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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Venezuela, pontos de vista

 

Ontem ao serão, lá tivemos, no primeiro canal da RTP, o programa “Prós e Contras”. Debateu-se, com muito calor e emotividade, a questão da política interna venezuelana.

 

Não acompanhei, logo desde o começo, o debate, mas vi o suficiente para perceber que existiam, no painel e na sala, dois grupos distintos de pessoas e duas maneiras diferentes de compreender e explicar o que se passou e se passa na Venezuela: um, claramente minoritário, que procurou olhar com realismo e legalismo para a situação e outro, necessariamente maioritário, que puxou toda a discussão para o plano emocional e, sem o mencionar explicitamente, para o plano da legitimidade.

 

Ambos estão certos e ambos têm razão, mas, parece, ambos querem estar de costas uns para os outros.

⸺ No plano da política interna o que é que se passa, afinal?

  1. O “chavismo” não é consensual dentro dele mesmo, porque existem tendências mais para a direita e mais para a esquerda;
  2. A oposição – aparentemente unida para combater o “chavismo” – discorda da existência de uma assembleia constituinte, uma vez que existe uma assembleia nacional;
  3. A assembleia constituinte foi eleita por votação nacional, tal como a assembleia nacional, mas, na primeira, os “chavistas” têm a maioria e, na segunda, a maioria cabe à oposição;
  4. Cito: «De acordo com o artigo 347 da Constituição venezuelana, o povo venezuelano é a fonte de poder, que pode ser exercida através da Assembleia Nacional Constituinte, que pode ser chamada para mudar o sistema de governo e criar a nova Constituição» (https://br.sputniknews.com/americas/201707308992078-pros-contras-assembleia-constituinte-venezuela/);
  5. Cito: «Na sua (auto)proclamação como Presidente da República a 23/01/2019, Juan Guaidó invocou o artigo 233º da Constituição venezuelana. Esse artigo regula o que a lei fundamental do país designa como ausências absolutas do Presidente da República (morte, renúncia, demissão decretada pelo Supremo Tribunal de Justiça, incapacidade física ou mental permanente, abandono do cargo declarado como tal pela Assembleia Nacional, bem como revogação popular do seu mandato). A consequência constitucional estabelecida é “uma nova eleição universal, directa e secreta será realizada dentro dos trinta dias subsequentes”; e que durante o período onde ocorre a eleição e tomada de posse do novo presidente, “o Presidente da Assembleia Nacional tomará o cargo da Presidência da República”»;
  6. Cito: «Juan Guaidó invocou ainda o artigo 350º da Constituição, o qual confere uma espécie de direito de desobediência civil, ou de resistência, face à opressão: “O povo da Venezuela, fiel à sua tradição republicana, à sua luta pela independência, paz e liberdade, ignorará qualquer regime, legislação ou autoridade que contrarie os valores, princípios e garantias democráticas ou enfraqueça os direitos humanos”» (https://www.publico.pt/2019/01/25/mundo/noticia/batalha-venezuela-constitucionalidade-legitimidade-reconhecimento-internacional-1859249).

 

Como se percebe, falamos de duas “legitimidades” em luta, porque ambas resultaram de eleições, cujos resultados são contestados por ambas as partes.

Cabe aos Venezuelanos decidirem este diferendo, sem intervenções externas, porque, a existirem, só demonstram que, de ambos os lados, há interesses diferentes e estranhos ao povo daquele país sul-americano. E esse é o fundamento para Maduro se defender da “intervenção” estrangeira – passamos, agora, a um outro plano: o das sanções económicas contra a Venezuela – que, objectivamente, interfere na vida daquele Estado soberano.

Ontem, para dar legitimidade à intervenção estrangeira, Francisco Assis, numa manobra de baixa propaganda – pois é em tudo semelhante ao que a PIDE/DGS fazia para descredibilizar a oposição ao fascismo – afirmou, sem qualquer indício de prova, que Cuba infiltrou na Venezuela o seu serviço de informações! Assim, justificava-se, com uma penada, a intervenção americana, europeia e todas as que se quisessem.

