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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Um Homem Livre e de Bons Costumes

                           

Era conhecido pelos Portugueses simplesmente por Carlos Fabião. Era coronel do Exército. Foi hoje acolher-se no silêncio onde os vivos já nada dizem.

Foi, nos tempos conturbados do «Processo Revolucionário em Curso» — o famoso PREC —, Chefe do Estado-Maior do Exército, chegou a ser indigitado para ocupar o cargo de primeiro ministro. Muitos julgaram-no um homem indeciso. Não era tal. Caracterizava-o a ponderação, a cautela, o desejo de acertar, a tolerância e, acima de tudo, o espírito de conciliação. Esses traços da sua personalidade levaram-no a recusar o convite que viria a ser aceite por Pinheiro de Azevedo, um destemido almirante. Deve-se-lhe a estabilização do PREC.

Coube a Carlos Fabião fazer a entrega da soberania da Guiné-Bissau ao Governo do PAIGC. É verdade que a independência já tinha sido declarada unilateralmente muito antes da madrugada de 25 de Abril de 1974. Havia que proceder à passagem pacífica e tranquila dos Poderes. De entre os militares claramente comprometidos com o MFA (Movimento das Forças Armadas) quem melhor do que ele para ser o representante de Lisboa e de Portugal na negociação dos últimos pormenores com os chefes do Partido que tinha lutado de armas na mão contra o colonialismo? Fizera duas comissões na antiga colónia, conhecia os problemas em profundidade e, acima de tudo, conhecia o Povo. Nas três colónias do continente africano não havia população mais politizada do que a da Guiné.

Terá deixado atrás de si uma só questão por solucionar: a dos guineenses que tinham servido nas Forças Armadas portuguesas contra a guerrilha. Mas esse é o problema de toda a guerra civil! Ora, na perspectiva africana, a guerrilha era, também, uma guerra civil, embora na dos colonizadores se tratasse de uma sublevação contra a autoridade legal. Todos os Africanos que, consciente ou simplesmente obrigados, serviram nas fileiras das Forças Armadas portuguesas combateram, de facto, contra os seus irmãos. Cabia a estes terem e demonstrarem a tolerância necessária para compreender a amplitude da escolha. Também cada Africano que, incorporado nas fileiras, fugisse para se juntar ao inimigo era contra ele levantado um processo pelo crime de deserção e traição. Quando é que se mostrou tolerante o Poder colonial? No silêncio da sua vida recatada, fora das ribaltas militares e políticas, muitas vezes terá, por certo, Carlos Fabião pensado neste dilema dilacerante.

Regressado da Guiné, já ia adiantado o PREC, sofreu o choque de aqui vir encontrar desavindos os militares que, unidos e em uníssono, haviam derrubado a ditadura e dado asas ao sonho do Povo. Mas o Povo estava embriagado com a pureza da Liberdade a ponto de quase a destruir por não saber que fazer com ela. Escolhido para ocupar o comando do Exército, a sua preocupação foi conciliar o que, então, já não era conciliável. Quis perceber o que se passava ao seu redor. Por certo, terá arquitectado cenários explicativos, contudo a complexidade da situação ultrapassava-o tal como a velocidade dos acontecimentos, por ser vertiginosa, era inigualável.

Com a simplicidade e modéstia da graduação em general Chefe do Estado-Maior do Exército aceitou regressar ao posto de origem. Remeteu-se ao quase silêncio. Foi um Homem livre e de bons costumes que, em cerimónias públicas, escolhia os lugares recuados para não dar nas vistas.

A pouco e pouco, vão partindo desta vida os que deram a Portugal a Liberdade.

A memória da História tarda em recordá-los, colocando-os entre aqueles que tudo deram à Pátria sem nada em troca lhe pedirem.

Um dia soará o toque da Alvorada, recordando a geração de militares de Abril, a geração dos militares que, sem peias nem rebuços, apaixonadamente amaram a Liberdade.

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