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Fio de Prumo

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Aqui fala-se de militares, de Pátria, de Serviço Nacional, de abnegação e sacrifício. Fala-se, também, de política, porque o Homem é um ser político por ser social e superior. Fala-se de dignidade, de correcção, de Força, de Beleza e Sabedoria

Forças Armadas europeias

 

Emmanuel Macron, nas vésperas do centenário do armistício, há dias, seguiu na peugada de Ângela Merkel, defendendo a criação de umas Forças Armadas europeias. A chanceler alemã, depois disso, tornou a reafirmar essa necessidade, não levando em conta os sucessivos e ameaçadores twitters de Donald Trump.

 

Dizem os defensores da União Europeia que a esta se deve a mais longa paz na Europa e que, para a poder sustentar, haverá que criar uma Forças Armadas capazes de não depender de outras potências.

 

Será conveniente, para desfazer equívocos, recordar alguns pormenores importantes no meio dos argumentos agora usados.

As guerras na Europa foram, ao longos dos séculos, motivadas por razões de fronteiras, razões religiosas e económicas. Nestas últimas devemos incluir as que determinaram conquistas de mercados externos quer para a colocação de produtos acabados quer de busca de matérias-primas. A “tranquilidade” europeia só se concretizou no pós-segunda Guerra Mundial. A razão fundamental para que assim acontecesse estriba-se no facto de o conflito ter, por um lado, destruído, quase por completo, o tecido produtivo em todos os Estados do continente e, por outro, terem ascendido às independências as colónias da Bélgica, Holanda, França e Grã-Bretanha, o que contribuiu para a perda de importância económica no mundo. Acresce – e é, talvez, o mais importante – que os EUA e a URSS se tornaram os Estados directores da política mundial.

Foi esta conjuntura que definiu as condicionantes de uma paz permanente no continente europeu. O surgimento do Mercado Comum resultou dessa mesma conjuntura, porque foi o único modo de estabelecer regras para um crescimento económico da Europa sem choques internacionais, servindo, ao mesmo tempo, como mercado comprador dos produtos americanos.

 

A queda do regime comunista na URSS e seus satélites gerou uma polarização dos centros de poder internacional e, em certa medida, pontos de discórdia entre interesses envolvendo a Rússia, os EUA, a China e alguns dos Estados europeus. Este contexto é novo e requer um novo tipo de resposta. Eis a razão pela qual a chanceler alemã lançou a ideia das Forças Armadas europeias numa tentativa de unificar interesses entre grandes Estados do continente, em especial, agora que o Reino Unido saiu da União.

 

Só que há aspectos que, para a concretização de umas Forças Armadas europeias, não estão a ser dados a conhecer aos europeus. Vejamo-los.

As Forças Armadas têm, como fim último, a defesa dos interesses do Estado, exercida através da dissuasão e do exercício da força, se tal for necessário. É a defesa da Pátria. Ora, umas Forças Armadas europeias têm de estar ao serviço dos interesses da União; uma União que não tem uma política externa única. Uma União que não é uma pátria para ninguém a não ser para os burocratas que a defendem com unhas e dentes. É aqui que surge o contra-senso das propostas surgidas na Alemanha e na França.

 

Estas Forças Armadas serão as francesas combinadas com as alemãs ou as de todos os Estados europeus? Estaremos em face de uma União a “duas velocidades”? O que é que não nos é dito e é escondido? Qual o papel que não está reservado para o Reino Unido nesta “defesa” comum?

E, para nós, mais grave do que esta ignorância, qual a posição de Portugal neste projecto? Se não temos respostas, resta-nos perguntar qual a “União” que nos junta?

