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Fio de Prumo



Quinta-feira, 13.08.15

Os nacionalismos

 

Por nacionalismo podem entender-se duas coisas: a prática ou exercício do sentimento desenvolvido pela nação, enquanto povo que comunga de um determinado sentido de vida, por identificação com um passado comum e desejo de continuidade no futuro; ou a exacerbação desse sentimento levado ao ponto de gerar repulsa pelas outras nações, povos ou culturas. Assim, em si mesmo, o nacionalismo não é um mal, pelo contrário, é um elemento integrador necessário à vida do Homem em sociedade; só se torna pernicioso quando é levado ao extremo, gerando exageros que, genericamente, dão origem ao xenofobismo, ou seja, à repulsa por todos e tudo o que não é pertença do mesmo grupo social.

 

A Europa, enquanto continente (com fronteiras muito mal definidas), foi desenvolvendo nacionalismos, que deram origem a Estados unos ou a Estados nacionalmente plurais. Tenho consciência que o processo político, que conduziu às separações ditas nacionais, passou, quase sempre, pela guerra, de modo a possibilitar a definição dos Estados, unos ou multi-nacionais, sendo que, nestes casos, uma nação exerceu, ou exerce, acção hegemónica em relação às restantes. Esta foi a História da Europa. Uma História que só teve, um final aparente, depois de 1945, ou seja, há exactamente setenta anos. No plano do estudo dos acontecimentos ao longo do tempo, estes setenta anos são exactamente nada! Por muito que a aceleração tecnológica nos faça sentir em permanente projecção para um futuro só pensável no domínio da ficção científica, a verdade é que as alterações profundas das mentalidades se processam a um ritmo muitíssimo mais lento do que o daquelas. Assim, de uma forma não confirmável por processo científico fiável, direi que poderão haver desfasamentos entre “verdades” sócio-comportamentais e “verdades” políticas e tecnológicas que se medem pela centena de anos, ou mais ainda. Repare-se que, num tempo como o nosso, numa parte do mundo islâmico os não crentes são, pura e simplesmente, “infiéis” tal como o eram há trezentos, quatrocentos ou quinhentos anos! Isto prova à saciedade que a mutação da mentalidade se processa a uma velocidade muitíssimo mais lenta do que a das aparências tecnológicas. O muçulmano, política e religiosamente empenhado no proselitismo da sua religião, sabe usar o telemóvel e os artefactos de guerra mais sofisticados, mas não admite uma centelha de tolerância que o aproxime daquele que não professa a sua fé.

 

Ora, a velocidade de mutação da Europa das pátrias na Europa da União, não levou em consideração o que acabei de dizer. Ou, melhor, se levou, escamoteou essa informação dos cidadãos para poder, pela via política sem consulta popular, proceder a uma alteração que nos confrontou, de chofre, com um facto consumado. A política deixou-se contaminar pela velocidade das mutações tecnológicas, esperando que, por arrasto ou, por via das abundâncias financeiras e comerciais, houvesse a correspondente mudança nas mentalidades. Os políticos foram optimistas e não estudaram multidisciplinarmente os seus desejos, porque não quiseram ver atrasados os seus planos, ou, simplesmente, por mera ignorância. Foi a actual crise, ou seja, o oposto do sonho político de abundância, quem veio provar que as mentalidades dos povos não se haviam mudado ao ritmo da vontade política e, assim, aqui estão à vista os nacionalismos, no mau sentido do termo, a manifestar-se da pior maneira, seja contra o assalto dos povos africanos à Europa da “abundância”, seja na resolução xenófoba dos desvios financeiros dos Estados membros mais fracos e pertencentes ao euro. A crise actual veio provar que gente nascida depois do final da 2.ª Guerra Mundial ainda professa dos nacionalismos que animaram os seus pais ou avós a combaterem-se com base nas diferenças culturais de há mais de setenta anos!

 

O nacionalismo salazarento, que em Portugal durou quase cinco décadas, outras quase cinco décadas de democracia e de modernidade, não foram suficientes para o fazer desaparecer. E a razão é simples: é que o nacionalismo não nasceu com a ditadura do Estado Novo! Ela simplesmente o exacerbou; o nacionalismo, no caso de Portugal, teve a sua primeira manifestação palpável e comprovada entre 1383 e 1385 quando o reino correu o risco de ser absorvido por Castela. Muitos séculos de História nos foram moldando e mais à nossa forma de ser, de pensar colectivamente e de estar na Península, na Europa e no Mundo. Muito mais cedo do que a França, a Itália, a Espanha, o Reino Unido, a Alemanha e quase todos os Estados dessa Europa, Portugal ganhou uma identidade nacional e, por conseguinte, uma mentalidade colectiva sobre a qual um dia escreverei. A imposição de regras de uma construção política recente é, em certos casos, para todos nós, uma violência que os nossos políticos desprezaram, porque deram ao nacionalismo o significado depreciativo sem cuidarem de perceber aquele que enobrece e se herda do e no colectivo onde se nasceu e se vive.

