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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

05.11.18

Outra vez a História e a Política


Luís Alves de Fraga

 

O jornal espanhol “El País”, de hoje, traz a curiosa notícia da discórdia entre historiadores sobre os novos manuais de História e a actividade da ETA.

 

Não é descabida a discussão, pois coloca-se o problema de como classificar aquela organização basca. Para muitos ela não foi mais do que um bando de terroristas e, para outros, um grupo de resistentes anti-franquistas. Acusam os primeiros que se pretende branquear a História, pois a maioria dos atentados contra pessoas ocorreu após a morte do generalíssimo Francisco Franco. Logo, a acção não podia ser contra o ditador, porque se tratava de terrorismo puro, gerador de medo.

 

O Governo regional basco está disposto a aceitar todas as sugestões que reponham a “verdade”. E, o problema é esse mesmo: qual verdade?

Há quem sugira que é muito cedo para se fazer a história da ETA e das suas motivações; há quem proponha uma descrição “equitativa” entre depoimentos de antigos etarras e familiares ou associações de vítimas.

 

Claro que, na minha opinião – e não estou suficientemente documentado para me pronunciar sobre os factos –, o que faz falta é a síntese resultante da análise “fria”, “distanciada” e “equidistante” das motivações quer da ETA quer do aparelho político herdado do fascismo espanhol, pois, é conveniente recordar, a problemática ditatorial do Estado vizinho tem sido resolvida na base do silêncio. Um silêncio que vem desde os anos 30 do século passado, um silêncio das vítimas da República e da Guerra Civil, da repressão e de uma democracia que preferiu calar relatos a exorcizá-los na praça pública, identificando o que devia ser identificado.

 

A História não é um tribunal, nem, muito menos, o soalheiro onde gente de má fama lava roupa suja. A História é, tem de ser, o relato límpido dos acontecimentos despejados de raivas e de ódios.

04.11.18

Torre e Espada – Milhões e militares


Luís Alves de Fraga

 

Acabei, há poucas horas, de assistir, através da emissão televisiva, ao grandioso desfile “militar” na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Comemorou-se o centenário do Armistício, uma semana antes da data em que aconteceu. Razões imperiosas levaram a que se adiantasse o acontecimento: o nosso Presidente da República vai estar, no dia 11, em Paris para acompanhar a evocação internacional.

 

Muita coisa poderia dizer sobre o que vi, mas vou concentrar-me em dois ou três aspectos, para não ser longo nem incomodar os meus leitores.

 

Antes do mais, no meu entender, há que explicar a inclusão da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia no desfile, que devia ser militar (a Polícia é uma força de segurança civil), já que a primeira teve um papel muito reduzido no conflito e a segunda não teve papel absolutamente nenhum.

Se quem esteve atento à emissão televisiva tomou em devida nota os efectivos mencionados, poderá ter feito as contas e verificado que, AO TODO, a Armada, o Exército e a Força Aérea não têm ao serviço vinte e quatro mil elementos (homens e mulheres), mas a POLÍCIA (força civil e de segurança interna) tem à volta de vinte e um mil efectivos! Falta, ainda a GNR…

Assim, se o desfile se limitasse a ser só feito por militares dos ramos realmente combatentes na Grande Guerra, seria um “desfilinho” ou uma “paradinha”! Para lhe dar a grandeza dos quatro mil que teve, houve que juntar tudo o que usa arma para segurança. A tal situação nos reduziram as “Jotas” com a sua oposição ao serviço militar obrigatório e a tal nos tem reduzido a vontade política dos Governos democráticos, com medo das Forças Armadas.

 

Mas o Presidente quis salvar a face dos Exércitos de Terra, Mar e Ar, numa altura em que tão vilipendiados têm sido e, como bom político que é, “arrefinfou-lhes”, nos estandartes dos respectivos Estados-Maiores, as insígnias da Ordem Militar da Torre e Espada do Valor Lealdades e Mérito. Ficou-lhe bem e as Forças Armadas agradecem. As forças de segurança ficaram a “chuchar no dedo”, como convém e se justifica, porque, “com papas e bolos se enganam os tolos”!

 

Depois, depois foi a desgraça dos repórteres da televisão, que “não davam uma para a caixa”, visto terem estudado muito mal as informações que poderiam ter colhido sobre a intervenção de Portugal na Grande Guerra. Safou-os, mas nem sempre bem, os oficiais destacados pelos ramos das Forças Armadas, que lá explicaram alguns pormenores do que foi a nossa participação no conflito. E, até notei, o oficial da Força Aérea lembrou-se da esquadrilha mandada para Moçambique. Haja Deus!

