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Fio de Prumo



Domingo, 15.01.17

UMA FEIRA DE VAIDADES (Ainda na morte de Mário Soares)

 

Logo a seguir à notícia da morte de Mário Soares as televisões encarregaram-se de ouvir depoimentos deste e daquele, um pouco a eito e sem jeito. Gente que conheceu e conviveu com o falecido antigo Presidente da República e gente que nem a mão lhe apertou alguma vez. Todos tinham uma opinião, todos sabiam bem quem era o falecido, todos “botavam faladura” mesmo que nada tivessem para dizer. Mas tudo isto desculpei no meu julgamento, porque, embora as televisões tivessem tido tempo para preparar esse triste momento de despedida, — Mário Soares até nisso foi generoso! —, não tiveram cautelas ou, se as tiveram, não escolheram criteriosamente.

 

Mas o que me arrepiou, e arrepia ainda, é o triste espectáculo de alguns articulistas que, quais corvos ávidos de restos pútridos, vêm agora escrever sobre as suas relações “pessoais” com Mário Soares. São, sem sombra de dúvidas, — e alguns conheço-os bem —, os grandes coscuvilheiros, intriguistas e oportunistas da nossa Lisboa. Os que sabem tudo da vida de toda a gente e tudo comentam, sem escrúpulos, saltando de “amizade” em “amizade” conforme lhes é mais conveniente em cada momento que passa. São alguns que pouco privaram com Mário Soares ou se lhe impuseram quando o isolamento começou a apoderar-se do homem público retirado das grandes lides políticas.

Alguns, à custa de grande habilidade, acabaram por se introduzir nas relações pessoais de Mário Soares, frequentando-lhe a casa, jantando com ele, conversando com ele, bisbilhotando com ele a vida de gente que o antigo Presidente conhecia bem.

E são estes que, depois da morte de Mário Soares, vêm recordar quem eram os amigos do falecido, selecionando, a seu bel-prazer, este personagem em vez daquele, esquecendo aqueloutro para enaltecerem quem lhes convém.

 

É um triste espectáculo, porque, pelo menos no imediato, vão ser nestes “depoimentos” que a História se vai basear para traçar o retrato de Mário Soares. Depois, é sobre isto que se vão tecer especulações de matriz histórica e só muito mais tarde haverá a possibilidade — já firmada uma opinião — de refazer a verdade; mas essa será sempre à custa de uma luta entre o que já está definido como aceite e o que deve ser modificado.

É assim que nascem as lendas, as fantasias, e é assim que os abutres da História a distorcem para parecerem leões. Há sempre gente que gosta de se pôr em bicos dos pés, sendo alto ou baixo, para ganhar mais estatura, que lhe sirva a vaidade incomensurável.

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por Luís Alves de Fraga às 13:04



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