 

Quando é que a comunidade internacional deixa de interferir na resolução dos problemas internos dos Estados? O Direito Internacional prevê as soberanias nacionais que, pelos vistos, podem ser boicotadas sempre que um ou vários Estados mais fortes quiserem.

 

Quando é que percebemos que também nós somos vítimas dessa intervenção, ainda que encapotada de legalidade e legitimidade?

⸺ Não somos?!

Então, averiguem de onde vieram as “ordens” para se vender ao desbarato as nossas empresas estratégicas! E a imposição de paragem da nossa indústria têxtil!

Ora bolas!

 

Que raio de memória curta têm os políticos! Comem, como se dizia noutros tempos, muito queijo…

Então, agora, por causa de uma lei que proíbe a propaganda eleitoral feita pelos membros do Governo no exercício das suas funções, a inauguração de uma creche, de um centro de saúde, de um fontanário, de uma ponte ou, se calhar, da colocação da placa com um nome de rua, está interdita no tempo anterior a eleições!

Isto dá muito jeito à oposição, ou àquela que, estando no governo autárquico, pouco trabalho tem para apresentar. Pois é, não se pode “enganar o Zé”, mas, no passado, isso foi flagrante, havendo, até, um político reformado que, se bem analisada a vida dele, seria o “rei” das inaugurações. Refiro-me, naturalmente, ao Alberto João Jardim.

 

Esta busca de “corrupção” eleitoral, se levada ao extremo, acaba bloqueando a actividade governamental. Já temos aí um exemplo: a redução do custo dos passes sociais nos transportes públicos nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto.

Arre gaita, se se não baixam os custos é porque há dinheiro para os bancos e não há para tornar a vida mais barata; se se baixam certos custos é porque se está a fazer propaganda eleitoralista! Não há cabeça que compreenda as críticas desta oposição!

Se calhar, se a oposição fosse Governo fazia como já fez no passado e os que são Governo, sendo oposição, diriam exactamente o mesmo.

É por causa desta quase imoralidade, desta incoerência, desta falta de verdade – que, afinal, não pretende beneficiar o Povo – que todos nós acabamos por descrer da política, dos políticos e do que eles fazem.

 

Mas isto é grave!

É grave, porque abre a porta aos populismos e, invariavelmente, às ditaduras, pois os eleitores, desprendendo-se do “contrato social” com os políticos e a política, na sua indiferença, acordam um dia com a “canga” posta ao pescoço e a “rédea” curta sem liberdade para criticarem, então, seja o que for.

Importante é perceber que está por trás de tudo isto um outro poder, aparentemente inocente e “útil”, todavia extremamente perverso e insidioso: a comunicação social e os seus objectivos obscuros. Assim, cada vez mais, ao contrário de buscarmos nela informação que nos ajudaria a formar uma opinião, teremos de estar atentos aos fins por ela prosseguidos e desconfiar do “gato que nos querem vender por lebre”.

 

É uma tristeza, mas, se há – e há mesmo – uma crise económica global, há, bem pior do que ela, uma crise de valores capaz de nos levar à pobreza intelectual e política.

França, uma guerrilha sem sentido?

 

Ontem, sábado, em Paris, na avenida mais emblemática da cidade, os “coletes amarelos” – provavelmente agitadores profissionais – lançaram o caos terrorista, face a uma polícia quase manietada por causa do julgamento politicamente correcto dos Franceses, dos Europeus e de todos os “amantes” das “liberdades bagunceiras”. A destruição, roubo e defenestração de lojas de marcas conhecidas em todo o mundo atingiu o rubro, o máximo.

