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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Férias de Páscoa

 

Enquanto frequentei o Instituto dos Pupilos do Exército, as férias de Páscoa tiveram vivências diferentes: foram tempo de leitura e cinema ainda antes dos dezasseis anos, foram um tempo de religiosidade e leitura entre os dezasseis e os dezoito, foram um tempo de namoro, passeios e cinemas até aos vinte anos. Depois veio a Academia Militar.

 

As férias de Páscoa, nesse tempo de preparação para a vida profissional, eram o momento de descontracção: cinema, leituras e namoro. Depois, bem, depois deixei de ter férias de Páscoa durante muitos anos.

 

A leitura e o cinema foram, além dos namoros, as minhas grandes ocupações nas férias de Páscoa e não só... Em todas as férias desses anos recuados. Mais tarde a televisão entrou-nos casa dentro e alterou hábitos. Passámos a ser "televisivos" e a leitura começou a deixar de ser fundamental.

Agora, de há uma dezena de anos a esta parte, somos internautas. "Navegamos" na Internet e só alguns lêem livros de papel e, alguns, no ecrã do computador ou do tablet.

 

Agora, nestas férias das férias, uso o computador para escrever os meus trabalhos e para vos escrever.

Vou voltar à minha escrita, mas, antes, quero desejar-vos uma boa Páscoa, na lembrança de que este é, por definição epocal, um tempo de renascimento. Desejar-vos boa Páscoa é desejar-vos um bom voltar à vida.

Academias militares

 

Muita gente, em Portugal — e só me refiro aqui aos Portugueses —, pode perguntar-se para que servem as Academias militares — a saber: Escola Naval, Academia Militar e Academia da Força Aérea — e o que lá se aprende.

Não pretendo esgotar o assunto, mas, no meu sintetismo, procurarei dizer o essencial.

 

Nas Academias militares aprende-se a fazer a guerra da forma mais eficiente e, também, mais eficaz. Adivinho a pergunta:

— Mas para que se quer, em Portugal, aprender a fazer a guerra?

A resposta é só uma, que parece contraditória:

— Para evitar a guerra.

E, para que se saiba, só se evita a guerra quando se tem um sistema de dissuasão da guerra suficientemente credível. Em Portugal, ninguém acredita no nosso sistema de dissuasão, porque ninguém acredita na possibilidade de haver guerra e, se a houver, ninguém acredita que as nossas Forças Armadas possam fazer o quer que seja para a evitar. Assim, não há investimento no nosso sistema militar de dissuasão. Somos um Estado sem defesa ou com a defesa reduzida aos mínimos que a decência política impõe.

 

Mas temos oficiais militares. Para quê? Para manter de pé o “simulacro” de Forças Amadas e, acima de tudo, para poder, se e quando necessário, preparar a defesa possível quando ela for necessária e possível.

— Como é que se prepara um oficial das Forças Armadas?

Além de lhe ministrar todos os conhecimentos técnicos imprescindíveis às várias formas de fazer a guerra, ensina-se-lhe um valor mais alto e mais subtil: o amor da Pátria.

 

O amor pela Pátria é algo que, no presente, muitos apregoam, mas poucos sabem exactamente o que é e que não se confunde com vitórias internacionais de futebol ou de qualquer tipo de desporto. Amor da Pátria é o desejo de manter eterno o que faz de nós gente que se chama Portuguesa, que se identifica com a nossa História, com a nossa Língua, com a nossa maneira de estar no mundo e com o nosso desejo de continuarmos a ser um agregado com identidade bem definida enquanto Povo e Território. Ensina-se que, para preservação destes valores, se for necessário, qualquer um, que é militar, pode ser chamado a dar a própria vida.

 

As Academias militares são o último repositório da portugalidade num tempo de globalização e de europeização.

 

Eis a razão pela qual o meu coração acelera a batida quando me cruzo com cadetes de qualquer uma das Escolas de formação de oficiais das Forças Armadas Portuguesas: ali vai uma reserva de Portugal. Um Portugal inteiro, íntegro, mas capaz de continuar igual à sua mais pura essência histórica.

 

Coisas de velho oficial, pensarão quase todos os que conseguiram ler-me até aqui!

Coisas de quem aprendeu a servir Portugal e não a servir-se, rebaterei eu!

11 de Março de 1975: um golpe que fazia falta

 

Foi há quarenta e três anos que ocorreu o "nosso" 11 de Março, aquele em que, uma facção minoritária das Forças Armadas, tentou um golpe de direita sobre a recente democracia nacional, comandado pelo general Spínola, o qual havia resignado do cargo de Presidente da República para onde tinha "saltado" na sequência do golpe militar de 25 de Abril de 1974. Spínola era, sem a menor dúvida, um militar de direita.

 

Ora, fazia falta o golpe de direita, porquê, estarão a pensar alguns dos meus leitores. E eu vou explicar.

 

Em 25 de Abril de 1974 havia-se derrubado a ditadura fascista, mas não se tinha feito mais nada do que isso!

- Mas o que deveria fazer-se mais?

Desmantelar o "edifício" que dava suporte à direita fascista. A finança estava toda na mão de gente altamente comprometida com a ditadura, a grande indústria — que a havia nessa altura — estava controlada pelos grandes grupos capitalistas, ou seja, por muito que se quisesse democratizar, a estrutura fascista poderia sempre boicotar a democratização. E era o que estava a fazer havia meses. Essa "travagem" foi dando origem a que os elementos mais aguerridos da extrema esquerda, minoritários, mas com grande capacidade de atracção das massas despolitizadas, se manifestassem, cada vez mais, agressivamente e, sempre, desorganizadamente, gerando um clima de instabilidade social, propício à entrada violenta da "ordem" de direita. O golpe de 11 de Março foi exactamente a ponta desse iceberg que, a sair vitorioso, faria regressar a Portugal a ditadura, agora, com fortes repressões a todos os níveis sociais e políticos. Ninguém, minimamente comprometido com os ideais democráticos de 25 de Abril, poderia aceitar uma tal reviravolta. A única forma de "quebrar a espinha" à direita reaccionária era "atacá-la" no seu ponto mais forte: a banca.