Um país de abstencionistas

 

Depois da vitória liberal de 1834, os Poderes em Portugal passaram a estar sujeitos ao voto “popular”. Mas este voto e este povo votante foi sendo, ao longo do tempo, variante e variável. A nossa “democracia” sofreu, como quase todas as democracias europeias, de “adaptações” do “eleitorado”, porque, num tempo em que havia quem pagava impostos e outros não, uns sabiam ler e escrever e outros não, uns eram do sexo masculino e outros do sexo feminino, uns eram chefes de família e outros não, nem todos podiam ter o “direito” de voto. Votar foi, durante muito tempo, um privilégio dado somente a alguns.

 

Em Portugal, só em 1918, num momento de grande necessidade de apoio popular para um ditador nascido de uma revolução – Sidónio Pais – foi dada aos eleitores a possibilidade de eleger o Presidente da República. E ele foi eleito por sufrágio universal para, poucos meses depois, ser assassinado a tiro de pistola. Mas, embora a corrida às urnas tenha sido significativa, houve abstenções.

 

Depois, com o decorrer da República, os cadernos eleitorais foram sendo alterados para servirem os interesses dos grupos políticos em melhores condições para chegarem à vitória. Jogava-se com número de círculos eleitorais e com a quantidade/qualidade de quem podia eleger.

 

Após a imposição da ditadura, em 28 de Maio de 1926, a primeira consulta popular, mantendo a restrição do direito de voto e afastando das urnas quem não era passível de ser eleitor, teve lugar, em 19 de Março de 1933, aquando do plebiscito da Constituição Política mandada elaborar por Salazar.

O facto curioso, para evitar o que havia acontecido aquando da eleição directa de Sidónio Pais, foi que as abstenções contavam como se fossem um “sim” declarado.

 

A ditadura chamada “Estado Novo”, de tendências fascistas, com todos os tiques ligados ao regime italiano e, em certos aspectos, ao nazismo, facilitou e quase impôs o abstencionismo eleitoral como norma e, pior do que tudo, como “cultura” política em Portugal. Porque o abstencionismo, para além de representar um afastamento da vida pública e política, traduz uma forma de medo. Ao abster-me não me comprometo com este ou aquele modo político. Isso deixa-me a “liberdade” aparente de “mudar de campo” quando muito bem entender, mas, acima de tudo, resguarda-me de ser identificado ideologicamente.

Assim, não tenho receio em afirmar que a abstenção é uma forma de cobardia cívica, política e moral. A abstenção é um fruto do fascismo, como acabei de explicar. A abstenção é uma demissão política, porque é, afinal, por mais voltas que se dê, uma forma de compactuar com o Poder vigente, evitando rupturas, mudanças ou alterações.

 

Quando, como no momento presente da Europa, das Américas e, em certa medida, do mundo, a tendência é, cada vez mais, para o surgimento do populismo o qual é a porta que se abre ao fascismo, a abstenção política é condenável e irresponsável.

Outra vez a História e a Política

 

O jornal espanhol “El País”, de hoje, traz a curiosa notícia da discórdia entre historiadores sobre os novos manuais de História e a actividade da ETA.

 

Não é descabida a discussão, pois coloca-se o problema de como classificar aquela organização basca. Para muitos ela não foi mais do que um bando de terroristas e, para outros, um grupo de resistentes anti-franquistas. Acusam os primeiros que se pretende branquear a História, pois a maioria dos atentados contra pessoas ocorreu após a morte do generalíssimo Francisco Franco. Logo, a acção não podia ser contra o ditador, porque se tratava de terrorismo puro, gerador de medo.

 

O Governo regional basco está disposto a aceitar todas as sugestões que reponham a “verdade”. E, o problema é esse mesmo: qual verdade?

Há quem sugira que é muito cedo para se fazer a história da ETA e das suas motivações; há quem proponha uma descrição “equitativa” entre depoimentos de antigos etarras e familiares ou associações de vítimas.

