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Fio de Prumo


Segunda-feira, 02.04.18

Economia

 

Não quero pensar que sou só eu a dar conta do que vos vou dizer. Julgo, basta alguém dizer e todos vão confirmar. Então, aí vai.

O custo da vida está a crescer sem quase darmos por isso, mas aumenta de dia para dia. A economia nacional pode estar muito boa e de saúde recomendável, mas a do cidadão comum, que vive de rendimentos fixos, está a ficar doente.

A explicação é fácil.

 

A carga fiscal indirecta está a aumentar. Os produtos essenciais para a vida comum estão mais caros, porque custam mais caro no produtor, mas, também, porque sobre eles há taxas fiscais para compensar a descida dos impostos directos.

Tudo isto é uma forma disfarçada de manter alguma austeridade, para conseguir reduzir o déficit e manter o orçamento equilibrado dentro das exigências de Bruxelas.

Em economia não há milagres!

 

O único milagre que poderia haver em Portugal de modo a darmos um salto em frente seria aumentar o investimento de uma maneira estrondosa, mas, ao mesmo tempo, fazendo crescer a capacidade de consumo do cidadão comum. E, também, ao mesmo tempo, crescer a capacidade de endividamento sustentável das famílias.

Isto era o milagre!

 

Quando entrámos para a CEE houve qualquer coisa de semelhante ao “milagre”, que se chamou “fundos perdidos”. O dinheiro escorria para o mercado interno de uma forma incrível, o consumo subiu disparatadamente, este passou a ser o melhor dos mundos, mas faltou quem dissesse bem alto:

⸺ Isto vai acabar! Não consumam, invistam em actividades produtivas.

A agricultura definhou porque a CEE pagou para definhar, as pescas decaíram, porque a CEE pagou para se deixar de pescar com uma frota que não nos envergonhava, certas indústrias foram pagas para deixar de fabricar, permitiu-se o compadrio para ganhar dinheiro fácil em actividades de duvidoso interesse imediato ou mesmo mediato.

 

Ainda por aí existem vivendas que foram mandadas fazer com dinheiro resultante de “formações” e “formadores” que não formavam nada! Embolsavam os subsídios e gastavam-no em seu proveito. Resta-me saber se os filhos desses “empresários” têm profissões com rendimentos capazes de pagar o IMI dessas vivendas e mantê-las bem conservadas!

Quem conhece a Avenida Gago Coutinho, em Lisboa, sabe do que falo, pois, essas vivendas luxuosas, feitas durante e no final da 2.ª Guerra Mundial, também resultaram das fortunas dos “novos-ricos” cujos descendentes não tiveram capacidade para manter o património!

 

Nós temos uma especial apetência para investir no que não rende nem se reproduz. Em vez de consolidar as fortunas, nós gastamo-las em algo que marque “estatuto” de momento sem pensarmos no futuro.

 

Precisamos de mudar. Essa mudança, também não se faz por milagre!

Há que educar as pessoas e mostrar-lhes o que é mais conveniente para elas.

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por Luís Alves de Fraga às 17:39

Sexta-feira, 30.03.18

Férias de Páscoa

 

Enquanto frequentei o Instituto dos Pupilos do Exército, as férias de Páscoa tiveram vivências diferentes: foram tempo de leitura e cinema ainda antes dos dezasseis anos, foram um tempo de religiosidade e leitura entre os dezasseis e os dezoito, foram um tempo de namoro, passeios e cinemas até aos vinte anos. Depois veio a Academia Militar.

 

As férias de Páscoa, nesse tempo de preparação para a vida profissional, eram o momento de descontracção: cinema, leituras e namoro. Depois, bem, depois deixei de ter férias de Páscoa durante muitos anos.

 

A leitura e o cinema foram, além dos namoros, as minhas grandes ocupações nas férias de Páscoa e não só... Em todas as férias desses anos recuados. Mais tarde a televisão entrou-nos casa dentro e alterou hábitos. Passámos a ser "televisivos" e a leitura começou a deixar de ser fundamental.

Agora, de há uma dezena de anos a esta parte, somos internautas. "Navegamos" na Internet e só alguns lêem livros de papel e, alguns, no ecrã do computador ou do tablet.

 

Agora, nestas férias das férias, uso o computador para escrever os meus trabalhos e para vos escrever.

Vou voltar à minha escrita, mas, antes, quero desejar-vos uma boa Páscoa, na lembrança de que este é, por definição epocal, um tempo de renascimento. Desejar-vos boa Páscoa é desejar-vos um bom voltar à vida.