 

Isto que se arrasta há muitas semanas a fio, já não é uma contestação: é uma forma de afronta descontrolada praticada por gente sem cultura para viver na França das Liberdades, da Igualdade e da Fraternidade, na França da Revolução Francesa, na França “madre” da Cultura contemporânea, na França do pensamento científico, na França berço de filósofos, poetas, ficcionistas, pintores, escultores, ourives, compositores, bailarinos.

Essa França está a atravessar uma crise económica, financeira e social. Mas está ela e toda a Europa, talvez todo o mundo dito ocidental. A solução passa pela resposta a uma só pergunta:

⸺ Democracia, globalização e defesa ambiental são compatíveis?

 

O mundo, depois de ter deixado o paradigma da bipolarização, traduzida na Guerra-Fria, entrou na multipolarização condutora à globalização e, de há tempos a esta parte, está a caminhar a grande velocidade para a “tripolarização”: Estados Unidos, Rússia e China.

Cada uma destas potências reivindica para si a “democracia”; uma democracia que está bastante longe da que se vivia no mundo ocidental antes e durante a Guerra-Fria. É, na minha opinião, este confronto que está a gerar a confusão sobre o que é a democracia.

 

Toda a gente, que tem tudo a perder, quer o regresso ao passado ou a entrada no mundo do consumo desmedido do presente vivido pelos afortunados para quem a vida alheia pouco conta.

A solução não passa por defender o desequilíbrio do presente, mas por procurar a estabilidade capaz de criar justiça relativa nas sociedades excluídas do bem-estar, das sociedades definidas nos anos 60 do século passado por sociedades da abundância.

Mais uma vez, é a França quem está a chamar a atenção do mundo para a necessidade de mudar, de fazer uma revolução.

História apologética

 

Todos nós – excepção feita a alguns – sabemos a História que nos convidam a estudar na escola, nos diferentes graus de ensino.

Quando eu andava na instrução primária (hoje 1.º ciclo), no tempo do fascismo, chegava a casa muito entusiasmado com os feitos dos Portugueses – eram fenomenais e, “de certeza”, mais importantes do que todos os outros povos – e, ao almoço, quando relatava ao meu Pai essas “glórias” a sua única observação resumia-se à frase: «E tu não desconfias?»

 

Só bastante mais tarde percebi a pergunta do meu progenitor!

Quase toda a História ensinada nas escolas de todo o mundo é História apologética, ou seja, uma “História” feita à medida, para “valorizar” os diferentes Estados ou unidades políticas. Essa “História” faz-se através de ocultações, distorções, falsificações. É sempre uma “História” heróica e, jamais, indigna.

 

Os povos de todo o mundo têm necessidade de incorrer nestas artimanhas de natureza política para gerarem coesão nacional e, ou, grupal. Trata-se de um História mítica.

Quando se analisa este fenómeno numa perspectiva sociológica ou política ele é perfeitamente desculpável, embora não se possa, nem deva, tomá-lo como verdadeiro; ele será verdadeiro na dimensão em que o for, realmente. Todavia, quando este fenómeno é analisado segundo a perspectiva histórica, todas as barreiras apologéticas devem ser derrubadas para deixar a claro a verdade dos factos, com as suas vertentes heróicas e as suas vertentes menos dignas. Essa será a História que conta e explica.

 

Por causa da viagem de circum-navegação começada por Fernão de Magalhães, vêm agora os académicos espanhóis reivindicar louros e honrarias para si, através de distorções da História.

Claro que se trata de um nacionalismo duplamente explicável!

 

Com efeito, a Espanha, por ser uma manta de retalhos culturais, políticos e linguísticos, carece de elementos “históricos” que “puxem” pela sua “identidade nacional”; mas, este “puxão”, vem deixar mais evidente um mal bem mais lamentável do que o anterior: põe a nu um franquismo bacoco, anacrónico e indigesto.

 

Cabe-nos lutar por repor a verdade histórica despida de nacionalismos e dar ao desprezo aquilo que, de inverdade, os académicos espanhóis querem que seja aceite como certo e indiscutível.