 

Claro que, na minha opinião – e não estou suficientemente documentado para me pronunciar sobre os factos –, o que faz falta é a síntese resultante da análise “fria”, “distanciada” e “equidistante” das motivações quer da ETA quer do aparelho político herdado do fascismo espanhol, pois, é conveniente recordar, a problemática ditatorial do Estado vizinho tem sido resolvida na base do silêncio. Um silêncio que vem desde os anos 30 do século passado, um silêncio das vítimas da República e da Guerra Civil, da repressão e de uma democracia que preferiu calar relatos a exorcizá-los na praça pública, identificando o que devia ser identificado.

 

A História não é um tribunal, nem, muito menos, o soalheiro onde gente de má fama lava roupa suja. A História é, tem de ser, o relato límpido dos acontecimentos despejados de raivas e de ódios.

Torre e Espada – Milhões e militares

 

Acabei, há poucas horas, de assistir, através da emissão televisiva, ao grandioso desfile “militar” na Avenida da Liberdade, em Lisboa. Comemorou-se o centenário do Armistício, uma semana antes da data em que aconteceu. Razões imperiosas levaram a que se adiantasse o acontecimento: o nosso Presidente da República vai estar, no dia 11, em Paris para acompanhar a evocação internacional.

 

Muita coisa poderia dizer sobre o que vi, mas vou concentrar-me em dois ou três aspectos, para não ser longo nem incomodar os meus leitores.

 

Antes do mais, no meu entender, há que explicar a inclusão da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia no desfile, que devia ser militar (a Polícia é uma força de segurança civil), já que a primeira teve um papel muito reduzido no conflito e a segunda não teve papel absolutamente nenhum.

Se quem esteve atento à emissão televisiva tomou em devida nota os efectivos mencionados, poderá ter feito as contas e verificado que, AO TODO, a Armada, o Exército e a Força Aérea não têm ao serviço vinte e quatro mil elementos (homens e mulheres), mas a POLÍCIA (força civil e de segurança interna) tem à volta de vinte e um mil efectivos! Falta, ainda a GNR…

Assim, se o desfile se limitasse a ser só feito por militares dos ramos realmente combatentes na Grande Guerra, seria um “desfilinho” ou uma “paradinha”! Para lhe dar a grandeza dos quatro mil que teve, houve que juntar tudo o que usa arma para segurança. A tal situação nos reduziram as “Jotas” com a sua oposição ao serviço militar obrigatório e a tal nos tem reduzido a vontade política dos Governos democráticos, com medo das Forças Armadas.

 

Mas o Presidente quis salvar a face dos Exércitos de Terra, Mar e Ar, numa altura em que tão vilipendiados têm sido e, como bom político que é, “arrefinfou-lhes”, nos estandartes dos respectivos Estados-Maiores, as insígnias da Ordem Militar da Torre e Espada do Valor Lealdades e Mérito. Ficou-lhe bem e as Forças Armadas agradecem. As forças de segurança ficaram a “chuchar no dedo”, como convém e se justifica, porque, “com papas e bolos se enganam os tolos”!

 

Depois, depois foi a desgraça dos repórteres da televisão, que “não davam uma para a caixa”, visto terem estudado muito mal as informações que poderiam ter colhido sobre a intervenção de Portugal na Grande Guerra. Safou-os, mas nem sempre bem, os oficiais destacados pelos ramos das Forças Armadas, que lá explicaram alguns pormenores do que foi a nossa participação no conflito. E, até notei, o oficial da Força Aérea lembrou-se da esquadrilha mandada para Moçambique. Haja Deus!

 

Na sequência do programa e já no telejornal veio à baila o soldado Milhões.

É sabido, tenho-me dedicado, há mais de duas dezenas de anos, ao estudo e pesquisa da participação na Grande Guerra. Fiz tese de doutoramento em História sobre o tema. Sempre me interroguei quanto ao real papel do soldado Milhais, designado por Milhões.

