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Fio de Prumo



Quarta-feira, 31.12.14

Réveillon em família

 

Não sei há quantos anos se passou a história que vos vou contar, mas foi há muitos, muitos mesmo. Eu era bem pequeno, contudo, atento a todos os pormenores, nunca mais me esqueceu da festa familiar de fim de ano.

 

O meu tio, irmão da minha mãe, “obrigou” os meus pais a fazer o réveillon em casa dele. Morava na Praça da Armada, num apartamento pequeno, o da sogra, com a mulher e o meu primo quase ainda bebé. A mãe da minha tia, a D. Hortense, era uma senhora prendada com todos os saberes das mulheres do final do século XIX, mas a sua maior e melhor “arte” era a da culinária onde, para além de fazer maravilhas com um orçamento bastante apertado, porque os tempos eram de guerra e de racionamento, concebia uns pitéus de lamber os dedos e uns doces onde o açúcar parecia multiplicar-se na farinha e nas gemadas. Claro que, como todo o ser humano consciente das suas virtudes, não se permitia descuidos ou imprevistos quando de volta dos tachos, panelas e formas de bolos e pudins.

 

O jantar começou em hora já tardia, pois tinha de se arrastar um pouco para além da meia-noite, dada a razão de ser do mesmo. A mesa estava farta e a sala, ainda que apertada, jorrava luz e havia um esplêndido odor a comida que começava na porta da rua, perto da cozinha, e enchia o ambiente onde nós, os mais pequenos, nos divertíamos em brincadeiras inocentes.

Depois de sentados, a memória já me falha, deve ter sido servida uma canja, pois, naqueles meios e tempos, ainda não havia o costume de iniciar a refeição pelas entradas. Canja, quase pela certa, de peru, com os saborosos “miúdos” rodeados de estranhas figuras amarelas feitas pela gordura derretida do animal sacrificado para o momento.

Depois, foi a vez do peixe – então sempre fresco, porque não se usavam sistemas de congelação – provavelmente assado no forno de lenha rodeado das batatas e da abundante cebola para lhe dar o sabor já apurado pelo vinho de qualidade com que se regava o manjar.

O meu pai, que então, sendo magro e elegante, comia com grande prazer e falava ainda mais, recordo-me, ia fazendo as honras às vitualhas, proclamando as virtudes da cozinheira que, com aquele ar de falsa modéstia, respondia, com um sorriso de contentamento na face:

— Senhor Fraga olhe que isso é bondade sua! São comidas banais… coisinhas simples!

Em seguida, com parte do estômago já forrado, os convivas viram chegar o peru trinchado e pronto a ser devorado com o seu recheio de castanhas. Recordo, cheirava bem! E o meu pai falava, falava sobre tudo, porque tinha o dom de conseguir fazer conversa interessante para todo o tipo de audiências, e ia comendo a suculenta carne dourada daquele animal já então comum nas mesas natalícias. Falava e, tal como em certos pratos, entremeava o discurso, escutado com atenção, com elogios às qualidades culinárias da D. Hortense, que o olhava deleitada, enquanto inclinava a cabeça em jeito de vergonha. E, retirados os destroços do peru, chegou a vez dos doces. E quem não gosta dos doces caseiros, com aquele paladar de outros tempos?!

O meu pai, se estimava um bom pitéu, perdia-se por um doce que fizesse jus ao açúcar! E esclarecia que tal perdição se devia a carências, de um qualquer tipo que não lembro, na fórmula do seu sangue. E a D. Hortense, conhecedora desse fraco do meu pai, lá veio com um pudim concebido especialmente para o senhor Fraga! Claro que sobrou para os restantes comensais, mas quando já nada sobejava na travessa ou prato, o meu progenitor saiu-se com uma exclamação de tristeza:

— Que pena ter-se acabado!

Foi então que a D. Hortense, rendida a tantos elogios, mas inundada do pudor de toda a boa cozinheira, deixou escapar uma explicação que ficou histórica:

— Há lá dentro outro, mas desmanchou-se quando o desenformei!

Os olhos do meu pai, homem para ter feito, havia poucos dias, trinta e seis ou trinta e sete anos de idade, riram de alegria e a frase foi espontânea:

— D. Hortense, que venha o pudim desmanchado que eu lhe dou forma no meu estômago!

E o pudim veio e marchou, entre aplausos da família, em abundantes colheradas, para onde o meu pai lhe reservara o destino.

 

Foi há tantos anos este réveillon de família! Todavia, nos que sobram vivos do repasto, e já não são muitos, continua fresca a lembrança do pudim desmanchado, que teve um final tão feliz como se se tivesse mantido hirto e escorreito de acordo com a vontade da D. Hortense.

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por Luís Alves de Fraga às 22:09


1 comentário

De Rui Saraiva Alves a 10.01.2015 às 07:21

Desconhecia esta passagem em que a narrativa do acontecimento e as as palavras ditas por uns e outros, nesse tempo, me surgem como um "registo", quando afinal sö apareci anos mais tarde ...
A Dona Hortense tinha na verdade fortes capacidades culinärias e, diga-se também que a Dona Hortense tinha uma pontaria com a bengala que a 3 metros nunca falhava ... acertava-me sempre na "maçanêta" (!), exïmia no lançamento do dardo.
Palavras escritas que vieram direitinhas aqui ao coaração deste "Mohicano" (...); a Recordação tem uma irmã: - ela chama-se Esperança.

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