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Fio de Prumo



Sábado, 20.12.14

Um pouco de economia

 

Todos nos lembramos do que aconteceu quando o euro se tornou moeda de circulação obrigatória e única em Portugal: os preços dos produtos mais vulgares dispararam. Houve um fenómeno inflacionário. Ninguém ficou satisfeito, pois os salários mantiveram-se na mesma, ou seja, converteram-se de escudos em euros ao câmbio estabelecido para a equivalência. No fundo, bem vistas as coisas, passou-se algo semelhante a um açambarcamento geral de produtos para lhes fazer crescer os custos.

A reacção, quase imediata, de todos aqueles que viviam dos salários resultantes do trabalho, foi exigir novos aumentos para fazer face aos novos custos. E assim iniciou-se o descalabro de uma forma suave, insidiosa e silenciosa. Vamos ver como?

 

As empresas aumentaram a custo os seus empregados, mas, porque tinham de manter as margens de lucro anteriores, tornaram a subir os preços, ou seja, geraram nova inflação; os melhores gestores procuraram substituir mão-de-obra por tecnologia – a aposta era mais rentável. O Estado, porque a pressão também sobre ele era idêntica, aumentou o funcionalismo público sem, todavia, se compensar num descarado aumento de impostos, tendo, assim, de optar por fazer crescer a dívida; era a forma de manter satisfeitas as empresas, tentando travar a inflação dos preços por força da reclamação dos trabalhadores, que viam reduzir a sua capacidade de compra. Mas nisto a banca detectou uma excelente oportunidade de melhorar, a longo prazo, os lucros e, se detectou, melhor executou: fez tornar o dinheiro barato, baixando as taxas de juro e dando facilidades de empréstimo a quase todo o “gato-sapato”. Fundamental era, para os grandes países produtores, que o mercado interno se “animasse” e as famílias comprassem, comprassem, mesmo que à custa de endividamentos sucessivos.

 

Mas o que é que se passava no mercado nacional e na economia portuguesa? Pois bem, algo muito simples: na impossibilidade de concorrer com a produção da Europa, transferiram-se, em força, todas as capacidades disponíveis para o comércio de importação. As margens de lucro poderiam não ser grandes, mas garantiam a sobrevivência num tempo de dinheiro barato. A produção interna e nacional ou estagnou ou baixou. A abertura aos produtos dos mercados europeus reflectiu-se no tecido produtivo português. A aparente prosperidade interna era isso mesmo: só aparente.

Por volta de 2005, 2006, começou a fazer sentir-se a necessidade de travar o buraco orçamental não só por causa do cumprimento dos acordos que a moeda única impôs, mas, essencialmente, por causa do descontrolo interno de uma inflação de que se não falava. E surgiu José Sócrates Pinto de Sousa a prometer milhares de empregos – a tecnologia introduzira a “vantagem” do desemprego – e a adoptar medidas que travassem o endividamento do Estado. Esta foi a primeira fase da situação!

E a segunda? Pois, a segunda ocorreu quando se deu o descalabro da economia de casino nos Estados Unidos da América. Na União Europeia não se sabia como reagir e as primeiras indicações foram no sentido de optar pela velha solução keynesiana de, sem olhar ao deficit, fazer funcionar, de qualquer modo, a economia, através do emprego público, de preferência nas aplicações de grandes obras. Assim se explica o interesse, em 2008 e até 2009, pela construção de um novo aeroporto de Lisboa e de lançar as linhas de TGV. Quando na União se percebe que essa via ia acelerar a desvalorização do euro, fazendo-o perder a razão máxima da sua existência – moeda de contra-ponto ao dólar, nos negócios internacionais – arrepiou-se caminho e impuseram-se medidas novamente de moderada austeridade, suportadas pelos PEC’s. E foi então que, os partidos de direita viram a sua oportunidade de cavalgar o poder e acelerar o processo de liberalização máxima da economia nacional – o que restava dela e que era absolutamente estratégico numa perspectiva de mercado global – e, com Ricardo Salgado à cabeça, vá de chumbar as soluções ditadas pela Alemanha e passar ao programa de assistência financeira o qual só teve uma alternativa: fazer igualar o consumo interno à capacidade produtiva interna. Deste modo, o colapso da falsa euforia económica assente em empresas que dependiam quase exclusivamente da importação arrastou ao colapso das empresas parasitárias, que, por seu turno, viviam da aparente euforia gerada pela economia de importação e crédito fácil.

Os partidos da esquerda continuaram coerentes – daí acompanharem, na prática, as posições da direita – pois sempre condenaram o que era evidente: a adesão ao euro e a falta de imposições fortes junto da Comunidade Económica Europeia (CEE) aquando da adesão àquele organismo.

 

Julgo que, de uma forma muito sintética e muito linear, expliquei, usando só os elementos essenciais, a “bomba-relógio” que foi a adesão de uma economia débil e já muito fragilizada à moeda única – o euro – sem prever as perversões que de imediato se iriam fazer sentir nas pequenas bancas do mercado do peixe, da carne, da hortaliça, do pão e nas pastelarias e botequins, nos cabeleireiros e barbeiros de bairro. Essa adesão mal pensada, porque distante da realidade da economia paralela – a única verdadeiramente rentável em Portugal – gerou o fenómeno de “açambarcamento” (entenda-se, inflação espontânea) cuja oportunidade lhe foi dada pelo próprio poder político ao querer agigantar-se sem a perfeita noção de que Portugal é um Estado sem recursos de fundo, nem grandes alternativas industriais.

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por Luís Alves de Fraga às 18:55



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