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Fio de Prumo



Quinta-feira, 17.12.15

Uma "borla"

 

Ontem, numa das turmas a quem dou aulas, a maior parte dos alunos faltou e, assim, tomei a decisão de não explicar nova matéria. Fiquei a conversar com os presentes. Foi, como eles classificaram, uma espécie de "borla".

 

Falei-lhes da economia do petróleo e da sociedade criada por causa não da gasolina, nem do gasóleo, mas do crude que, depois de refinado, está na origem de quase tudo o que tocamos com os nossos dedos e com os nossos pés. E falei-lhes nas contradições ambientalistas: sacos de plástico a serem substituídos por sacos de papel feitos à custa de árvores - eucaliptos, que secam a terra onde crescem e a matam para qualquer outra produção - ou sacos sintéticos que continuam a ser feitos de produtos cuja origem está no crude. E nos aviões que são meios de transporte altamente poluentes; e no voltarmos a andar de barco à vela, e de regressarmos às matérias-primas do final do século XIX, e deixarmos de ter computadores e telemóveis, e, e, e...

 

Falei-lhes do "fardo do homem americano", no começo do século XXI, que "tem de impor" a democracia nos Estados onde há crude em abundância e regimes autoritários, comparando este "fardo" com o do "homem branco" (leia-se, inglês), no último quartel do século XIX, que tinha de "civilizar" os povos negros de África para lhes vender a produção têxtil da sua grande indústria onde se explorava barbaramente a mão-de-obra!

 

E falei-lhes das alterações que estão a ocorrer no modelo democrático herdado (e mal compreendido e pior executado) da Revolução Francesa, fundamentado no princípio da soberania popular, o qual hoje, ilusoriamente, dá a cada cidadão o direito de escolher governos, sendo que estes não obedecem aos eleitores, mas à grande finança que comanda a "democracia".

 

E falei-lhes de nós, sem receios e se sem propagandas, sem partidarismos, tal e qual como se estivéssemos num laboratório onde não contaminamos nem deixamos que nos contaminem.

 

Falei-lhes do Natal, da publicidade, de antropofagia e da Igreja Católica e da comunhão como momento mágico de aquisição das qualidades e virtudes do "sangue" que se bebe e da "carne" que se come.

 

Gostaram e eu gostei, porque a universidade é o único lugar onde se devia obrigar as mentes a estarem abertas e atentas a tudo o que faz parte de nós, da vida e das sociedades onde no inserimos. Ensinar mais a pensar e a utilizar conhecimentos do que a papaguear sebentas, livros, artigos, manuais. A liberdade académica existe para ser usada em benefício de quem julga ensinar e de quem efectivamente aprende.

 

No fim, desejei-lhes um Bom Natal e um Feliz Ano Novo.

Gosto muito do que faço e cada vez mais faço o que gosto.

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por Luís Alves de Fraga às 14:57


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