Os bacocos e falsos são eles – sem desconfiarem que a sua exaltação é própria de quem tem muito pouco de que se vangloriar – por isso, teremos de mostrar a nossa superioridade intelectual, pois, em verdade, quem deu mundos ao mundo, fomos nós.

Vagueando…

 

Ontem voltei, mais uma vez – e é sempre bom voltar – ao Instituto dos Pupilos do Exército, para apresentar um livro do meu Companheiro e Amigo de há muitos anos (quando o tempo é muito, mesmo muito, não vale a pena dizer quanto é!) Jerónimo Pamplona, também ele antigo aluno.

 

Escreveu um livro interessante sobre o que foi, desde o início, o nosso Instituto: uma Escola para preparar homens úteis ao país, à sociedade, mas apoiando essa utilidade numa gama de valores que se não adquirem, comummente, em outros estabelecimentos de ensino.

Os Pupilos tiveram (têm) uma matriz muito bem definida: foram (são) obra da República – da 1.ª República – e foram (são) tutelados pelo Exército. Assim, por mais que se queiram arranjar explicações diferentes, os valores transmitidos aos alunos são os mais puros da vivência castrense: a camaradagem, a solidariedade, a disciplina, o espírito de emulação, a verdade, a verticalidade, a coragem, a frontalidade e o sentido de serviço social.

Ao fundar o Instituto, o legislador, não quis fazer uma escola igual às que já existiam; procurou que o ensino, não sendo especulativo, fosse prático, mas com conhecimentos científicos suficientes para “fazer bem feito”. Vivia-se o positivismo, que continuou, de uma forma inexplicável, dentro dos muros daquela Casa.

 

O Jerónimo Pamplona escreveu um livro socorrendo-se de depoimentos de alunos de todos os tempos, que deixaram escritas as suas impressões sobre as mais variadas facetas da educação nos Pupilos do Exército.

Vale a pena ler esta obra. Mas não é preciso ter sido aluno para ler o livro com vantagem; é importante que ele chegue a toda a gente para se perceber como uma farda, um hino, um lema e uma tradição moldam caracteres sem distorcer as suas características naturais, mas acrescentando-lhes valores – muito mais importantes do que conhecimentos – que impulsionam para a Vida com um lastro que as “tempestades”, em geral, não levam a “naufrágios”. A “malta” está preparada para enfrentar “mares e ventos”, produzindo sempre algo de útil para a sociedade!

 

Corre nos cinemas um filme português. Tem o nome de uma mulher – Snu – que, antes de se apaixonar pelo político Francisco Sá Carneiro, através da editora Dom Quixote, abanou a ditadura com os livros postos à venda. Muitos desses volumes representaram uma lufada de ar fresco na atmosfera bafienta do final do Estado Novo. Sem esforço de memória, recordo os “Cadernos Dom Quixote” – dos quais fui assinante – e os livros de Roger Garaudy, verdadeiras pedradas no charco da ditadura.

 

O filme “tenta” ser fiel à verdade histórica, mas, sub-repticiamente, passa uma imagem de um Sá-Carneiro “progressista”, um homem da social-democracia, um político a querer mudar Portugal para um socialismo “à moda da Europa do Norte”.

Mas eu vivi esse tempo, tendo idade já adulta e não esqueço. Foi uma altura, esses anos de 1974 a 1980, em que toda a gente falava de socialismo e todos queriam o socialismo. Até Freitas do Amaral, pelo menos uma vez, declarou que também queria o socialismo para o CDS, veja-se bem!

Quando estes embustes não são explicados às novas gerações elas acreditam numa “verdade”, afinal, falsa.

 

Mas, o filme também nos mostra, e de maneira bem real, o como éramos conservadores, o como nos deformou uma ditadura retrógrada, o como a Igreja tinha poder sobre as capacidades de decisão, o como vivíamos cheios de preconceitos e agarrados a tradições.

