados agora.

Agora porquê? Quem é que anda a orquestrar todo este desaforo?

Onde estavam os sindicatos agora reivindicativos e os trabalhadores prejudicados nos anos de Governo de Passos Coelho? Onde estava esta gente toda quando houve eleições que deram a maior quantidade de votos ao PSD?

 

Convido os meus leitores a reflectirem nas questões que deixei atrás, porque não tenho respostas, mas tenho hipóteses que partilho convosco.

A primeira – já aqui deixada há tempos – resulta de admitir que a nossa direita política, na incapacidade de dar uma resposta nos locais certos – autarquias e parlamento – está a usar alguns órgãos da comunicação social e alguns sindicatos de duvidosa vinculação partidária para gerar a instabilidade social e o desagrado da população de modo a criar o clima necessário à queda do Governo.

A segunda hipótese, coloco-a como a eventualidade de haver um elevado espírito de cópia e querer-se gerar por cá situações de contestação semelhantes às que se vivem em França. Contudo, não aposto demasiado nesta presunção.

A terceira conjectura, admito que esteja a haver uma situação de réplica reivindicativa cuja origem esteve na prolongada greve dos professores antes das férias de Verão. E, neste caso, tendo como ponto de partida o não cumprimento de algumas promessas feitas pelo Governo, as quais, também não se viram contempladas no Orçamento do Estado para 2019, agravadas com o facto de se anunciarem melhorias ao nível orçamental, com evidentes sacrifícios individuais.

 

Se for esta última hipótese a causa da instabilidade presente sou obrigado a condená-la, em primeiro lugar, porque, quando o “aperto” foi feito por Passos Coelho, não houve nem um décimo da contestação presente; em segundo lugar, porque reivindicar agora é não compreender a necessidade de sair do “pântano” para recuperar condições de maior e melhor progresso no futuro próximo. É sacrificar o colectivo em nome do individual. É dar razão a todos os que podem, amanhã, pedir uma governação de “mão pesada”.

 

Com a experiência de olhar e estudar a História dos últimos cem anos posso garantir que, embora o contexto seja muito diferente, a acção social, em Portugal e um pouco por toda a Europa e em alguns pontos do mundo, ganha contornos definidores de soluções tendencialmente fascistas ou proto-fascistas, que, a verificarem-se, calarão todas as reivindicações e farão passar os trabalhadores por sacrifícios não imaginados por eles no momento presente.

 

Muitas vezes, gritar por melhores condições de vida produz o efeito contrário. Já vivi em ditadura e sei do que falo.

Andaluzia

 

Sempre que vou visitar a Andaluzia sinto-me em casa. Não me perguntem a razão, mas, a verdade é que sinto.

Contudo, a Andaluzia, para mim, é a dos pueblos típicos e a das gentes simples e alegres que vão tapear ao fim do dia e gostam de falar alto e gesticular. Não tenho nada a ver com a Andaluzia dos grandes proprietários agrícolas.

 

Por isso, fiquei espantado com a viragem na votação regional da Andaluzia. Espanto que se vai racionalizando minuto a minuto: a classe média, um pouco por toda a Europa, começa a estar cansada de uma democracia que só usa palavras e deixa que as grandes negociatas financeiras encham os bolsos de quem não precisa de mais dinheiro.

 

O que está a acontecer na Europa, nos EUA, no Brasil, e mais um pouco por todo o lado, é o resultado da globalização.

Mas é que nem tenham dúvidas!

 

A globalização permitiu os paraísos fiscais e as facilidades de deles usufruir quem; permitiu a burla e corrupção de todos os políticos, que já nem têm a clara noção do que é crime e não é. Por isso, atrás de uma qualquer cantata, segue o povo na esperança de que alguém consiga reverter a vida para os supostos valores defendidos pela direita, pela extrema-direita.

 

Não sei se me vou sentir em casa, quando voltar à Andaluzia...

Interioridade

 

Vejo televisão e procuro estar atento a alguns dos debates que se fazem. Vejo e ouço comentadores com quem concordo e de quem discordo. Ontem vi um debate sobre a interioridade no nosso país. Um debate morno e sem grandes discussões. Repetiu-se o que todos nós sabemos: a faixa litoral de Lisboa para Norte concentra mais população do que o resto do território. O que se abordou foram análises e alguns “remédios” meramente paliativos. Não se foi ao fundo da questão. E este é, na minha opinião, o resultado da adesão à CEE. Vejamos.

 

Os países que formaram o Mercado Comum tiveram de regular, entre si, não só as trocas comerciais como, também, as quantidades de produtos a produzir de forma a evitar excedentes não vendáveis dentro ou fora do espaço da CEE. Assim nasceram as chamadas quotas produtivas atribuíveis a cada país. Para o Mercado Comum poder exportar para fora do seu espaço havia que criar condições de compra de produtos externos. Assim, não se podia aceitar que na CEE se produzissem artigos que convinha receber do exterior para garantir as vendas a esses países dos artigos produzidos no mercado europeu.

 

Quando Portugal aderiu à CEE teve de se sujeitar ao regime de quotas, deixando de fabricar determinados produtos que garantiam empregos e rendimentos e teve de abandonar certo tipo de agricultura e, também, reduzir as quantidades de pescado.

De tudo isto houve reflexos no interior do país. Zonas onde se fabricavam bons tecidos, de um dia para o outro, foram condenadas à paralisação. Por exemplo: os têxteis da região da serra da Estrela acabaram ou definharam até atingirem valores de consumo meramente local. E, quem diz têxteis diz outras indústrias que “prendiam” à terra quem por lá nascia. A solução foi migrar para zonas onde, possivelmente, havia emprego. E só migraram os mais novos; os velhos foram envelhecendo. Hoje já ninguém quer fazer lavoura nas condições de há quarenta anos.

