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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

As receitas médicas

 
Há vários anos deixei de utilizar os serviços clínicos de especialidade do Hospital da Força Aérea. Razão: o sistema de marcação de consultas, porque: ou vou para uma fila, às seis horas da manhã, ao frio, ao sol ou à chuva, esperando que se abram as portas para conseguir a marcação para daí a duas ou três semanas; ou, pelo telefone, não tenho hipóteses de espécie nenhuma.
Recuso-me a mendigar uma coisa a que tenho direito; recuso-me a roubar a oportunidade a outros camaradas de outros Ramos das Forças Armadas, usando os Hospitais da Marinha ou Militar da Estrela. A Força Aérea tem um hospital deveria, em primeiro lugar servir para os seus militares e familiares dos seus militares, depois para os outros militares e, finalmente — se houvesse finalmente — para os subscritores do sistema de saúde coberto pela ADSE.
Como me recuso a mendigar, procuro especialistas civis para os achaques que me afligem.
 
Há tempo fui a um dermatologista que, para além de me levar, pela primeira consulta, 90 € (noventa euros) me passou uma longa receita de pomadas e unguentos de toda a espécie.
Como estava no final do mês (mês financeiro, entenda-se) passei pela farmácia e, sabedor dos preços destes receituários para a pele, antes de mandar aviar o que o clínico me tinha prescrito, fui perguntando os preços e, para minha surpresa, entre o que era comparticipado e o que não era, ficar-me-iam na caixa qualquer coisa como 175 € (cento e setenta e cinco euros)!
Mandei que o solícito ajudante de farmácia suspendesse o aviamento da receita e esperei que começasse um novo mês.
 
Não, meus senhores, o tempo da vergonha acabou! Sou um reformado e não tenho vergonha nenhuma em dizer que o dinheiro da minha pensão não me chega para satisfazer os encargos que assumi. E, assumi-os há mais de três anos na presunção de uma série de pressupostos que este Governo, sem me consultar — a mim nem a ninguém — alterou a seu bel-prazer. Ter vergonha de não ter dinheiro de uma pensão para a qual andei uma vida inteira a descontar?!
— Mas o senhor é um coronel na situação de reforma!
— Pois sou, e lastimo, e muito, todos os que sendo primeiros ou segundos sargentos estão na reforma sem mais rendimentos que a sua magra pensão… Os bifes, ou as iscas, a pescada ou o red fish, o bacalhau ou as batatas, o sabonete ou a pasta para os dentes custam o mesmo para eles e para mim e para o senhor governador do Banco de Portugal… Só com uma pequena diferença: eles quase não comem, não se lavam ou não lavam os dentes; eu ainda vou comendo e lavando-me e o governador do Banco de Portugal come, ou pode comer, todos os dias no restaurante Tavares (Rico); quanto a lavar-se… Bom, julgo que não deve haver sabonete que lhe branqueie a consciência!
 
Mas voltemos à receita médica.
Deixei passar o tempo suficiente para a conta bancária ficar de novo composta e lá fui todo lampeiro aviar a receita. Surpresa!!!! O prazo da mesma tinha expirado!!!!
— Mas como é? — perguntei ao ajudante de farmácia. — É que — respondeu-me — agora resolveram pôr em vigor um decreto que há muito existia e que não permite aviar receitas fora do prazo, rasuradas ou sem data.
— Então tenho de voltar ao médico, pagar uma nova consulta, para ele me passar outra receita? Ou tenho de lhe mendigar o favor de passar outra receita, porque o mês passado foi muito comprido e eu já não tinha dinheiro para comprar os medicamentos que me havia prescrito antes?
— Não — respondeu-me o jovem ajudante de farmácia — Vá ao seu médico de família e deixe lá ficar a receita. Ele passa-lhe outra com data de amanhã ou depois.
Agradeci a sugestão e vim para casa pensar nas «economias» que este nosso Governo resolve fazer. O gasto não sai pela porta, mas escoa-se pela janela!
Agora o médico de família faz o papel de escriba para recopiar receitas que o doente não teve “oportunidade financeira” de aviar ou impõe ver o doente e discordar da prescrição do especialista ou qualquer outra ideia maluca que lhe passe pelo bestunto!
Os serviços engarrafam-se por causa de um decreto concebido por um burocrata, distante das realidades deste país, gozando de boa saúde e sem ter necessidade de contar os euros para fazer escolhas entre farmácia e mercado, entre esta semana e o próximo mês.
 
Deuses iluminem os que se dizem governantes do meu país. Dai-lhes o tino suficiente para descobrirem que são incompetentes, que não valem nada, que são uns papalvos, uns inúteis, uns vampiros do Orçamento do Estado, uns vaidosos e uns desavergonhados. Deuses façam-me, e a todos os Portugueses, esse favor tão pequeno comparado com a vossa omnipotência.

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