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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

09.04.20

102 anos passados


Luís Alves de Fraga

Relatório sumário do Gen. Gomes da Costa.JPG

 

No dia de hoje, pela hora a que escrevo, já eram poucos os soldados a oferecer resistência à avalanche alemã, em La Lys, nas trincheiras do sector do Corpo Expedicionário Português (CEP), no ano de 1918.

 

Foi o derradeiro grande esforço nacional na Grande Guerra. Não foi uma estrondosa derrota por vários motivos.

 

A batalha de La Lys, iniciada à 4h15 de 9 de Abril de 1918, só acabou no dia 24 desse mesmo mês, quando as forças britânicas conseguiram travar o avanço alemão; se tivéssemos de lhe chamar derrota tê-lo-ia sido tão portuguesa quanto britânica até ao dia 23, pois só no dia seguinte os alemães desistiram.

Depois, não foi uma derrota, porque não se saldou na vitória germânica.

Foi um confronto que os soldados portugueses não conseguiram superar; mas não o superaram eles, nem ninguém, que estivesse naquele lugar, àquela hora, naquele dia e ano, o conseguiria superar.

É tempo de deixarmos de nos lamuriar, de denegrir o esforço dos nossos militares.

Distribuição do rancho no Pátio sas Osgas.jpg

Por outro lado, também não foi um desastre tremendo em baixas por morte! Para o que poderia ter sido, foi insignificante ‒ aqui fala a frieza do militar e do historiador ‒, pois nesse dia só morreram 423 combatentes!

E foi assim, porque os alemães fizeram um excelente movimento táctico: penetrando nos flancos da 2.ª divisão do CEP, envolveram-na e, ao criar uma bolsa, atacaram por trás, impedindo a resistência, pois toda a estrutura defensiva estava virada para a frente. Foi a falta de capacidade de combate dos britânicos, em especial no flanco esquerda da divisão portuguesa, que permitiu a manobra germânica.

Claro que os nossos soldados “foram apanhados à mão” como quem apanha coelhos! Mais de seis mil homens ficaram prisioneiros! Contudo, também este número não nos deve espantar, porque noutros momentos de grandes batalhas, durante este conflito, foram feitos prisioneiros, por vezes, dez ou vinte mil soldados franceses ou britânicos, tal como os aliados aprisionaram milhares de alemães.

Prisioneiros_ingleses_portugueses_09_04_1918.jpg

 

Na passagem do centenário da Grande Guerra bastantes historiadores portugueses, com responsabilidades, porque profissionais da História, e outros com vocações recentes, choramingaram o esforço dos nossos soldados e fizeram da intervenção no conflito um erro político, porque se limitaram a interpretar os queixumes das memórias inéditas, algumas, e não foram capazes de perceber as mais profundas razões determinantes da opção beligerante.

 

Se compararmos o efectivo de homens e mulheres ‒ as enfermeiras militares e da Cruz Vermelha ‒ mandados para França e a totalidade de mortos (em combate, por desastre e por doença) verificamos que a percentagem foi exígua quando comparada com as, nos dias de hoje, em acidentes de viação, por gripe e por covid 19. Assim, de 55165 mobilizados faleceram 1992 militares ou seja 3,6%, durante dezanove meses.

Tendo sido poucos os mortos ‒ se comparados com os números dos outros Estados beligerantes ‒ nem mesmo assim podem ser esquecidos. Lutaram por uma causa da qual, a maioria, não compreendia a razão. O seu esforço e sacrifício não foi em vão; permitiu que Portugal saísse de cabeça erguida na conferência da paz, ao invés da posição subserviente, que os não beligerantes aceitavam para conservar uma neutralidade vergonhosa e que em nada defendia o interesse nacional.