A entrada na CEE não foi acautelada com uma política de desenvolvimento e fixação das populações nas suas aldeias, vilas e cidades do interior.

 

Resta-nos reencontrar, agora, em piores condições, a aplicação de capitais nas zonas distantes do litoral. Mas são essas condições que ninguém, ao nível governamental, pode garantir, por falta de capacidade para montar infraestruturas modernas para satisfazer quem queira investir e radicar-se no interior. O tempo dos dinheiros a fundo perdido já acabou e houve muita boa gente que comprou automóveis topo de gama ou fez vivendas de luxo sob o pretexto de investimento na reordenação produtiva.

Afinal a corrupção dos políticos da alta roda tem correspondência, mais cá em baixo, na população “espertalhaça”!

A dúvida

 

Passou, há dias, mais um aniversário sobre o 25 de Novembro de 1975 e há várias “verdades” para o explicar, daí que exista, no plano histórico, muita dúvida sobre o que foi, de facto, esse “golpe”.

 

Para se perceber o que quero dizer, basta recordar que, cem anos depois do “meteoro” político chamado Sidónio Pais ter morrido há quem o classifique, ainda, de germanófilo e outros, poucos, de aliadófilo e anglófilo. Faltam elementos claramente esclarecedores para a História poder contar a verdade. O mesmo acontece com o 25 de Novembro de 1975.

 

Sabemos, sem sombra de dúvida, que, nessa data, houve uma sucessão de golpes dentro do mesmo golpe. Sabemos que tem sido invocado o “golpe” conduzido, do ponto de vista táctico, por Ramalho Eanes/Jaime Neves/Mário Soares/PS como o golpe para repor a democracia e salvar Portugal de “cair” na “ditadura” soviética. Sabemos isso, mas desconhecemos se, na verdade, havia um golpe ou, sequer, uma tentativa de fazer virar a democracia alcançada em 25 de Abril de 1974 para a área ideológica comunista, liderada pelo PCP.

 

Foi muito conveniente ao PS, ao PPD e ao CDS que se acreditasse ser o PCP o elemento “perigoso” no processo de transição da ditadura salazarista para a democracia. Contudo, seria, de facto, o PCP o agrupamento político que instabilizava esse mesmo processo? Teria o PCP o apoio de Moscovo, se quisesse fazer uma viragem no equilíbrio europeu das forças “ocidentais” e “orientais”? Queria, simplesmente, o PCP possibilitar a verdadeira democratização em Portugal, garantindo que não havia um retrocesso para o fascismo? Quem é que o PCP “protegia” quando se faziam greves, alterações da ordem e manifestações populares? Quem é que, na realidade, desequilibrava todo o processo de democratização, o PCP ou os grupelhos políticos de extrema-esquerda?

 

Só as respostas cabais e correctas a estas e outras perguntas permitem, realmente, fazer a História verdadeira do 25 de Novembro de 1975. Claro que, na falta de documentos fidedignos e esclarecedores, teremos de nos socorrer de depoimentos isentos de envolvimento político nos acontecimentos, porque quem esteve a comandar os diferentes golpes dará deles a sua própria versão, a qual, jamais corresponde à totalidade dos factos. Mas, teremos, também, de preencher essa falta de informação com hipóteses o mais próximo possível de factos verosimilhantes. É assim que me arrisco a contraditar a versão tida como “oficial”, pois julgo que nunca o PCP, Álvaro Cunhal ou fosse quem fosse responsável e consciente no âmbito do comité central, terá defendido, mesmo que em tese, a viragem para o comunismo em Portugal, pois sabia que nem Moscovo concordava, nem daria apoio e, em pouco tempo, verificar-se-ia a “vacinação” semelhante à que ocorreu no Chile de Allende.

 

Claro que esta versão, como hipótese histórica, “escangalha” a “fotografia” de alguns dos “heróis” do 25 de Novembro. Seria mais fácil, julgo eu, admitir-se que o golpe de então teve como finalidade fazer afastar da acção de rua a extrema-esquerda, como, de certo modo, o reconheceu Álvaro Cunhal no discurso que fez, na praça de touros do Campo Pequeno, no dia 7 de Dezembro.

 

«Por muito que pareça contraditório, o 25 de Novembro fez surgir em vastos círculos até agora apáticos ou colaborantes com a direita uma nova consciência do perigo fascista e uma vontade de acção e intervenção em defesa dum projecto democrático.

A nova e perigosa realidade coloca aos sectores moderados do MFA e do PS a necessidade de corrigir a direcção dos seus ataques, a orientação do seu trabalho, as suas alianças.

Se esses sectores e o próprio PS não querem ser submergidos pela reacção, se querem sobreviver, têm que descolar da direita e retomar uma política de alianças à esquerda, com tudo quanto isso comporta. […].

Não mais uma política de voluntarismo de vanguarda que cuida poder ela própria sozinha fazer a revolução. Não mais o verbalismo pseudo-revolucionário, a concorrência na exaltação em palavras e a ilusão das facilidades e de um ritmo progressivamente mais rápido do processo.

As possibilidades reais da reunificação do MFA e da formação duma frente de resistência ao fascismo, da defesa das liberdades e da revolução, passa não só pela revisão da política de alianças do PS e de certos sectores moderados do MFA, como também pelo combate ao aventureirismo esquerdizante e pseudo-revolucionário, na base da rica e dolorosa experiência recente da revolução portuguesa.»

 

Estas são palavras de Álvaro Cunhal ditas nesse comício de 7 de Dezembro há quarenta e três anos. Só este pequeno trecho, dá que pensar.

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