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Fio de Prumo



Domingo, 15.02.15

Passagem de peões ou sinal vermelho?

 

Há já muitos anos, foi introduzido entre nós o conceito de “passadeira” – também chamada inicialmente “zebra” – como local seguro para os peões poderem atravessar as vias rodoviárias. Seguro, porque naquele espaço os veículos automóveis e motociclos com motor deviam abrandar a marcha e parar para dar oportunidade aos transeuntes passarem.

A ideia não foi muito bem aceite e recordo até uma campanha publicitária muito curiosa que representava um idoso a atravessar a rua e um automóvel a parar ouvindo-se, em “voz-off”, a frase “Dê mais tempo a quem precisa”. Recordam-se, os mais velhos, disso?

 

Pois bem, falando de fundamentalismos, apeteceu-me hoje abordar os que se geraram com as passadeiras de peões! Ou será que vou utilizar o mote para atingir outros fins? Vejamos com calma.

 

Qual terá sido o motivo para alguém, algures, ter inventado o conceito de passadeiras para peões?

A explicação é óbvia: a anarquia dos transeuntes a atravessar as vias onde circulavam automóveis. Ora, daqui decorre uma outra pergunta:

— Quem é que precisava de ser disciplinado: os peões ou os automobilistas?

Dirão os mais sensatos:

— Ambos, porque sem a disciplina de uns não pode haver a disciplina de outros!

Dirão os defensores dos automobilistas:

— Os peões, porque metiam-se no meio dos veículos e era matar neles a torto e a direito, pois, de contrário, os automóveis nem circular poderiam!

Não me atrevo a perguntar se os condutores dos veículos com motor deveriam ser os únicos elementos a serem disciplinados, pois a mais elementar lógica leva-nos a pensar que não, porque a estrada e a rua fizeram-se para poderem circular com os seus carros ou motociclos, tal como os chamados “passeios” para os peões!

 

Ora, com o rodar dos tempos, o que foi que aconteceu? Os peões disciplinaram-se e começaram a ver a passadeira como o sítio mais seguro para se afoitarem a atravessar as vias destinadas a veículos automóveis e os automobilistas a saberem que naqueles locais poderiam ter de abrandar ou parar a marcha, porque era ali que havia maior perigo para eles, pois os peões tinham uma prioridade especial. Isto girava na base do bom senso e do controlo sensato dos polícias de trânsito integrados no espírito da essência da disciplina, até que surgiram os fundamentalistas da passagem de peões: a passadeira tem de funcionar como se fosse um sinal vermelho! Os carros têm de parar nas passadeiras, estejam ou não peões para atravessar!

De repente, por exagero, os direitos transferiram-se dos condutores e dos veículos para os peões que se tornaram donos dos passeios e das vias de circulação automóvel! Tudo é deles e à sua vontade todos se tem de vergar! A circulação automóvel tem de andar à velocidade do peão para salvaguarda deste.

Fui capaz de mostrar como de um ponto se passou ao oposto sem quase se dar por isso e como, de repente, se acusa o utente privilegiado em utente sem direitos?!

 

Pois bem, passemos de um exemplo a outro!

Foi isto mesmo que aconteceu com o crédito, a banca, os consumidores, os deficits e os mercados!

 

Os bancos e o crédito serviam para alimentar a actividade económica e “circulavam” nos “passeios”, dando aos consumidores o seu lugar próprio na “estrada” do consumo que alimentava a produção e esta a economia com base nos deficits orçamentais que a auxiliavam a desenvolver-se no sentido e rumo certos. Havia “passadeiras” para a banca e a finança “atravessarem” a “estrada do consumo”, isto é, garantirem os seus fundos para alimentarem a boa economia e evitarem a falência. Mas a banca e a finança acharam que era pouco circularem nos “passeios” e usarem as “passadeiras” para sua segurança e, vai daí, tomaram conta dos “passeios” e das “vias de circulação do consumo” e exigem que este aumente ou diminua em função dos seus interesses, porque são eles quem dita a velocidade de “circulação” enquanto os “polícias de trânsito” – os políticos e os Governos – se deixaram manipular e começaram a “passar multas” (leia-se, impostos) a torto e a direito a quem circula na via do consumo, favorecendo, afinal os “peões” que já tinham como seus os “passeios” e as “passadeiras”.

 

O que se pode concluir da comparação?

Estudemos a lógica das decisões, escalpelizando a sua razão de ser e usemos de sensatez para pôr norte na vida em sociedade. É isso que os Gregos parece estarem a fazer depois de terem sido impedidos, por todas as formas, de circular na “via normal do consumo”. Temos de lhe seguir o exemplo.

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por Luís Alves de Fraga às 12:24



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