Não vos quero incomodar com longas leituras, todavia, sendo sintético, não desprezando a coragem do soldado Milhais, tenho para mim que ele foi, acima de tudo, um símbolo escolhido para criar o herói que faltava ao nível dos soldados combatentes, em La Lys, onde, a grande maioria – mais de seis mil –, foi feita prisioneira e uma minoria morreu em combate (quatrocentos e vinte e três).

 

É o Portugal dos mitos e das meias verdades.

Compreender História

 

Mais uma vez volto a este tema por me parecer importante tanto para quem estuda História, nos diferentes níveis de ensino, como para quem gosta de ler livros de História.

 

Não é a mesma coisa fazer História ou interpretar História. No primeiro caso, quem faz História, conta e explica os factos conhecidos e preenche as lacunas, por falta de informação, com meras deduções ou hipóteses plausíveis de acordo com a “vulgaridade” da época. Dito de outra maneira, depois de reunir os documentos segundo a ordem aparentemente lógica, de acordo com os hábitos existentes à data em que foram gerados, o historiador apercebe-se das falhas discursivas e completa-as, não aleatoriamente, seguindo um método que terá de ser plausível à luz do que está a relatar. Não se trata de inventar a seu bel-prazer, nem de romancear como melhor quer, mas estabelecer as “próteses” que completam a História. É, nesse aspecto, um trabalho científico, pois se trata de uma recriação plena de verosimilhança.

 

Este processo abre a porta à vulgarização da interpretação da História. Com efeito, a barreira que separa aquilo que designo por “preenchimento dos acontecimentos não documentados” daquilo que se reconhece ser “interpretação histórica” é tão subtil que, às vezes, o historiador cai na “armadilha” sem dela se aperceber.

Tem, pois, de se saber o que é interpretar a História. Vou passar, de seguida, a explicar de forma muito sucinta e clara.

 

O conhecimento histórico é sempre – como não podia deixar de ser – posterior aos acontecimentos. Ora, tal como nos jogos de futebol, quem já sabe o resultado pode discutir o modo como ele foi alcançado, criticando decisões, objectivos e modos de proceder. Ou seja, pode sempre especular sobre o próprio acontecimento, tirando dele as conclusões que melhor entender ou lhe parecerem mais lógicas e evidentes. Pode, até, extrair lições para o futuro, alvitrando outros processos de acção.

Como se vê, o que acabei de expor nada tem a ver com o que se passou efectivamente, porque se partiu do acontecimento para o “ajeitar” de acordo com as opiniões do “analista” – que, em boa verdade, não é historiador, embora possa parecer sê-lo.

 

A interpretação da História tem o seu lugar e papel importante não na História propriamente dita, mas em ciências que usam a História para poderem fazer afirmações úteis ao entendimento dos seus objectivos e do seu modo de operar. Estão neste caso, em especial, a Ciência Política e o estudo científico das Relações Internacionais.

Nessas duas áreas do saber há um elemento fundamental no estudo e execução da História, que nelas é quase totalmente dispensável: o tempo. Realmente, quando Henry Kissinger ou Madeleine Albright, nos livros Diplomacia e Fascismo, se socorrem da História fazem-no não para a contar, mas para dela extraírem os exemplos necessários às conclusões políticas onde fundamentam as suas razões interpretativas do fenómeno relacional entre Estados ou entre grupos partidários. O historiador jamais deve seguir tal procedimento, porque corre o risco de, ao contar ou explicar a História, introduzir elementos discursivos que fazem parte da sua actualidade e não da actualidade em que decorreram. Dito de outro modo, o politólogo pode julgar a bondade de um tratado entre Estados, mas o historiador deve simplesmente relatar as razões e contextos que levaram à assinatura do mesmo. No máximo, pode contar e explicar as consequências futuras desse entendimento entre Estados o que não é o mesmo que o julgar, pois continua a fazer História.

 

Julgo ter sido capaz de estabelecer diferenças, ajudando a que se seja capaz de perceber o que é História daquilo que são outros estudos sociais.