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por Luís Alves de Fraga às 11:42

Quinta-feira, 22.03.18

Academias militares

 

Muita gente, em Portugal — e só me refiro aqui aos Portugueses —, pode perguntar-se para que servem as Academias militares — a saber: Escola Naval, Academia Militar e Academia da Força Aérea — e o que lá se aprende.

Não pretendo esgotar o assunto, mas, no meu sintetismo, procurarei dizer o essencial.

 

Nas Academias militares aprende-se a fazer a guerra da forma mais eficiente e, também, mais eficaz. Adivinho a pergunta:

— Mas para que se quer, em Portugal, aprender a fazer a guerra?

A resposta é só uma, que parece contraditória:

— Para evitar a guerra.

E, para que se saiba, só se evita a guerra quando se tem um sistema de dissuasão da guerra suficientemente credível. Em Portugal, ninguém acredita no nosso sistema de dissuasão, porque ninguém acredita na possibilidade de haver guerra e, se a houver, ninguém acredita que as nossas Forças Armadas possam fazer o quer que seja para a evitar. Assim, não há investimento no nosso sistema militar de dissuasão. Somos um Estado sem defesa ou com a defesa reduzida aos mínimos que a decência política impõe.

 

Mas temos oficiais militares. Para quê? Para manter de pé o “simulacro” de Forças Amadas e, acima de tudo, para poder, se e quando necessário, preparar a defesa possível quando ela for necessária e possível.

— Como é que se prepara um oficial das Forças Armadas?

Além de lhe ministrar todos os conhecimentos técnicos imprescindíveis às várias formas de fazer a guerra, ensina-se-lhe um valor mais alto e mais subtil: o amor da Pátria.

 

O amor pela Pátria é algo que, no presente, muitos apregoam, mas poucos sabem exactamente o que é e que não se confunde com vitórias internacionais de futebol ou de qualquer tipo de desporto. Amor da Pátria é o desejo de manter eterno o que faz de nós gente que se chama Portuguesa, que se identifica com a nossa História, com a nossa Língua, com a nossa maneira de estar no mundo e com o nosso desejo de continuarmos a ser um agregado com identidade bem definida enquanto Povo e Território. Ensina-se que, para preservação destes valores, se for necessário, qualquer um, que é militar, pode ser chamado a dar a própria vida.

 

As Academias militares são o último repositório da portugalidade num tempo de globalização e de europeização.

 

Eis a razão pela qual o meu coração acelera a batida quando me cruzo com cadetes de qualquer uma das Escolas de formação de oficiais das Forças Armadas Portuguesas: ali vai uma reserva de Portugal. Um Portugal inteiro, íntegro, mas capaz de continuar igual à sua mais pura essência histórica.

 

Coisas de velho oficial, pensarão quase todos os que conseguiram ler-me até aqui!

Coisas de quem aprendeu a servir Portugal e não a servir-se, rebaterei eu!

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por Luís Alves de Fraga às 12:06

Domingo, 11.03.18

11 de Março de 1975: um golpe que fazia falta

 

Foi há quarenta e três anos que ocorreu o "nosso" 11 de Março, aquele em que, uma facção minoritária das Forças Armadas, tentou um golpe de direita sobre a recente democracia nacional, comandado pelo general Spínola, o qual havia resignado do cargo de Presidente da República para onde tinha "saltado" na sequência do golpe militar de 25 de Abril de 1974. Spínola era, sem a menor dúvida, um militar de direita.

 

Ora, fazia falta o golpe de direita, porquê, estarão a pensar alguns dos meus leitores. E eu vou explicar.

 

Em 25 de Abril de 1974 havia-se derrubado a ditadura fascista, mas não se tinha feito mais nada do que isso!

- Mas o que deveria fazer-se mais?