 

Tecnicamente a fita não fica atrás de qualquer média produção americana, francesa, espanhola ou italiana.

Cuidado, não saiam da sala de espectáculos com a impressão de que Sá Carneiro foi um “vidente político” ou um “salvador da Pátria” morto cedo demais!

A História das pequenas coisas

 

É vulgar ler-se ou, ainda, ouvirem contar-se histórias de episódios repressivos ocorridos no tempo da ditadura. São pequenos “azulejos” de um “mosaico” muito amplo sobre o que foi o silenciamento de um povo e de uma revolta. É bom que se saibam pormenores dessa luta, às vezes, tão generalizada, que quase a torna banal por lhe retirar a carga de perigosidade que teve.

Para vos desassossegar as consciências, deixo-vos, desde já, uma pergunta:

– Não houve (não há) repressão política nesta democracia em que vivemos?

 

Vou-vos contar um episódio pessoal demonstrativo de como se pode exercer “repressão democrática” para obrigar a “acertar o passo” a todos os que vão com ele “trocado” em relação ao “politicamente correcto”.

 

Há quarenta e um anos, estava expurgada a Força Aérea dos oficiais de “esquerda”, que mais destaque haviam tido no processo revolucionário vivido entre Abril de 1974 e Novembro de 1975. Tinham sido levados a Conselho Superior de Disciplina e passados à reserva ou reforma compulsiva. Na minha especialidade – Administração Aeronáutica – essa “limpeza” foi extensiva e quase completa.

 

Entre o meio do ano de 1978 e começo de 1979, nós, os que ficámos ao serviço sem sermos incomodados – por termos dado menos nas vistas e não nos termos exposto desnecessariamente – resolvemos levar a cabo, todos os meses, jantares de confraternização incluindo os oficiais de esquerda “saneados” por esse método com cobertura legal. Os repastos foram sendo um êxito, porque conseguíamos sentar à mesma mesa gente com ideias bem definidas com gente que, por medo, não manifestavam nada sobre política.

Tínhamos dois objectivos em mente: afrontar a hierarquia e provar que os “saneados” não “comiam” os que estavam na situação de activos. Demonstrávamos a injustiça do “julgamento”.

 

Em dado momento, lá para o fim do ano de 1978, chegou, do Estado-Maior da Força Aérea, a ordem para ser aberto um processo de averiguações aos oficiais organizadores dos jantares. Éramos cinco ou seis, alguns deles, sem qualquer tipo de conotação política.

Como seria de esperar, o auto foi inconclusivo, porque quem estava no “segredo dos objectivos” não os disse e ficámo-nos todos pela afirmação de que se tratava de repastos de convívio e camaradagem.

 

Na falta de matéria punitiva, a hierarquia optou por “castigar-nos” de uma forma singular: transferir-nos para unidades distantes de Lisboa, desorganizando o mais possível a vida familiar de cada um.

Os menos “culpados” foram colocados na Ota e em Tancos; aquele que julgaram ser o “chefão” máximo do movimento foi parar ao Açores – ilha Terceira – e eu fui colocado em Beja.

 

Há quarenta anos conheci a melhor Base Aérea de toda a minha carreira militar. Por lá estive quase um ano. Voltei para ser colocado no Montijo, como major graduado, num cargo que até então não era desempenhado por um oficial da minha especialidade. Nesse, sim, a hierarquia conseguiu engendrar motivo para me aplicar três dias de prisão disciplinar…

É uma história que, mais lá para diante, hei-de tornar pública.

 

Como se vê, a democracia é muito mais sofisticada, no que toca à repressão, do que as brutais ditaduras.

A importância das pequenas coisas

 

Os enfermeiros – pelo menos os afectos a um determinado sindicato – foram forçados – finalmente – a não fazer greve contra a possibilidade de verem as suas faltas transformadas em processos disciplinares, correndo, em última análise, o risco de serem desvinculados da função pública. E, se isto acontecesse, eles sabem bem qual é o nível salarial pago pelas empresas privadas de saúde… passariam fome!