Dos pais aos filhos

 

Hoje vou deixar de lado os temas habituais – política e questões sociais – para falar um pouco de mim. De mim e da relação que tive com os meus pais.

 

Ao olhar para trás vejo um abismo imenso entre o que “nós” – a gente da minha geração – éramos e o que são hoje os filhos para com os pais. Não faço julgamentos de valores; estabeleço diferenças.

 

Os nossos pais eram, antes de tudo e do mais, nossos pais! Nunca me passou pela cabeça que o meu pai ou a minha mãe eram os meus melhores amigos. Eles, por “inerência de função”, eram, de certeza, os meus melhores amigos, não por querem rivalizar com os meus amigos, mas, porque, sendo meus pais, “tinham de ser” os meus melhores amigos, pois achava inadmissível que o não fossem.

 

Claro que esta postura gerava uma situação de distanciamento inexistente – será que era inexistente? – nos dias de hoje entre pais e filhos. Mas, o distanciamento de então tinha à mistura uma grande dose de respeito, e pressinto que a “proximidade” de agora levou para um pouco mais longe esse respeito reverencial. Curiosamente, na minha infância, o pai estava “mais distante” e a mãe “mais próxima”. Havia como que uma “hierarquia familiar”, “degraus” de respeito; a mãe, não sendo desrespeitada, aceitava melhor as “desobediências”, talvez, porque se respaldava na autoridade da figura paterna.

 

A minha infância e juventude foi vivida mais em posição de “escutador” do meu pai do que de interlocutor do meu pai. Ele falava e eu ouvia, argumentando, às vezes, com a mesma cautela que o “chefe de cozinha” põe no uso do sal. Conversar, propriamente dito, com o meu pai, só o fiz após ter acabado o curso da Academia Militar, ter sido promovido a oficial e estar a ganhar o meu dinheiro.

 

Na actualidade vejo, com muita frequência, filhos que dialogam com os pais como se eles fossem companheiros de folguedo, de farra, de escola, desmantelando todas as barreiras de idade e de condição.

 

É verdade que o “salto tecnológico”, ocorrido há cerca de vinte anos, veio dar outras oportunidades aos jovens e aos jovens pais. Aos primeiros, porque criaram novas possibilidades de “conversa” fora dos grupos sociais habituais – irmãos, parentes, colegas de escola, amigos do café, companheiros de farras –, gerando uma multiplicidade de contactos e experiências quase inexistentes antes dos computadores pessoais e dos telemóveis com múltiplas funções; aos segundos, porque, a par das mesmas hipóteses dos filhos, lhes “facilitou a vida”, evitando-lhes a “obrigação” de conversar com os descendentes. Em suma, a família ampliando o leque de contactos para fora de si mesma, fechou-se para o diálogo e para a relação restrita dentro dela.

 

Mas houve mais que a tecnologia trouxe: a possibilidade de “compensar” a ausência de contacto com os filhos, através de os premiar com novos “artefactos” tecnológicos. Os pais não se sentem frustrados e os filhos não se sentem agradecidos, pois não tiveram de “pedinchar”, visto receberem de bandeja aquilo que julgam ter direito.

 

Não há a mínima dúvida de que estamos a assistir a uma nova mudança de paradigma relacional entre pais e filhos. Na minha juventude falou-se muito das alterações provocadas pelo pós-guerra nos filhos criados sem pais por terem morrido no conflito. Mas creio que essa “marginalidade” foi ultrapassada pelo surgimento dos hippies, de novas modas musicais, dos novos vestuários, dos novos comportamentos os quais fizeram descer os níveis de rigidez comportamental entre pais e filhos, mas não desfez, em absoluto, os laços de respeito mútuo. Todavia, neste tempo de agora, parece estar em desagregação essa réstia de equilíbrio, deixando-me perplexo perante o futuro próximo, já que nem na escola a autoridade devida ao “saber” merece ser aceite.