 

Assim, na sequência do falhado golpe de 11 de Março, em boa hora, se tomou a decisão de nacionalizá-la. Mas, o quase imprevisível, aconteceu: atrás da banca nacionalizada, porque devedora a esta ou integrada nesta, veio quase toda a indústria nacional, chegando, por vezes, a nacionalizações ridículas, porque não tinham peso específico na economia. Essa "desconformidade" impunha que se desnacionalizasse alguma coisa. Foi a "fenda" por onde passou a primeira alavanca que possibilitava a desnacionalização de tudo o mais... era, como foi, uma questão de tempo.

 

Logo após a nacionalização não bastava deixar tudo como dantes; era preciso que os proventos da banca estivessem clara e inequivocamente ao serviço do bem-estar da população em geral. Por outras palavras, impunha-se que se avançasse para a prática de uma social-democracia sem divergências. E foi nesse movimento, que o recuo do Partido Socialista, ao desvincular-se da esquerda partidária para se colocar ao centro, junto do, então, PPD (onde se acoitavam todos os receosos da progressão comunista influenciados, ainda, pelas teses antimarxistas do fascismo) que nasceu o germe do 25 de Novembro de 1975. Foi nessa altura que Mário Soares, para confirmar a teses de Kissinger, virou costas ao PCP, "guardou na gaveta" o socialismo marxista e se aliou ao capitalismo internacional e, mais do que tudo, europeu e alemão. Todavia, nada disto invalida a necessidade do 11 de Março de 1975. Pelo contrário, clarifica a sua necessidade e importância.

 

A História faz-se para contar e para explicar melhor do que foram capazes de o fazer os próprios protagonistas da mesma.

Volto à carga...

 

Desde 1982 que dou aulas, que lecciono em estabelecimentos de ensino superior; antes, já tinha experiência lectiva no, então chamado, ensino liceal - acho que a primeira vez que enfrentei alunos numa de aula foi por volta de 1963/64, numa "sala de estudo", recebendo à hora a "gloriosa" quantia de vinte e cinco escudos! Por conseguinte, admito que ninguém tem dúvidas que eu sei do que falo, quando falo de dar aulas.

 

Se era de pequena responsabilidade a minha actividade docente quando leccionava na área liceal, a coisa mudou de figura quando passei a dar aulas no ensino superior. Sentia que a minha preparação tinha de ser cuidada e responsável. Mesmo com experiência anterior, por volta de 1982 e nos seis ou sete anos seguintes, o começo do ano era sempre algo que me atormentava, pois tinha a sensação de não estar preparado para o desafio que se iniciava.

 

Ora, vem tudo isto à colação por causa do Passos Coelho. Não tanto por causa dele, entenda-se, pois quanto ao que ele é capaz de fazer nada me espanta, tratando-se de um mentiroso político! Que ele é capaz de aldrabar um punhado de alunos numa sala de aula, não tenho a menor dúvida. Porque é isso que ele vai fazer: ALDRABAR! Todavia, espanta-me a irresponsabilidade das autoridades académicas que o catapultam para a cadeira da docência, destinando-o a "ensinar" futuros mestres e futuros doutores, com a categoria de professor catedrático convidado. Ainda se fosse professor auxiliar convidado e se se limitasse a ensinar futuros licenciados, embora com todos os riscos inerentes à leccionação, EU poderia aceitar!

 

Depois, coloca-se a questão do que ele vai ensinar.

Segundo os jornais, ser-lhe-á reconhecida competência académica para ensinar Economia e Administração Pública!

Vamos desmontar o que é ensinar.

 

Ensinar não é contar a experiência pessoal. Ensinar é abrir horizontes sobre uma determinada matéria... aquela que se ensina. É obrigar a "pensar assim" e o "contrário de assim". É estabelecer dúvidas e não impor dogmas. Dogmas impõem-se, no âmbito académico, com conferências, quando o conferencista expõe as suas conclusões... que até podem não ser dogmáticas; nunca numa sala de aula, porque se corre o risco de estar a fazer propaganda política.

 

O ISCSP teve bons professores - ainda por lá andam alguns com gabarito significativo - e, de entre todos, ressalta o Doutor Adriano Moreira.

Vejamos o que acontecia quando ele ensinava.

 

Lição dada por esse grande Mestre de Ciência Política correspondia a sala cheia de alunos para o ouvir. Porquê? Porque ele não "vendia banha da cobra"! Ele ensinava a pensar de forma que todos nós construíssemos o nosso próprio modelo de observação a partir dos diferentes paradigmas políticos por ele expostos sem subtilezas nem armadilhas. Adriano Moreira adoptava uma posição "quase" neutra - a neutralidade é impossível, contudo pode e deve tentar-se quando se ensina - e nós, os alunos tirávamos conclusões, pensávamos e discutíamos a partir dos seus ensinamentos.

 

Não vejo - nem eu, nem ninguém vê - Pedro Passos Coelho a ser capaz deste ensaio de "neutralidade" em Economia e em Administração Pública. Por isso, quem eu condeno, mais do que o antigo governante, são as autoridades académicas, para já, do ISCSP. Esperava mais delas!

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