 

Na sequência do programa e já no telejornal veio à baila o soldado Milhões.

É sabido, tenho-me dedicado, há mais de duas dezenas de anos, ao estudo e pesquisa da participação na Grande Guerra. Fiz tese de doutoramento em História sobre o tema. Sempre me interroguei quanto ao real papel do soldado Milhais, designado por Milhões.

Não vos quero incomodar com longas leituras, todavia, sendo sintético, não desprezando a coragem do soldado Milhais, tenho para mim que ele foi, acima de tudo, um símbolo escolhido para criar o herói que faltava ao nível dos soldados combatentes, em La Lys, onde, a grande maioria – mais de seis mil –, foi feita prisioneira e uma minoria morreu em combate (quatrocentos e vinte e três).

 

É o Portugal dos mitos e das meias verdades.

03.11.18

Compreender História


Luís Alves de Fraga

 

Mais uma vez volto a este tema por me parecer importante tanto para quem estuda História, nos diferentes níveis de ensino, como para quem gosta de ler livros de História.

 

Não é a mesma coisa fazer História ou interpretar História. No primeiro caso, quem faz História, conta e explica os factos conhecidos e preenche as lacunas, por falta de informação, com meras deduções ou hipóteses plausíveis de acordo com a “vulgaridade” da época. Dito de outra maneira, depois de reunir os documentos segundo a ordem aparentemente lógica, de acordo com os hábitos existentes à data em que foram gerados, o historiador apercebe-se das falhas discursivas e completa-as, não aleatoriamente, seguindo um método que terá de ser plausível à luz do que está a relatar. Não se trata de inventar a seu bel-prazer, nem de romancear como melhor quer, mas estabelecer as “próteses” que completam a História. É, nesse aspecto, um trabalho científico, pois se trata de uma recriação plena de verosimilhança.

 

Este processo abre a porta à vulgarização da interpretação da História. Com efeito, a barreira que separa aquilo que designo por “preenchimento dos acontecimentos não documentados” daquilo que se reconhece ser “interpretação histórica” é tão subtil que, às vezes, o historiador cai na “armadilha” sem dela se aperceber.

Tem, pois, de se saber o que é interpretar a História. Vou passar, de seguida, a explicar de forma muito sucinta e clara.

 

O conhecimento histórico é sempre – como não podia deixar de ser – posterior aos acontecimentos. Ora, tal como nos jogos de futebol, quem já sabe o resultado pode discutir o modo como ele foi alcançado, criticando decisões, objectivos e modos de proceder. Ou seja, pode sempre especular sobre o próprio acontecimento, tirando dele as conclusões que melhor entender ou lhe parecerem mais lógicas e evidentes. Pode, até, extrair lições para o futuro, alvitrando outros processos de acção.

Como se vê, o que acabei de expor nada tem a ver com o que se passou efectivamente, porque se partiu do acontecimento para o “ajeitar” de acordo com as opiniões do “analista” – que, em boa verdade, não é historiador, embora possa parecer sê-lo.

 

A interpretação da História tem o seu lugar e papel importante não na História propriamente dita, mas em ciências que usam a História para poderem fazer afirmações úteis ao entendimento dos seus objectivos e do seu modo de operar. Estão neste caso, em especial, a Ciência Política e o estudo científico das Relações Internacionais.

Nessas duas áreas do saber há um elemento fundamental no estudo e execução da História, que nelas é quase totalmente dispensável: o tempo. Realmente, quando Henry Kissinger ou Madeleine Albright, nos livros Diplomacia e Fascismo, se socorrem da História fazem-no não para a contar, mas para dela extraírem os exemplos necessários às conclusões políticas onde fundamentam as suas razões interpretativas do fenómeno relacional entre Estados ou entre grupos partidários. O historiador jamais deve seguir tal procedimento, porque corre o risco de, ao contar ou explicar a História, introduzir elementos discursivos que fazem parte da sua actualidade e não da actualidade em que decorreram. Dito de outro modo, o politólogo pode julgar a bondade de um tratado entre Estados, mas o historiador deve simplesmente relatar as razões e contextos que levaram à assinatura do mesmo. No máximo, pode contar e explicar as consequências futuras desse entendimento entre Estados o que não é o mesmo que o julgar, pois continua a fazer História.