 

Tudo isto não é um problema político?

Claro que, para além de sociológico, é basicamente político, pois gera uma grande interrogação sobre o futuro que não vai ser nem igual nem semelhante ao nosso passado ou ao de todos os povos influenciados pela nossa cultura, dita ocidental.

Ainda o “efeito Cavaco Silva”

 

Na segunda parte da década de 80 do século passado tive sérias discussões com camaradas de armas sobre a adesão à CEE e sobre as primeiras medidas que se desenhavam no horizonte próximo. Era Primeiro-Ministro Cavaco Silva. O dinheiro caía a rodos e parecia que se vivia no país a nova descoberta de minas de ouro num qualquer Brasil.

A quantidade de projectos inúteis foi, de longe, superior aos de declarada utilidade. Havia a possibilidade de beneficiar amigos de longa data ou meros conhecidos de ocasião. Toda a gente quis deitar mão ao dinheiro europeu. Foi um fartar vilanagem.

 

E quem é que estava mais preparado para beneficiar do dinheiro vindo de Bruxelas? As indústrias mais estruturadas e que não estavam destinadas a serem desmanteladas e, de entre todas, as de construção civil eram as preferidas… mas nem todas! As de construção de auto-estradas foram contempladas com um estatuto de protecção excepcional. Cavaco Silva, Primeiro-Ministro, foi fechando os olhos aos favores que se estabeleceram logo desde a primeira hora. Haja em atenção a megalómana e quase inútil construção do Centro Cultural de Belém, que derrapou várias vezes no custo e na data de conclusão.

 

Qual a matéria das minhas discordâncias?

A desmedida construção de auto-estradas, privilegiando o transporte rodoviário, as pequenas e médias empresas de camionagem. Claro, não se podia continuar com as velhas estradas nacionais. Era necessário abrir uma nova via rápida para ligar Lisboa ao Norte e ao Sul de Portugal, mas, depois, havia que apoiá-la com estradas de bom piso e com uma ampla rede de caminhos-de-ferro, sem destruir a metalurgia nacional, nem a indústria de fabrico de carruagem – a SOREFAME – canalizando para estas empresas todos os apoios possíveis.

 

Nada disto se fez. Não se soube proteger a parte da indústria nacional que era estratégica. Pelo contrário, deixou-se que grandes capitais estrangeiros deitassem mão ao que era mais valioso para nós. E foi durante o Governo de Cavaco Silva que se tomaram as decisões mais desastrosas e menos equilibradas para o futuro de Portugal. A actual situação dos caminhos-de-ferro deve-se a essa “bomba” antinacional que foi a adesão à CEE com imperativos que não souberam acautelar os interesses produtivos portugueses, nem orientar os investimentos proporcionados pelo dinheiro de Bruxelas.

Enriqueceram alguns – muitos poucos –, ficara mais remediados muitos pequenos empreendedores, que aproveitaram o financiamento europeu a fundo perdido, e ficaram mais pobres todos os que dependiam e dependem do trabalho e do investimento.

 

Portugal é um país não de oportunidades, mas de oportunistas acobertados por políticos que não têm uma clara noção do verdadeiro sentido da honestidade e do patriotismo.

Orçamento e economia

 

Há muitos anos, quando foi eleito, no Brasil, o futuro Presidente Jucelino Kubitschek de Oliveira, antes de tomar posse, ele fez uma rápida viagem à Europa e passou também por Lisboa para cumprimentar Salazar.

Conta-se (alguém terá ouvido ou Jucelino cometeu inconfidência) que Salazar, arvorando-se em mentor financeiro do Presidente brasileiro, lhe terá dito, que, o mais importante para a sanidade do muito instável e inflacionado cruzeiro, seria procurar equilibrar o orçamento ao mesmo tempo que reduzia a dívida externa e arrecadava reservas de ouro no banco central do Brasil.