Desmantelar o "edifício" que dava suporte à direita fascista. A finança estava toda na mão de gente altamente comprometida com a ditadura, a grande indústria — que a havia nessa altura — estava controlada pelos grandes grupos capitalistas, ou seja, por muito que se quisesse democratizar, a estrutura fascista poderia sempre boicotar a democratização. E era o que estava a fazer havia meses. Essa "travagem" foi dando origem a que os elementos mais aguerridos da extrema esquerda, minoritários, mas com grande capacidade de atracção das massas despolitizadas, se manifestassem, cada vez mais, agressivamente e, sempre, desorganizadamente, gerando um clima de instabilidade social, propício à entrada violenta da "ordem" de direita. O golpe de 11 de Março foi exactamente a ponta desse iceberg que, a sair vitorioso, faria regressar a Portugal a ditadura, agora, com fortes repressões a todos os níveis sociais e políticos. Ninguém, minimamente comprometido com os ideais democráticos de 25 de Abril, poderia aceitar uma tal reviravolta. A única forma de "quebrar a espinha" à direita reaccionária era "atacá-la" no seu ponto mais forte: a banca.

 

Assim, na sequência do falhado golpe de 11 de Março, em boa hora, se tomou a decisão de nacionalizá-la. Mas, o quase imprevisível, aconteceu: atrás da banca nacionalizada, porque devedora a esta ou integrada nesta, veio quase toda a indústria nacional, chegando, por vezes, a nacionalizações ridículas, porque não tinham peso específico na economia. Essa "desconformidade" impunha que se desnacionalizasse alguma coisa. Foi a "fenda" por onde passou a primeira alavanca que possibilitava a desnacionalização de tudo o mais... era, como foi, uma questão de tempo.

 

Logo após a nacionalização não bastava deixar tudo como dantes; era preciso que os proventos da banca estivessem clara e inequivocamente ao serviço do bem-estar da população em geral. Por outras palavras, impunha-se que se avançasse para a prática de uma social-democracia sem divergências. E foi nesse movimento, que o recuo do Partido Socialista, ao desvincular-se da esquerda partidária para se colocar ao centro, junto do, então, PPD (onde se acoitavam todos os receosos da progressão comunista influenciados, ainda, pelas teses antimarxistas do fascismo) que nasceu o germe do 25 de Novembro de 1975. Foi nessa altura que Mário Soares, para confirmar a teses de Kissinger, virou costas ao PCP, "guardou na gaveta" o socialismo marxista e se aliou ao capitalismo internacional e, mais do que tudo, europeu e alemão. Todavia, nada disto invalida a necessidade do 11 de Março de 1975. Pelo contrário, clarifica a sua necessidade e importância.

 

A História faz-se para contar e para explicar melhor do que foram capazes de o fazer os próprios protagonistas da mesma.

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por Luís Alves de Fraga às 21:10

Terça-feira, 06.03.18

Volto à carga...

 

Desde 1982 que dou aulas, que lecciono em estabelecimentos de ensino superior; antes, já tinha experiência lectiva no, então chamado, ensino liceal - acho que a primeira vez que enfrentei alunos numa de aula foi por volta de 1963/64, numa "sala de estudo", recebendo à hora a "gloriosa" quantia de vinte e cinco escudos! Por conseguinte, admito que ninguém tem dúvidas que eu sei do que falo, quando falo de dar aulas.

 

Se era de pequena responsabilidade a minha actividade docente quando leccionava na área liceal, a coisa mudou de figura quando passei a dar aulas no ensino superior. Sentia que a minha preparação tinha de ser cuidada e responsável. Mesmo com experiência anterior, por volta de 1982 e nos seis ou sete anos seguintes, o começo do ano era sempre algo que me atormentava, pois tinha a sensação de não estar preparado para o desafio que se iniciava.

 

Ora, vem tudo isto à colação por causa do Passos Coelho. Não tanto por causa dele, entenda-se, pois quanto ao que ele é capaz de fazer nada me espanta, tratando-se de um mentiroso político! Que ele é capaz de aldrabar um punhado de alunos numa sala de aula, não tenho a menor dúvida. Porque é isso que ele vai fazer: ALDRABAR! Todavia, espanta-me a irresponsabilidade das autoridades académicas que o catapultam para a cadeira da docência, destinando-o a "ensinar" futuros mestres e futuros doutores, com a categoria de professor catedrático convidado. Ainda se fosse professor auxiliar convidado e se se limitasse a ensinar futuros licenciados, embora com todos os riscos inerentes à leccionação, EU poderia aceitar!

 

Depois, coloca-se a questão do que ele vai ensinar.

Segundo os jornais, ser-lhe-á reconhecida competência académica para ensinar Economia e Administração Pública!

Vamos desmontar o que é ensinar.