Se o presidente de um sindicato é o líder dos profissionais nele associados – e julgo que, em todas as circunstâncias, é – então, podemos fazer a radiografia do sindicato de enfermeiros mais “combativo”.

 

Salvo outra ou outras opiniões em contrário, julgo que o enfermeiro Carlos Ramalho não percebe nada de política e de como funcionam as pressões dentro desse meio! É perfeitamente utópica, risível e inapropriada a greve de fome na luta pelas reivindicações de uma parte da sua classe. Imaginem o Arménio Carlos a fazer greve de fome!

 

Mas o que pretende o enfermeiro Carlos Ramalho? Dar nas vistas? Gerar um movimento de opinião pública ou morrer de fome?

É que se pretende morrer, era melhor, mais rápido e menos espalhafatoso dar um tiro na cabeça mesmo em frente do palácio presidencial! Ou enforcar-se num candeeiro da rua, por exemplo!

A greve de fome, normalmente, é feita por um só indivíduo na reivindicação da resolução de um problema que só a ele diz respeito. Ora, se aceitarmos isto como princípio – porque a greve de fome é uma forma de culpabilizar responsáveis políticos por uma morte anunciada – Carlos Ramalho não consegue culpabilizar ninguém no Governo, porque estas questões resolvem-se à mesa das negociações. A sua atitude só pode resultar, numa outra perspectiva, na demonstração da sua inaptidão para resolver os problemas do seu sindicato e, então, passar de inapto a herói desse mesmo sindicato!

 

A atitude deste “sindicalista de meia tigela” é uma “migalha” no “mar das reivindicações” dos sindicatos e, na minha opinião, vai dar em coisa nenhuma como dão sempre as coisas menores.

 

No limite, tenho pena do enfermeiro Carlos Ramalho e dos enfermeiros que o elegeram para presidente do seu sindicato!

Ele não passa de um pobre coitado e eles são uns chapados idiotas, pois acreditaram nas patranhas de um tipo que de reivindicações e de luta laboral pouco ou nada sabe.

Este país chega a ser ridículo!

E os erros?

 

Tenho evidenciado, por várias vezes, os perigos resultantes dos movimentos reivindicativos inorgânicos para a democracia portuguesa. Creio ter deixado claro que estas reivindicações, umas vezes dirigidas por sindicatos integrados nas estruturas sindicais existentes (CGTP e UGT) e outras por agrupamentos laborais não integrados, são o rastilho para fazer surgir a contestação popular capaz de gerar os tais populismos, tão badalados no mundo ocidental.

 

Mas, diz, ou dizia, o Povo “não há fumo sem fogo”, e isso faz-me reflectir sobre a pequena, quase ínfima ainda, “labareda” que se vislumbra por trás dos movimentos reivindicativos capazes de, em breve, se tornarem num feroz “incêndio” populista.

Se, por enquanto, estamos somente a ver o “fumo”, penso, será o momento oportuno de ou perceber a razão dele ou, até, de “apagar” a sua origem.

Vejamos.

 

Qual é o ADN do Partido Socialista? E do Partido Comunista? E, já agora, do Bloco de Esquerda?

O primeiro, sem dúvida, é um partido ancorado na média burguesia, com objectivos virados para satisfazê-la nos seus anseios e nas suas aspirações de bem-estar; não é um partido vinculado às chamadas classes “baixas” e, quando a elas dá atenção, fá-lo na perspectiva eleitoral de modo a conquistar votos.

Já o Partido Comunista tem por objectivo conquistar vantagens de bem-estar, saúde, habitação e escolaridade, no mínimo, para as classes mais desfavorecidas, nomeadamente os trabalhadores mais explorados. A convivência pacífica com as classes médias é meramente táctica, para não “espantar a caça”.