Jucelino ouviu com atenção e terá respondido com uma frase lapidar:

- Presidente, quando há uma moeda forte, quase sempre, há uma economia fraca; todavia, para haver uma economia forte pode haver uma moeda fraca. Eu prefiro, para o Brasil, uma economia forte!

Verdade seja que foi com ele, na Presidência da República Federativa do Brasil, que se deu o grande salto económico daquele país lusófono.

 

Ora, vem esta memória à colação por causa de hoje ter sido aprovado, na generalidade, o Orçamento do Estado e nele se procurar reduzir o défice a um valor quase insignificante através de um baixíssimo investimento do Estado em despesas estruturais e estruturantes. Ou seja, quer-se anular o saldo negativo, de certo modo evitar a dívida e evitar o crescimento do sector económico do Estado.

Há alguma diferença entre estes procedimentos técnicos e os de Salazar, que, nos momentos mais aflitivos da vida nacional, mandava reter nos cofres do Estado dez por cento das verbas atribuídas aos serviços de modo a conseguir superavit orçamental?

 

Pedro Ferraz da Costa, homem forte da indústria nacional, ainda ontem, na televisão, disse que o actual orçamento não favorecia a economia, e isso é, realmente, mau.

O Governo espera poder sustentar a economia com o esforço do investimento privado, com as exportações e o crescimento do turismo. O orçamento está feito para manter um baixo nível salarial na grande massa de trabalhadores e uma média capacidade de compra entre a média classe média. Nas grandes linhas, este orçamento não fica a dever nada a um orçamento de Salazar, nos anos 50 e 60 do século passado.

 

Como conclusão genérica posso dizer que as normas e regras da União Europeia, conjugadas com a adesão ao euro, vieram colocar-nos em situação idêntica à da política financeira e económica de Salazar e do seu Estado Novo.

É lamentável, mas é verdade.

Aeroporto da Portela e do Montijo

 

Acabei de ver mais um programa “Prós e Contras”, este sobre a transformação da Base Aérea do Montijo em prolongamento do aeroporto da Portela ou General Humberto Delgado.

Creio que foi dito o mais importante, mas ficou evidente que os maiores responsáveis pela apresentação do projecto ao Governo somente se baseiam em estudos técnicos sem olharem para além das regras estabelecidas e vigentes. Regras de impacto ambiental, regras técnicas de percursos de aproximação de aeronaves e de descolagem das mesmas, regras de tráfego aéreo, regras de ligação rodo e ferroviária a Lisboa, regras de o raio que os parta! Regras sobre a forma de nos enganarem e se desresponsabilizarem de tudo o que pode acontecer.

 

Dois pilotos presentes no debate levantaram a questão mais importante fora das regras enunciadas pela cambada defensora do aeroporto no Montijo: a segurança das populações residentes nos “corredores” de aterragem e descolagem dos aviões.

 

Em Lisboa, há duas formas de se fazer a aproximação para a aterragem: ou vindo do lado de Vila Franca de Xira ou entrando pelo lado da Fonte da Telha.

A entrada pelo lado de Vila Franca é, do ponto de vista do risco para as populações, aquele que oferece menor perigosidade; mas, quando se vem da Fonte da Telha, os aviões sobrevoam uma parte de Lisboa absolutamente horripilante se se tiver em conta um acidente aeronáutico: ponte 25 de Abril, palácio das Necessidades, hospital de Santa Maria, Biblioteca Nacional, Torre do Tombo, Universidade de Lisboa, Campo Grande, bairro de Alvalade, Areeiro e parte da avenida Gago Coutinho.

