Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Sem ser ao acaso...

Cor. Manuel Duran Clemente.JPG

No dia 15 de Novembro fiz aparecer neste local uma crónica a que dei o título «Um pouco ao acaso...». De três temas, um houve a que dediquei alguma atenção: a pequena (infelizmente) luta que um punhado de bons Portugueses andam a travar para que, no antigo edifício onde funcionou a sede da famigerada PIDE/DGS, não se construa um condomínio de luxo, mas antes um museu que recorde o que foi a ditadura em Portugal. Não é nada de mais!


Em 2001 estive em Paris e, por diversas vezes, desloquei-me a uma ruazita estreita, mas comprida, nas proximidades da grande praça da Étoile. Para encontrar a dita artéria perguntei a quem conhecia bem a cidade como e onde se situava e, quando o fiz, a explicação veio sempre acompanhada do acrescento: — ao fundo dessa rua está o prédio que foi, durante a ocupação nazi, a sede da Gestapo!


Sessenta anos depois, os parisienses ainda sabiam onde tinha estado instalada a famosa polícia política de Hitler e, contudo, a ocupação durou uns escassos cinco anos! É extraordinário que um Povo guarde assim as suas memórias. A memória das suas feridas. É, por certo, um Povo com personalidade.


Nós, os Portugueses, trinta e um anos depois do derrube da longa ditadura de quarenta e oito anos queremos construir na sede da polícia que calou, encarcerou, torturou e matou Portugueses que se rebelavam contra um sistema odioso, queremos construir um condomínio de luxo! Que memória desejamos que tenham de nós os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos? A lembrança de um Povo que se verga a qualquer canga ou que se vende por qualquer saco de dinheiro?


O meu Amigo, capitão de Abril, como gosta de ser tratado, Manuel Duran Clemente, esteve no dia 5 de Outubro — feriado nacional — junto à antiga sede da mal afamada polícia, manifestando-se, exigindo que os poderes públicos intervenham e mandem que ali se faça História, História viva de vidas torturadas e mortas (porque, já depois da vitória democrática de 25 de Abril de 1974, das janelas do edifício, foram disparados tiros sobre a multidão, matando quem se revoltava contra a ignóbil gentalha acoitada por trás daquelas paredes!). Ele, com outros cidadãos, reclamava e exigia que tivéssemos todos, mas todos, vergonha.


Os poderes públicos, em vez de uma resposta imediata, afirmativa e repousante, garantindo que ali se continuaria a recordar que ditaduras nunca mais, mandou a polícia cívica, fardada e à paisana, dispersar a pequena manifestação, porque «estava a interromper a circulação automóvel»!


Meu Deus, que é isto? Que Pátria é esta? Que governantes são os nossos? Que descaramento é preciso? Interromper o trânsito numa rua de Lisboa a horas de pouca ou nenhuma circulação, num dia feriado! Mas que moral é esta? Que cidadãos são estes que comandam ou mandam na polícia cívica? Será possível que se argumente assim, quando, em dias de trabalho, a horas de ponta, são os mesmos agentes quem dificulta o trânsito, porque dois ou três veículos se amolgaram por pequenos acidentes?! São os mesmos agentes incapazes de resolver, por forma expedita, situações que resultam em filas intermináveis de automóveis e atrasos irrecuperáveis!


Que gente somos nós? Que gente nos governa? Que gente assegura a ordem e o regular funcionamento do trânsito?


Estas perguntas têm o seu fundamento, visto há dias, o Duran Clemente ter sido intimado a deslocar-se a uma esquadra de polícia para responder a um processo mandado abrir pela Procuradoria Geral da República (PGR). Motivo: a mini manifestação de 5 de Outubro do ano transacto. A pequena manifestação em que, por momentos, o trânsito foi interrompido na Rua António Maria Cardoso, junto à antiga sede da PIDE/DGS.


É extraordinário!


Assim se gasta o dinheiro, o tempo e a paciência de uma série de pessoas, porque não se quer olhar para uma questão tão simples: o edifício tem de ser um museu destinado a recordar a tortura. Poderá, ao mesmo tempo, dar abrigo a outras funções que recordem o fascismo português. É simples a questão, mas alguém está a fazer contas aos milhões que vale o espaço naquele local.


Seremos sempre miseráveis, porque pomos à frente de valores morais e colectivos os valores materiais e individuais.


Coragem Duran Clemente, não é a última vez que te incomodam por causa da liberdade e democracia que ajudaste a construir, nem vai ser a mais dolorosa. Todos nós, os militares de Abril, estamos contigo!

7 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D