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Fio de Prumo



Quinta-feira, 18.12.14

Os sonhos também morrem

 

Contra-almirante Vitor Crespo.jpg

 

Era começo de Maio de 1974 quando o conheci na Base Aérea n.º 10, na cidade da Beira, em Moçambique. A tez amarelada e o ar cansado levaram-me a pensar que se tratava de um homem próximo do fim. Afinal, Vítor Crespo só morreu quarenta anos depois.

Regressou a Moçambique já graduado em contra-almirante e investido na função de Alto-Comissário, Chefe do Governo de Transição e Comandante-Chefe das Forças Armadas locais. Era um homem tranquilo que acreditou ser possível fazer a transferência de poderes da Administração portuguesa para a FRELIMO sem grandes sobressaltos. Todos nós acreditámos. Joaquim Chissano, um verdadeiro diplomata, um homem que assegurava a transição por parte da FRELIMO, tinha, para além de uma postura tranquila, um discurso pacificador. Ele e Vítor Crespo formavam uma dupla na qual os menos exaltados colonos de Moçambique, parecia, podiam confiar. E, durante alguns poucos meses, começou a crescer o sonho do nascimento de um novo país africano, que não sofreria significativas alterações. A estrutura do MFA (Movimento das Forças Armadas) acreditava que podia confiar em Chissano e em Vítor Crespo. Mas o grande furacão surgiu quando deu entrada no Norte de Moçambique Samora Machel. O seu discurso inflamado foi ateando o fogo do medo e da instabilidade por onde passava. Machel e Chissano eram completamente diferentes e o Poder decisório estava na mão do primeiro e só ilusoriamente na do segundo. Chissano foi o sonho bom de Vítor Crespo e Machel o pesadelo que, ao chegar a Lourenço Marques (Maputo), já havia acordado, quase pela certa, o almirante Crespo de todo o torpor em que a delicadeza e a simpatia de Chissano o haviam adormecido.

Um ano depois de Abril de 1974 já não se tinha dúvidas sobre as mudanças radicais que se iam operar na sociedade moçambicana. O sonho tinha acabado. Havia só que minimizar os estragos! Vítor Crespo não podia fazer o discurso do pânico; tinha de dizer o que era esperado dizer de alguém que representava o Governo de Lisboa.

 

Depois do regresso a Portugal continuou empenhado na evolução do processo democrático nacional e tornou a sonhar com um país novo, construído na base de uma pluralidade de vontades e uma honestidade de princípios. Os anos vieram acordá-lo para a triste realidade de hoje.

Depois de regressado ao serviço na Armada, quando os militares acharam que a política e os políticos tinham atingido maioridade e não careciam da tutela das armas, foi promovido a contra-almirante e por aí ficou, sem cargos de confiança nem de destaque, que a sua competência garantiam. Foi mais um dos muitos que, por razões ocultas da política nas Forças Armadas, marcou passo. Ficou como director da Biblioteca da Marinha até atingir o tempo necessário para se retirar do serviço activo.

 

Morreu, ao cabo de quarenta anos sobre a revolução em que tomou parte activa, o almirante Vítor Crespo e com ele estão a morrer os últimos sonhos e os últimos sonhadores de um Portugal democrático, pacífico, e próspero. Estão a morrer os Homens de Abril de 1974.

Quero crer que, se os animais vão para o céu, também lá haverá lugar para gente generosa, que sonhou poder construir países onde, no “mercado da cidadania” a moeda corrente fosse a honestidade subdividida, para fazer os “trocos”, em tolerância.

 

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por Luís Alves de Fraga às 11:48



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