Ninguém pode imaginar a dimensão da catástrofe de uma aeronave que começasse a cair, por exemplo sobre o hospital de Santa Maria e se imobilizasse no bairro de Alvalade! Não eram só as mortes dos passageiros; eram todas as mortes devidas ao impacto no solo como as resultantes de todos os estilhaços feitos durante a queda e arrastamento, como ainda as provocadas pelos fogos ateados pela queima do combustível dos tanques. Não haveria meio de deitar mão a todos os acidentados. Não chegariam os bombeiros das corporações de Lisboa, nem as ambulâncias do INEM e restantes. A confusão no trânsito seria caótica. Os curto-circuitos seriam imensos, as explosões de garrafas de gás de uso doméstico dariam origem a intermináveis fogos, bem como a outros provocados pelo gás de cidade.

 

E um acidente destes pode ter lugar devido a uma falha de motor, ao impacto com aves de porte significativo ou com drones usados para divertimento pessoal ou uma outra causa inesperada.

 

É por causa destas situações de segurança que os mais modernos aeroportos do mundo se situam a largos quilómetros das cidades mais próximas. Mas, por cá, continua-se a discutir a fotografia dos criminosos apanhados em fuga, dos animais de estimação serem ou não abandonados ou entrarem em restaurantes, o cartão ser de cidadã e cidadão, haver ou não haver segurança nos paióis militares. Tudo isto é importante, menos o facto de estar iminente uma catástrofe de proporções incalculáveis, cada vez que se aproxima um avião do aeroporto da Portela.

Acredita-se, em excesso, nas maravilhosas e miraculosas capacidades de Nossa Senhora de Fátima… Até ao dia em que não vale a pena chorar sobre o leite derramado!

Fascismo no Brasil?

 

O capitão reformado Jair Bolsonaro ganhou as eleições presidenciais no Brasil. Ganhou com uma confortável margem sobre o candidato apresentado pelo PT, mas que, erradamente, na segunda volta, já não representava só esse partido, mas a alternativa ao opositor o qual continuou a usar um discurso e um comportamento fascizante em todas as suas vertentes. Isso não foi compreendido pelos eleitores brasileiros. Pelo contrário, continuaram a aceitar que a alternativa a Bolsonaro era o comunismo (?), realmente, nunca experimentado no Brasil nas últimas quatro décadas.

 

Interessa, agora, perceber os sinais indicativos da marcha para o fascismo. Perceber se a sociedade brasileira vai ou não vai virar.

Comecemos pelo discurso de vitória de Jair Bolsonaro.

Claramente não corresponde a dar o dito, na campanha, pelo não dito. Pelo contrário. Foi um discurso demagógico cheio de armadilhas para tentar adormecer os incautos. Disse: "liberdade de andar na rua, liberdade política e religiosa, de formar e ter opinião".

Mas esta liberdade poderá passar pelo endurecimento – se calhar, desmedido – da força policial reforçada pela acção do Exército. Esse será o caminho para o silenciamento de todos os órgãos de comunicação social que tentem criticar a acção exagerada das forças de repressão. Mas, antes disso, se neste espaço de tempo entre a vitória eleitoral e a tomada de posse, se começarem a verificar acções de retaliação contra personalidades destacadas da oposição a Bolsonaro ou contra organizações de trabalhadores, levadas a cabo por grupos de arruaceiros armados, que ficarão impunes por inacção da justiça, teremos a certeza sobre o futuro do Brasil.

Disse, também que governaria de acordo com a Constituição, admitindo-se como um enviado divino para restaurar a ordem na sociedade brasileira. Não há, à luz da História, melhor indício para o classificar como um rematado ditador fascizante. Ele agirá em “consonância” com a “vontade de Deus”!

 

A certeza absoluta da viragem para o fascismo só a teremos depois de Janeiro e começará pela caça à droga e à marginalidade, para obter a legitimidade necessária para pôr em execução o programa repressivo, que silenciará todos os dissidentes da sua posição. Depois, depois Deus nos livre do que se seguirá.

 

Tudo o que aqui vos deixo para reflectir é o mínimo dos sinais de imposição da força fascista. Todavia, são os sinais clássicos ensinados pelos autores dedicados ao estudo das ditaduras.

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