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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

14.01.23

1956/57 – “Annus Horribillis


Luís Alves de Fraga

 

Entrei para o Instituto dos Pupilos do Exército em Outubro de 1954 para aquele que é agora o 6.º ano de escolaridade, que conclui sem grandes dificuldades, para além das que tive na disciplina que dava pelo nome de “Trabalhos Manuais”, coisa para a qual a Natureza não me dotou com capacidades especiais.

No ano lectivo seguinte fui, naturalmente, frequentar 7.º ano na vertente comercial. Sem ter de “marrar” muito, cheguei ao final do ano, em Junho de 1956, aprovado em todas as disciplinas com notas bastante aceitáveis, se tivermos em linha de conta que os professores por lá eram bastante somíticos nas classificações. Depois de umas longas e excelentes férias na ilha das Flores, eis que regresso para enfrentar o 8.º ano.

 

Primeira grande surpresa, havia três novos professores e todos civis e que nunca nos tinham dado aulas. Um, era antigo aluno e chamava-se Luizélio Saraiva, acabado de contratar nesse ano, ensinava Contabilidade, outro chamava-se António Duarte e ensinava Inglês e o terceiro, chamava-se Horácio Porto e leccionava Química.

Digamos, em abono da verdade, que o 8.º ano era, comparado com os anteriores, o mais complicado, porque misturava cadeiras do chamado ensino liceal e do comercial e, depois, porque o número de disciplinas aumentava de repente, ganhando uma “especialização” para a qual os anos anteriores não nos haviam preparado.

Se a saída de um velho major, também antigo aluno, o Guerra, “descomplicou” a cadeira de Contabilidade, que ele não sabia ensinar, e o Dr. Luzélio Saraiva foi exímio em tornar simples, o certo é que a disciplina de Química, que até aí não tinha nada de especial, transformou-se num pavor, por causa do Dr. Horácio Porto, que, sendo licenciado em Economia ou Finanças, vinha fazer “um gancho” ensinando uma matéria para a qual não estava devidamente preparado nem habilitado.

Mas caracterizemos este espécime.

 

Homem magro, de rosto afilado, muito branco, destacando-se-lhe umas quantas sardas, óculos de armação dourada, vestindo fato completo, que, com requintados cuidados, evitava sujar de pó de giz, sorriso cínico e gracejo fácil, escondia muito mal um imenso sadismo. Devia estar convencido que, por se tratar de internato e nós sermos, na maioria esmagadora, filhos de militares de baixa graduação, aquela instituição era um asilo para jovens desprotegidos. E, desse modo, tratou-nos, naquele seu segundo ano de permanência na Casa, como se fossemos lixo intelectual.

Explicava mal e de forma confusa a matéria que supostamente devia ensinar e, nos chamados “pontos escritos” (hoje são testes) um erro, por mínimo que fosse, baixava a classificação de forma estrondosa. Ter dez valores (em vinte), com aquele cavalheiro era conseguir meter uma lança em África. Excelentes eram os meus companheiros que tiravam entre onze e treze.

No acto da entrega dos pontos escritos esboçava um sorriso sacana e perguntava ao aluno: «Então, diga lá, a nota que espera ter?». A rapaziada ficava embasbacada, porque, se arriscava julgar ter merecido um onze, ele, com o tal sorriso, que estava a pedir uma belíssima paulada no alto da tola onde já lhe faltava o cabelo, cantarolava: «A minha vizinha tem grelinhos, tem grelinhos no quintal… Ora fique-se lá com seis valores que já não é muito mal». Entregava a folha com um jeito de quem queria dizer: «Julgavas que valias alguma coisa… Tu não vales nada!» E a turma era corrida a negativas quase do princípio ao fim!

As chamadas ao quadro eram bem piores, tal como noutra altura já tive oportunidade de aqui deixar contado. O aluno ficava de pé e ele sentado, com o sacaninha do sorriso nos lábios e dizia: «Já tem vinte valores, vamos lá ver o que é que vale!» e ia perguntando até ao momento em que o aluno, pálido, descoroçoado, estava preparado para aceitar tudo, ele dizia: «Bom, já tem cinco valores. Pode ir sentar-se».

O pior de tudo é que nada disto era feito por brincadeira! Tudo isto ficava lançado na caderneta e o filho da… mulher da fava rica dava, no final do trimestre a média destas pequenas torturas. E foi assim que de vinte e tal alunos, em primeira época, só aprovaram em todas as disciplinas quatro ou cinco, que passaram de imediato para o 9.º ano. Depois, na segunda época, reprovaram tantos que o curso se desmembrou, ficando no ano seguinte, se a memória não me falha, sete alunos. O resto atrasou a vida um ano, porque, tendo reprovado em Química e mais outra cadeira, se reprovava o ano inteiro.

 

Nunca mais esqueci esse tempo em que tive a sorte ‒ e foi sorte ‒ de aprovar o que me deu a possibilidade de ingressar nos últimos anos do curso, caso contrário hoje seria um civil com um outro qualquer rumo na vida.

Como se vê, guardo do Dr. Horácio Santos Porto a pior opinião, julgando, ao que sei, que ainda é vivo, nesta altura da minha e da vida dele, não teria, se o encontrasse, compaixão de espécie alguma em atirar-lhe em rosto o quanto o desprezei e desprezo como professor, já que os meus quarenta anos de docência me dão autoridade para avaliar aquilo que ele nunca soube ser naquele “annus horribillis”.