Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Colectivismo e Individualismo

 

Deixem que comece por definir o que entendo por colectivismo: será a doutrina que sobrepõe valores colectivos aos valores individuais numa sociedade humana, que se rege politicamente em nome do que afecta e condiciona todos, postergando para segundo plano a necessidade pessoal já que a colectiva sobreleva à anterior.

Por oposição, individualismo, será a doutrina que sobrepõe valores individuais aos valores colectivos numa sociedade humana, pois rege-se pelo somatório da parte comum das vontades individuais, fazendo prevalecer o indivíduo sobre o colectivo de indivíduos.

 

Olhados à luz do que acabo de dizer, percebemos a diferença declaradamente notória que há entre o sistema político capitalista e o sistema político socialista (entenda-se marxista).

No capitalismo, o indivíduo tem garantidas as liberdades necessárias para poder levar até ao limite a sua vontade de crescimento; ele é soberano e, porque o é, tem asseguradas as possibilidades de fazer prevalecer a sua vontade perante a vontade colectiva e, também, de ver defendida a sua propriedade como fruto do seu universo pessoal. O século XIX, na Europa e nas Américas, foi exemplo do individualismo que gerou desvios abismais entre ricos e pobres – ambos tinham garantidas as suas “liberdades” ainda que a liberdade dos pobres não pudesse atentar contra a propriedade dos ricos; contudo, estes podiam atentar contra a liberdade dos pobres, explorando-os na sua miséria. A iniquidade do sistema não carece de ser mais evidenciada, pois está historicamente demonstrada. Todavia, valerá a pena deixar um breve apontamento sobre um aspecto que reputo importante: foi por esta liberdade individual que se fizeram as revoluções ditas liberais que prometiam a liberdade, a igualdade e a fraternidade; foi por esta liberdade que se bateram os democratas do século XIX: uma democracia desigual e arbitrária herdeira da Revolução Francesa nos ideais.

O agravamento das condições de vida das classes sociais que individualmente estavam mais desprotegidas no sistema capitalista gerou “respostas” colectivistas que se plasmaram em diversas doutrinas políticas das quais a mais conhecida e que mais longe chegou na efectivação prática foi a marxista que, por intermédio da acção revolucionária de Lenine, ganhou forma num Estado: a Rússia, em 1917. Detenhamo-nos um pouco mais neste particular.

O colectivismo marxista negava o direito à propriedade de detenção de meios de produção, isto é, atentava contra a liberdade individual do capitalista explorador em nome da liberdade do colectivo. Mas, algo que custa a compreender ainda quase passados cem anos sobre a Revolução Soviética, é que o novo sistema político mudou o paradigma de liberdade: esta deixou de ser individual para passar a ser colectiva, porque o indivíduo deve sujeitar-se à sociedade. À luz do que acabo de dizer, não faz sentido a liberdade definida nos padrões da Revolução Francesa, nos padrões liberais do século XIX, porque esses padrões impuseram a ditadura de uma classe – a burguesa – sobre a classe proletária – a que não tinha outra capacidade para se impor na vida que não fosse a sua força de trabalho. Havia, por conseguinte, que, em nome do colectivo anteriormente explorado, impor uma nova ditadura – não individual, mas colectiva – a do proletariado. Os defensores das liberdades individuais eram, naturalmente, defensores do sistema derrubado, porque entre um modelo e o outro não havia um terceiro alternativo; a situação era, por conseguinte, dicotómica e maniqueísta. Mas o colectivismo tinha de ir mais longe: tinha de coarctar a liberdade de movimentos dos indivíduos que compõem a sociedade por causa do sistema de produção dos bens necessários a todos. Realmente, a liberdade de movimentos individuais atentava contra o planeamento da produção, gerando desequilíbrios no mercado de consumo e, por isso mesmo, inquinando de individualismo o que deveria ser colectivo. Era uma nova cultura que se definia em nome do colectivismo. As liberdades do individualismo não poderiam ser iguais às liberdades do colectivismo e vice-versa.

 

Historicamente curioso foi que, na sequência da Revolução Soviética – que se opõe à Revolução Francesa no modelo social e económico que desta nasceu – surgiu uma outra forma de colectivismo, decerto modo influenciada pelas causas determinantes do nascimento do marxismo, que teve o seu modelo mais completo e acabado em Itália: o fascismo. Realmente, tratava-se, também, de um modelo colectivista, no entanto, atenuado ou minguado, pois buscava teoricamente, no seu limite, controlar o poder do capital – e a consequente liberdade do mesmo – arbitrando os conflitos com o “trabalho” de modo a que as forças sociais deste, não quebrando o direito à propriedade daquele, não fossem exploradas pela liberdade capitalista. Não se cortavam liberdades individuais, mas limitam-se-lhes os efeitos; a colectividade, enquanto classe obreira, não se apoderava dos meios de produção, mas “entregava” no Estado – entidade abstracta e irreconhecível – o direito de preservar os interesses das partes envolvidas.

Está visto que esta via colectivista – a fascista – não passava de um logro, pois bastava que o detentor do poder do Estado se inclinasse para uma das partes que compõem o binómio do desacordo sócio-laboral para imediatamente estar a prejudicar a outra. E, no caso, o fascismo italiano, tal como todos os dele derivados, colocaram-se ao lado do capitalismo para, em nome de um colectivo que diziam representar, obstaculizarem os mais elementares desejos e aspirações dos trabalhadores. Contudo, a repressão exercida sobre a sociedade invocava os valores colectivos para se exercer ao nível individual.

 

Estamos num tempo em que, cada vez mais, é fundamental discutir as doutrinas políticas para as compreender, pois só assim compreenderemos o que queremos e o que não queremos enquanto membros de uma sociedade política. Uma sociedade política a atravessar uma grave crise estrutural.

Hoje deixei aos meus Leitores um contributo necessariamente reduzido e esquemático, mas, julgo, suficiente para se perceber o fundamental sobre o que separa e o que une as discussões aparentemente complexas das sociedades em que vivemos.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D