Quanto ao Bloco de Esquerda, ainda que com aspirações muito próximas dos objectivos dos comunistas, não tem o enraizamento deste junto dos trabalhadores, de modo que tem de fazer a sua aproximação eleitoral por vias indirectas junto da classe média, através da proposta de medidas capazes de satisfazer os trabalhadores. É um partido a tentar gerir contradições, daí os frequentes “tiros nos pés”.

 

Olhando para a governação dos socialistas nestes quatro anos, percebe-se que foram frequentes as cedências feitas, em termos orçamentais e legislativos, aos partidos à sua esquerda, que acabaram por empurrar o Governo para uma política onde não está totalmente confortável, mas que lhe rende votos provenientes dos trabalhadores.

 

E a classe média? Pois, esse é o grande e grave problema da actual governação! Fazer subir o salário mínimo e deixar parado o salário dos professores, dos enfermeiros, da função pública e das forças de segurança, para não falar das Forças Armadas é, mais do que se pode imaginar, estar contra a “vocação” dos socialistas.

Na verdade, os comunistas e os bloquistas podem reivindicar para si as medidas de melhoria de vida dos trabalhadores, mas os socialistas, se nada fizerem – e não fizeram nada nesse sentido – terão de volta, como começam a ter, o descontentamento da classe média, sem, no entanto, terem grandes vantagens juntos das classes menos favorecidas. Ou seja, em suma, são, em última instância, os socialistas e o seu Governo quem abre as portas ao populismo nascente. Fazem-no, porque estão comprometidos com a União Europeia no cumprimento do deficit abaixo dos três por cento ou mesmo na ausência de deficit; fazem-no, porque querem dar ao mundo uma lição de “boa governação”; fazem-no, porque, inebriados com alguns bons resultados económicos e financeiros, esqueceram a força do seu ADN.

 

Cuidado, António Costa, cuidado Partido Socialista, pois o despertar pode ser terrível, porque a classe média não tem dúvidas em bandear-se com a direita, se esta lhe prometer as vantagens de boa vida, que jamais cumprirá.

Cuidado, António Costa pois, é tempo de estudar o longo consulado de Salazar e perceber como o ditador conseguiu equilibrar-se, usando a neutralidade da classe média perante a miséria das classes desfavorecidas, o apoio dos grandes grupos financeiros e a constante luta dos comunistas ilegalizados.

A História não se repete, mas há nela, sempre, segmentos de semelhanças a levar em conta.

O apertar do cerco

 

Greve da função pública. Estes funcionários do Estado têm todo o direito de fazer greve; podem e devem fazê-la. A questão que coloco é a da oportunidade.

Em Portugal tudo e todos parecem estar a “apertar” o Governo de modo a gerar na opinião pública a sensação de que há uma instabilidade política, há uma ingovernabilidade, há um desatino com a correspondente consequência de descarte do actual modelo de governação.

 

Vamos lá ponderar se estou a ver bem e a perceber melhor o que se passa.

Os partidos políticos de direita andam a estrebuchar, mas, realmente, não conseguem fazer a oposição necessária para levar o eleitorado a descrer da actual governação. Nem Rio nem Cristas têm credibilidade para retirar a António Costa e, em especial, a Centeno o mérito do equilíbrio orçamental e do “arranjo” da economia com o aumento de emprego verificado nestes anos. Claro, não falo de Santana Lopes nem noutras figuras “menores” do panorama nacional, exactamente por serem menores.

Face a esta impossibilidade de o sistema partidário gerar oposição, a aposta está a fazer-se através da instabilidade política a partir da actividade sindical orgânica e inorgânica acompanhada de desestabilização das instituições e organismos aparentemente consolidados (ADSE, CGD, Forças Armadas, ensino, universidades). Mas, o “jogo” parece estar a ser bem conduzido, pois reivindicar melhores condições salariais mobiliza as classes trabalhadoras envolvidas, gerando simpatias noutros grupos também carentes, ao mesmo tempo que neutraliza as centrais sindicais e “empurra” para os partidos de esquerda a responsabilidade pelos acontecimentos.