 

Ensinar não é contar a experiência pessoal. Ensinar é abrir horizontes sobre uma determinada matéria... aquela que se ensina. É obrigar a "pensar assim" e o "contrário de assim". É estabelecer dúvidas e não impor dogmas. Dogmas impõem-se, no âmbito académico, com conferências, quando o conferencista expõe as suas conclusões... que até podem não ser dogmáticas; nunca numa sala de aula, porque se corre o risco de estar a fazer propaganda política.

 

O ISCSP teve bons professores - ainda por lá andam alguns com gabarito significativo - e, de entre todos, ressalta o Doutor Adriano Moreira.

Vejamos o que acontecia quando ele ensinava.

 

Lição dada por esse grande Mestre de Ciência Política correspondia a sala cheia de alunos para o ouvir. Porquê? Porque ele não "vendia banha da cobra"! Ele ensinava a pensar de forma que todos nós construíssemos o nosso próprio modelo de observação a partir dos diferentes paradigmas políticos por ele expostos sem subtilezas nem armadilhas. Adriano Moreira adoptava uma posição "quase" neutra - a neutralidade é impossível, contudo pode e deve tentar-se quando se ensina - e nós, os alunos tirávamos conclusões, pensávamos e discutíamos a partir dos seus ensinamentos.

 

Não vejo - nem eu, nem ninguém vê - Pedro Passos Coelho a ser capaz deste ensaio de "neutralidade" em Economia e em Administração Pública. Por isso, quem eu condeno, mais do que o antigo governante, são as autoridades académicas, para já, do ISCSP. Esperava mais delas!

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por Luís Alves de Fraga às 18:55

Terça-feira, 27.02.18

Vamos lá a ver...

 

Morreu o coronel Varela Gomes. Conheci-o pessoalmente, mas nunca trabalhei com ele nem tivemos relações de proximidade. Todavia, do que me foi possível observar, tirei algumas conclusões sobre o Homem.

 

O capitão Varela Gomes do assalto ao quartel de Beja, em 1961, não era, ideologicamente, o mesmo que o coronel reformado Varela Gomes, depois do 25 de Novembro de 1975.

 

Na primeira data ele era, como tantos outros militares e civis, um declarado opositor ao regime fascista de Oliveira Salazar e de todo o aparelho repressivo por ele mandado ou deixado montar para silenciar os Portugueses, mantendo-os na mais obscura ignorância política que se possa imaginar. Ousou juntar-se ao grupo que conspirava contra a situação e chefiar a parte operacional do assalto ao quartel de infantaria de Beja. Mas, é preciso dizer, o golpe projectado ia muito mais longe do que o mero assalto a Beja. Nele se incluía a acção dinamizadora do general Humberto Delgado, que, na altura e sempre, foi contrário a entendimentos com o Partido Comunista.

 

O coronel Varela Gomes depois do 25 de Abril de 1974 era um homem angustiado pela prisão e perseguição constante da polícia política. Era já, então, um militar politizado e consciente do que seria mais conveniente para a evolução política dos Portugueses. Era um militar que percebia que a Democracia não cai dos céus aos trambolhões, nem se aprende com uma prática anárquica. Era um militar que conhecia o estado de ignorância dos Portugueses em geral e de como podiam ser manipulados. Era um democrata com posições de esquerda, mas ciente da necessidade da pluralidade democrática e partidária.

 

O coronel reformado Varela Gomes, depois do 25 de Novembro de 1975 era um homem desiludido pelo rumo que o golpe militar daquela data havia tomado, travando a possibilidade de se democratizar os sectores mais ignorantes da população, os quais se haviam iludido com as ideias bonitas do esquerdismo extremista, que, diga-se em abono da verdade, estragou a evolução natural para a implantação de uma democracia plural, mas justa e equilibrada. E nessa travagem o Partido Socialista tem uma grande responsabilidade, pois nele estavam os mais conscientes e esclarecidos oposicionistas do fascismo. O Partido Socialista aproveitou-se eleitoralmente do medo que o regime totalitário de Salazar havia criado nos Portugueses em relação aos comunistas. Pessoalmente, sempre defendi e agora com garantias seguras, que os comunistas não tinham "autorização" de Moscovo para aqui tentarem a implantação de uma regime socialista-comunista. Moscovo sabia o que representava, do ponto de vista estratégico global, uma tal viragem e como ela poderia provocar uma mudança na "Guerra Fria" aceite pelas duas super-potências. Se Varela Gomes olhava com simpatia para o Partido Comunista, nessa época, isso é uma outra coisa! Mas foi a "viragem" feita no 25 de Novembro de 1975 quem o virou, claramente, para a aceitação de uma identificação com o Partido Comunista, mas com a postura de um homem livre e livre de pensar pela sua cabeça.

