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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

A República ou a consciência colectiva

 

 

 
Temos República há 97 anos.
A Monarquia caiu na manhã de 5 de Outubro de 1910 sem que, na prática, ninguém se empenhasse verdadeiramente em defendê-la. Caiu de forma semelhante à do Estado Novo, quase sem derramamento de sangue e sem luta. E foi assim, porquê?
Porque era indiferente aos Portugueses se quem estava à frente do Estado era um Rei ou um Presidente de uma República; porque os Portugueses — os cultos, na época, os alfabetizados, que rondavam os 25% do total da população — esperavam, como quem espera um milagre, que a República pusesse fim a esta estranha maneira de ser de todos nós enquanto Povo. A República foi uma espécie de D. Sebastião salvador, tal como o foi, fugazmente, o Sidónio Pais, e, muito mais duradouramente no tempo, Oliveira Salazar.
 
Nós vivemos e alimentamos a nossa consciência colectiva da esperança de que tudo em nós mesmos mude por milagre, por acção de um agente exterior.
Até a votação massiva em José Sócrates, dando-lhe uma maioria taumatúrgica, foi feita na esperança desse milagre sempre adiado! Já havia sido assim com Cavaco Silva quando governou dez anos.
 
Como Povo caracterizamo-nos pela preguiça colectiva, pela incapacidade de nos impormos a mudança. Aceitamos a canga — desde que no acto de no-la colocarem no dorso ela apareça como um milagre transformador — com esperança; a esperança de quem não quer fazer nada por si e para si.
 
Culpamos a religião católica romana de nos ter conformado a consciência colectiva… E, se calhar, com razão! Ou, talvez, sem ela!
Culpamos o Tribunal do Santo Ofício — a Inquisição — de nos ter transformado num Povo de delatores, tal como culpamos a PIDE/DGS, de má memória, e a censura, de nos terem amordaçado durante dezenas de anos a fio.
Culpamos tudo e todos, antes e depois de Antero de Quental o ter feito nas célebres conferências do Casino Lisbonense, em 1870.
Culpamos os Ingleses de nos terem subordinado a economia, a política externa e, até, a interna, atrasando-nos o desenvolvimento, a incapacidade de construir, em 1880, um grande império em África, de terem auxiliado à independência do Brasil.
Culpamos os Espanhóis de nos quererem permanentemente anexar, de, daquelas bandas, não vir nem bom vento nem bom casamento.
Culpamos o nosso vizinho do apartamento ao lado de ganhar mais ao fim do mês do que nós, do mesmo modo que culpamos o nosso colega de trabalho por ter ascendido mais rápido na carreira.
 
Culpamos tudo e todos, mas somos incapazes de nos culparmos por não sermos competentes para nos reformarmos, para nos modificarmos, para, sem auxílios exteriores, miraculosos, fazermos por nós próprios, enquanto Povo, enquanto colectivo, tudo o que podemos para concorrer para a nossa própria defesa, para o nosso próprio bem.
Somos incapazes, porque somos, colectivamente, preguiçosos e invejosos e comodistas e — porquê ter medo de dizê-lo? — vigaristas e, também, acima de tudo, individualistas.
 
Somos tudo isto colectivamente e não somos capazes de rezar colectivamente um grande acto de contrição, formulando um amplo e profundo desejo de emenda. Não somos capazes de pensar que a nossa salvação não está em cada um se salvar, mas em salvarmo-nos todos, tendo cada qual de fazer um esforço no mesmo sentido para mudarmos como Povo.
 
Só quando os nossos políticos forem capazes de se transformarem em missionários desta cruzada redentora; quando os nossos professores se assumirem como sacerdotes desta religião do colectivo; quando esquecermos um passado histórico grandioso, mas mitificado por anos e anos de balofa prosápia; quando aceitarmos com bom agrado a nossa situação mesquinha e mísera seremos, colectivamente, capazes de renascer, de nos levantarmos perante nós mesmos e o mundo e as civilizações e as economias. Então seremos Homens, Cidadãos de corpo inteiro; então ter-se-á dado o milagre pelo qual ansiamos desde sempre e desde antes de D. Sebastião.

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