 

Chegamos ao ponto de percebermos que estamos à beira de um momento decisivo da nossa democracia, visto as soluções tidas como tradicionais não serem capazes de dar a resposta conveniente. A “porta” fica aberta para qualquer experiência, partindo de um qualquer líder que se assuma como “salvador da pátria”. O mais natural é que, saindo de uma situação inorgânica, este líder seja rapidamente absorvido pelos interesses financeiros, que nada podem perder no presente, pois vive-se um tempo de máximo consumo, mas, também, de máxima fuga a obrigações fiscais e, por isso, menor partilha de rendimentos com quem menos capacidades possui para sobreviver. Julgo que se gerará um ciclo vicioso de continua instabilidade capaz de conduzir a um sistema de ditadura implacável e escravizante.

 

O quadro que acabo de traçar, sendo pensado através da observação da situação nacional, parece-me passível de configurar um novo paradigma já em fase de desabrochar em alguns países de cultura e tradição ocidentais.

 

Será que me enleio numa teoria muito minha ou estarei a fazer uma leitura futurista que ainda não está bem definida nos contornos mentais dos analistas políticos comuns? O tempo responder-me-á.

Dívidas e comezainas

 

Em 1973, era eu capitão e cumpria comissão de serviço no Batalhão de Pára-quedistas n.º 31 (BCP 31), na cidade moçambicana da Beira, colaborei na Emissora do Aeroclube daquela localidade com um apontamento semanal, escrito e lido por mim, sobre a vida internacional de então.

Foi nessa estação de rádio que conheci um excelente técnico de som, natural de uma qualquer terra ao norte de Braga, uma dezena e meia de anos mais velho do que eu, divorciado, com filhos já criados e sem qualquer apoio doméstico para lhe confeccionar as refeições, que tomava num restaurante bem conhecido na cidade. Este minhoto era aquilo que, vulgarmente, se chama “um bom copo”… despejava uma garrafa de litro de vinho ao almoço e outra ao jantar. A conta nunca era pequena, porque não se coibia de consumir com fartura pratos de camarão, peixe e carne.

 

Numa noite, estávamos vários comensais a confraternizar e veio o gerente junto do técnico, cujo nome não vou referir, e disse-lhe textualmente:

⸺ Já deves as refeições do mês passado e as deste mês. Quando é que fazes um pagamento para abater a conta?

Resposta pronta do bom minhoto:

⸺ Eh pá, o que é isso? Então, é a mim, que sou um bom cliente, que me pedes para pagar! Pois olha, nunca mais cá “benho” comer!

Levantou-se da mesa e, na verdade, nunca mais voltou àquele restaurante.

 

A história, tendo uma certa carga de humor, dá para pensar um pouco. E foi lembrando-me dela que me interroguei sobre a decisão de o Grupo Mello e de o Grupo Luz Saúde cortarem com o fornecimento de serviços à ADSE.

Na verdade, toda a gente ouve a comunicação social noticiar, enfaticamente, o corte de “relações” daqueles grupos financeiros com aquele subsistema de saúde dos funcionários do Estado, mas quase passa despercebida a razão do conflito, ou seja, o facto de haver uma sobrefacturação de serviços prestados ao organismo assistencial em cerca de trinta e cinco milhões de euros. Quer dizer, os grupos financeiros “comeram” à farta e à valentona, tal como lhes deu na real gana e, agora, após a análise das contas, recusam-se a liquidar o excedente ao “fornecedor” das “refeições”. Para mim, não tenho dúvidas em compará-los ao excelente técnico de som da Emissora do Aeroclube da Beira.

 

E viva quem, em Portugal, enche o bandulho à custa de enganar os outros!

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