 

Morreu um Militar e um Homem que nos merece todo o respeito e consideração. Um Homem que amava Portugal.

Inclino-me respeitosamente perante a sua memória.

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por Luís Alves de Fraga às 18:26

Quarta-feira, 21.02.18

As minhas injustiças

 

Nasci em Lisboa, em casa, no andar de um prédio construído, talvez, no final do século XIX ou começo do século XX. Era uma casa que não obedecia a nenhum dos actuais critérios de construção, mas tinha tudo o que fazia falta para uma família, composta por quatro pessoas, nela viver: casa-de-banho, cozinha, sala de jantar e quatro outras divisões, que serviam de quartos e sala de visitas.

Foi lá que nasci e cresci e da janela habituei-me a ver Lisboa, pois a vista era soberba.

 

Nunca me dei conta de ser grande ou pequena essa casa onde vivi até à idade dos vinte e quatro anos. Era a casa dos meus Pais, a minha casa. Tudo isso bastou-me. Mas, a verdade, é que há coisa de vinte ou trinta anos atrás, dei por mim a pensar nas reais dimensões dessa casa da qual tenho saudades. Pensei e conclui: era, realmente pequena. As divisões, ainda que espaçosas para a altura, tinham áreas diminutas se comparadas com as casas que vim a conhecer ao longo da minha vida. Todavia, para mim, na minha memória, a casa era grande, bastante grande e confortável. O meu sentido de justiça esteve, durante muitos anos, embotado pela minha consciência infantil, aquela que eu tinha quando tudo era imenso, porque medido à escala do meu próprio tamanho de criança.

 

Mas a injustiça continuou.

Conclui o curso da Academia Militar e fui promovido a alferes, a tenente, a capitão, a major e, porque, para mim, o meu Pai tinha uma dimensão enorme, igual à da casa onde nasci, nunca estabeleci a relação entre o facto de ele ser somente 1.º sargento reformado e eu auferir um vencimento bastante superior ao seu. Ele, para mim, na minha imaginação e mente, sempre foi mais capaz financeiramente do que eu! Nunca tive por hábito pedir-lhe dinheiro, emprestado ou não, mas se fosse necessário teria pedido, porque, para mim, ele ganhava "mais" do que eu! Ele era, financeiramente, "mais poderoso" do que eu!

 

Como fui injusto! Injusto, porque tive, durante demasiado tempo, uma visão infantil da casa onde nasci e do meu Pai. Injusto, porque tudo o que me foi familiar na infância, era grande, demasiado grande, quando me comparava com esse "tudo"!

 

Agora, que os anos passaram, pergunto-me se esta distorção só me afectou a mim ou é comum a mais gente?

Às vezes, somos injustos sem nos darmos conta!

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por Luís Alves de Fraga às 12:10

Terça-feira, 30.01.18

A Menina Olinda

 

Há muitos anos, talvez mais de cinquenta, aluguei um apartamento num prédio, então, ainda quase novo, na zona do Largo da Graça, em Lisboa. Casa não muito grande, mas dentro do comum de uma certa "classe média" com posses financeiras contadas... Eu estava a iniciar a minha carreira profissional e o soldo de oficial era baixo.

O prédio tinha cinco pisos e, por isso, possuía dois elevadores e porteira. Era uma mulher, então, um pouco mais velha do que eu a quem nos habituámos a tratar, como ainda era costume, da forma carinhosa dos velhos bairros de Lisboa: "Menina" Olinda.

Por lá vivi vinte anos e a "Menina" Olinda continuou, já mulher dos seus quarenta e tal, a ser "Menina". Há mais de trinta anos que a não vejo, mas, se a encontrasse, jamais seria Olinda, D. Olinda ou Senhora Olinda... Menina continuaria a ficar-lhe bem.

 

E vem isto a propósito do despropósito dos tratamentos de hoje.

Quando as "meninas", que eram senhoras, eram carinhosamente meninas, os cavalheiros eram tratados por senhor Fulano de Tal, ou seja, pelo sobrenome e jamais pelo nome de baptismo. As senhoras casadas e com quem não se tinha qualquer confiança eram as Senhoras Donas ou, em alternativa, somente Senhoras Qualquer Coisa.

