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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

De vítimas a carrascos

 

Não será exagero dizer-se que o mundo inteiro — pelo menos aquele mundo de gente que nós nos habituámos a sentir como a parte humana da Humanidade — ficou chocado com o ataque de forças navais israelitas aos navios que levavam auxílio humanitário destinado às populações palestinianas da faixa de Gaza as quais vivem o mais horroroso dos bloqueios.

 

O erro histórico da criação do Estado de Israel como pátria dos Judeus, condenado, poucos anos após a independência, pelo historiador e filósofo da História Arnold J. Toynbee — um dos pensadores britânicos que, sem rebuço, se assumiu como anti-marxista e anti-comunista — na obra que, entre nós foi traduzido com o título De Leste a Oeste — é hoje flagrante. Ele, em 1955, de acordo com a sua antevisão do afrontamento entre a cultura cristã e a islâmica, considerou de imediato como uma tremenda arbitrariedade aquilo que poderia ser a correcção da História ao dar um lar aos Judeus, expulsando e tornando errantes os islâmicos da Palestina. E não estava enganado!

 

Foi o complexo de culpa e a pressão judaica global quem, depois da 2.ª Guerra Mundial, e em face do horroroso crime dos nazis praticado nos campos de concentração contra os Judeus, determinou a criação de um Estado para lhes servir de pátria. Era tentar emendar um crime com um potencial crime que se avizinhava. Foi jogar com a emoção colectiva face a um horror, para gerar uma fonte de conflitualidade no Médio Oriente. Contudo, este movimento de pseudojustiça para com um Povo, tradicionalmente perseguido pela Igreja Católica e marginalizado por quase todas as religiões cristãs, tinha um fundamento mais vasto e muitíssimo mais materialista do que as aparências evidenciavam: a influência da comunidade judaica dos EUA aproveitada por Washington para cravar uma cunha de presença no mundo árabe, já então insuspeitável produtor de petróleo. Era a utilização do velho princípio de dividir para reinar. Mas reinar com um pé colocado no meio da praça do potencial adversário; reinar com base numa guarda avançada que gerasse pólos de conflitualidade entre quem não tinha condições de se unir. Quer dizer, Israel depois dos primeiros tempos de fixação e afirmação de poder regional, conseguiu dar ao mundo a imagem de um Estado perseguido pelos povos islâmicos que o cercavam, só que, nessa altura, era já o lobo vestido com a pele do carneiro; anunciando a execução de guerras defensivas, afirmava-se, com o apoio mais ou menos camuflado dos EUA, como um Estado regional de tendências imperialistas. E foi nisso que Israel se tornou graças ao chapéu-de-chuva que evitava que, na época, a, então ainda existente, URSS desse maior e mais declarado apoio aos Estados islâmicos vizinhos de modo a acabarem de vez com o aberrante Estado judaico — aberrante, porque, na perspectiva da História, não faz sentido que exista nas condições em que se afirma: Pátria dos Judeus! Essa desapareceu há, pelo menos, dois mil anos!

 

Desde que os EUA têm afirmado, no Médio Oriente, a sua imensa vontade de estar presentes, sob a capa democratizadora, recordando-nos a irónica e hipócrita afirmação britânica do século XIX, quando, para dominar os povos africanos, os Ingleses chamaram a si o encargo de suportar o fardo do homem branco, civilizando os “pobres” negros da selva, Israel comporta-se, na cena regional, com a mesma falta de humanidade com que os seus mais recentes carrascos os mataram, aos milhões, nas câmaras de gás. Sem dó nem compaixão liquidam um povo que, há cerca de sessenta anos, sem ser ouvido, se tornou errante e, por isso, resistente. Hoje, à luz do mais elementar Direito Internacional e Humanitário, é tão hediondo o crime de Israel como hediondo foi o genocídio hitleriano. O direito à sobrevivência e à salvaguarda da vida impõe a proporcionalidade dos meios usados para a garantir. Ora, isso há muitos anos que se não verifica no conflito que Israel alimenta e os EUA acobertam.

 

O mundo está a ficar um local feio para se viver. A ausência de ética e de valores ou a sua deturpação em nome da prevalência da liberdade do império do dinheiro causam náuseas a quem escuta as notícias nas televisões ou as lê nas folhas dos jornais.

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