 

Julgo ter sido capaz de estabelecer diferenças, ajudando a que se seja capaz de perceber o que é História daquilo que são outros estudos sociais.

01.11.18

Dos pais aos filhos


Luís Alves de Fraga

 

Hoje vou deixar de lado os temas habituais – política e questões sociais – para falar um pouco de mim. De mim e da relação que tive com os meus pais.

 

Ao olhar para trás vejo um abismo imenso entre o que “nós” – a gente da minha geração – éramos e o que são hoje os filhos para com os pais. Não faço julgamentos de valores; estabeleço diferenças.

 

Os nossos pais eram, antes de tudo e do mais, nossos pais! Nunca me passou pela cabeça que o meu pai ou a minha mãe eram os meus melhores amigos. Eles, por “inerência de função”, eram, de certeza, os meus melhores amigos, não por querem rivalizar com os meus amigos, mas, porque, sendo meus pais, “tinham de ser” os meus melhores amigos, pois achava inadmissível que o não fossem.

 

Claro que esta postura gerava uma situação de distanciamento inexistente – será que era inexistente? – nos dias de hoje entre pais e filhos. Mas, o distanciamento de então tinha à mistura uma grande dose de respeito, e pressinto que a “proximidade” de agora levou para um pouco mais longe esse respeito reverencial. Curiosamente, na minha infância, o pai estava “mais distante” e a mãe “mais próxima”. Havia como que uma “hierarquia familiar”, “degraus” de respeito; a mãe, não sendo desrespeitada, aceitava melhor as “desobediências”, talvez, porque se respaldava na autoridade da figura paterna.

 

A minha infância e juventude foi vivida mais em posição de “escutador” do meu pai do que de interlocutor do meu pai. Ele falava e eu ouvia, argumentando, às vezes, com a mesma cautela que o “chefe de cozinha” põe no uso do sal. Conversar, propriamente dito, com o meu pai, só o fiz após ter acabado o curso da Academia Militar, ter sido promovido a oficial e estar a ganhar o meu dinheiro.

 

Na actualidade vejo, com muita frequência, filhos que dialogam com os pais como se eles fossem companheiros de folguedo, de farra, de escola, desmantelando todas as barreiras de idade e de condição.

 

É verdade que o “salto tecnológico”, ocorrido há cerca de vinte anos, veio dar outras oportunidades aos jovens e aos jovens pais. Aos primeiros, porque criaram novas possibilidades de “conversa” fora dos grupos sociais habituais – irmãos, parentes, colegas de escola, amigos do café, companheiros de farras –, gerando uma multiplicidade de contactos e experiências quase inexistentes antes dos computadores pessoais e dos telemóveis com múltiplas funções; aos segundos, porque, a par das mesmas hipóteses dos filhos, lhes “facilitou a vida”, evitando-lhes a “obrigação” de conversar com os descendentes. Em suma, a família ampliando o leque de contactos para fora de si mesma, fechou-se para o diálogo e para a relação restrita dentro dela.

 

Mas houve mais que a tecnologia trouxe: a possibilidade de “compensar” a ausência de contacto com os filhos, através de os premiar com novos “artefactos” tecnológicos. Os pais não se sentem frustrados e os filhos não se sentem agradecidos, pois não tiveram de “pedinchar”, visto receberem de bandeja aquilo que julgam ter direito.

 

Não há a mínima dúvida de que estamos a assistir a uma nova mudança de paradigma relacional entre pais e filhos. Na minha juventude falou-se muito das alterações provocadas pelo pós-guerra nos filhos criados sem pais por terem morrido no conflito. Mas creio que essa “marginalidade” foi ultrapassada pelo surgimento dos hippies, de novas modas musicais, dos novos vestuários, dos novos comportamentos os quais fizeram descer os níveis de rigidez comportamental entre pais e filhos, mas não desfez, em absoluto, os laços de respeito mútuo. Todavia, neste tempo de agora, parece estar em desagregação essa réstia de equilíbrio, deixando-me perplexo perante o futuro próximo, já que nem na escola a autoridade devida ao “saber” merece ser aceite.

 

Tudo isto não é um problema político?

Claro que, para além de sociológico, é basicamente político, pois gera uma grande interrogação sobre o futuro que não vai ser nem igual nem semelhante ao nosso passado ou ao de todos os povos influenciados pela nossa cultura, dita ocidental.

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