 

Não sei como apareceu esta moda de eu ser o senhor Luís para qualquer "gato sapato" que me liga não sei de onde, em vez de ser o senhor Fraga, nem a de se tratar a damas por senhora Maria ou senhora Antónia.

Havia cortesia onde hoje há aspereza no tratamento. Aspereza que chega a rondar a falta de educação ou, como se dizia, de polimento.

 

Se foi a democracia que trouxe "isto" é bom que se veja como é o tratamento pessoal nas velhas democracias europeias, porque a dos EUA não pode servir de exemplo a ninguém. Para mau exemplo chega o bronco Donald Trump.

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por Luís Alves de Fraga às 11:55

Segunda-feira, 29.01.18

Idade

Os anos passaram por mim num instante, penso eu, às vezes, porque, noutras, tudo foi há muito tempo. Porque os anos passaram eu sou um homem de idade, mas estou longe de me classificar como um idoso ou velho.

 

Vem isto a propósito do que sinto ao olhar para trás no tempo e ao verificar todas as modificações que se operaram na sociedade portuguesa e - porque não? - europeia e mundial.

O que mais me choca é a ausência de princípios éticos ou, a alteração na ética, se preferirem.

 

Não sei bem em nome de que valores coisas quase inocentes, de há umas dezenas de anos atrás, são agora olhadas com verdadeiro atentado aos direitos individuais. E, é claro, estou a pensar no assédio sexual.

 

Esta gente de hoje nunca foi a um baile nos recuados anos de 50 do século passado! Os pares dançavam enlaçados, tocando-se os corpos e as faces, misturando-se odores, murmurando-se palavras ditadas pela excitação e o atrevimento dos dançantes. Isso era assédio? Meu Deus! Isso era a forma galante de expressar desejo, começando pela atracção física para acabar na admiração de tudo o mais que poderia, até, conduzir a um casamento futuro.

Era uma moral castradora? Claro que era! Mas não era uma moral de castrados! Os jovens e os menos jovens conseguiam fazer surgir encantos e encantamentos, que começavam por prender pelo físico e, depois, pela alma.

A mulher aceitava que "tinha de ser conquistada" tendo, contudo, a certeza de que a última palavra, a decisão final, era sempre dela. Ao homem restava a ilusão de que escolhera,quando, ao cabo e ao resto, era escolhido. Mas o "jogo" jogava-se" dentro destes padrões artificiosos.

 

Agora, colocar, com cautela, a mão no joelho de uma mulher é motivo para surgir a acusação de assédio!

Havia uma "poesia" na "conquista" que está a dar lugar a uma frieza total em que desapareceram, sem nunca se terem feito, os fios do enlevo do secular "pé de alferes", como se dizia nos primórdios do século XX.

 

Definitivamente, não estou velho, mas tenho o direito de não gostar dos novos costumes em esboço.

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por Luís Alves de Fraga às 15:07

Quarta-feira, 03.01.18

O mal de Marcelo

 

Fui um dos que não votou no Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa aquando da eleição para a Presidência da República, mas fui daqueles que, passados os primeiros meses, acabei por admirá-lo pela sua capacidade de presença - sublinho, PRESENÇA - junto das gentes anónimas, nos momentos convenientes e necessários. Tempos mais tarde, comecei a achar exagerada essa "hiperactividade", já não tanto por ser simplesmente exagerada, mas por ser "palradora".

Bolas, o Presidente está e, mais do que estar, não está calado!

 

Reparem que Marcelo ao deslocar-se a tanto lado habituou-se, e quase exige, à presença dos órgãos de comunicação social e, estando estes presentes, eles querem ouvir o Presidente sobre a razão da deslocação e sobre tudo o que é mais importante, nesse momento, em Portugal. E Marcelo, que podia escusar-se a responder, responde. Responde constantemente e emite opiniões. Opiniões que são, de imediato, interpretadas, dando oportunidade a transformarem-se em "recados" ou, no mínimo, em "pressão" sobre quem tem de decidir.

 

Deste modo, para a gente anónima, Marcelo Rebelo de Sousa, é o "Presidente dos afectos", todavia, para quem pensar um pouco, ele é o "Presidente das pressões". Pressões que interferem na governação e podem vir a gerar um grave problema de convivência entre S. Bento, Belém e a Assembleia da República.

A hiperactividade de Marcelo Rebelo de Sousa pode transformar-se numa "hiperexplosão" política e social.

Cuidado com o futuro.

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por Luís Alves de Fraga às 20:14


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