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por Luís Alves de Fraga às 13:41


5 comentários

De Sérgio Miguel a 14.08.2015 às 12:40

Bom dia.

"Assim, em si mesmo, o nacionalismo não é um mal, pelo contrário,"

Aqui está o problema (um deles) que é a causa pela qual a Humanidade não sai desta condição animal.

O nacionalismo é uma das causas principais para a DIVISÃO! E se há DIVISÃO, existe CONFLITO (GUERRAS)!

Existindo conflito não existe Humanidade!

Basta até verificar os milhões de pessoas que devido a isto "... e comprovada entre 1383 e 1385 quando o reino correu o risco de ser absorvido por Castela." se mataram desde então!

E esta é a REALIDADE que tivemos, temos e teremos... Afinal de contas pelos vistos a maioria continua a considerar que "o nacionalismo não é um mal"!

Abraço

De Luís Alves de Fraga a 25.08.2015 às 15:05

Como jogo de palavras o seu raciocínio não está mal. Todavia, ao tentar produzir um silogismo, errou na conclusão, porque errou numa premissa: conflito nem sempre é guerra e nem sempre é destruição. Conflito é todo e qualquer desacordo que gera oposição, tendo em vista alcançar ou negar ao oponente um objectivo mais ou menos bem definido. Assim, há conflitos nas famílias, sem, contudo, haver mortes, tal como os há na condução política dos Estados. Ora, o oposto ao conflito é a cooperação e para existir cooperação tem de haver confluência de objectivos. Quanto mais limitados e concretizados e concretizáveis forem os objectivos a alcançar mais possível é a cooperação. Deste modo, velhos nacionalismos só conseguem cooperar se os objectivos comuns satisfizerem ao máximo de elementos que dão sentido à nação. A CEE de sete, ou a CEE de nove, ou a CEE de onze era possível, porque o número de nacionalismos não era excessivo e os objectivos eram poucos e estavam bem delimitados. A União Europeia e a união monetária geraram uma ampliação de objectivos nos quais estão alguns que dão origem a divergências que apontam ao surgimento de conflitos (note, não são guerras!) quase insanáveis e, por isso, incapazes de, sem mal estar social, gerarem cooperação.
Um abraço.

De Sérgio Miguel a 25.08.2015 às 23:30

"conflito nem sempre é guerra e nem sempre é destruição."

Infelizmente este não é o meio apropriado para debater estes temas! Pois um desvio não pode ser corrigido em tempo útil!

O exemplo que dei entre parêntesis - GUERRA - é uma manifestação última do conflito que começa na relação entre duas pessoas!

A realidade, no entanto, mantêm-se: divisão gera conflito! Se se morre ou se se destrói algo de forma não letal, isso não retira a qualidade intrínseca da divisão.

E voltando ao tema dos nacionalismos, estes são uma fonte de divisão, logo de conflito.

Depois se o oposto do conflito é, segundo o senhor, a cooperação, então ela própria é divisão, pois é apenas uma reacção - oposta - ao conflito.

Continuação.

De Luís Alves de Fraga a 28.08.2015 às 11:48

Caro Senhor,

Mais uma vez está a partir de um pressuposto errado: divisão gera conflito!
Quem lhe garante isto?
A divisão não é por si mesma geradora de qualquer conflito. Só o será se existirem objectivos que se pretendem alcançar através da divisão. E esses objectivos têm de ser contundentes com os da outra parte, pois, se não se interceptarem a divisão limita-se a ser uma separação. Isso acontece com as entidades políticas - Estados, por exemplo - e com as pessoas! Note, por exemplo, que Portugal deu independência às suas colónias e, ao dividir-se, não entrou em conflito com os poderes políticos dessas mesmas colónias. Repare, por exemplo, nos casais que se separam (caso de uma divisão) e continuam a relacionar-se sem conflito.
A cooperação não é uma divisão, como pretende. É, pelo contrário, uma união permanente ou temporária de objectivos semelhantes ou, até, iguais.
A cooperação, por ser o oposto ao conflito, não é uma reacção; é um estado relacional, do mesmo modo que o é o conflito.

Julgo que, em complemento dos seus estudos filosóficos, terá de desenvolver estudos no âmbito das Ciências Políticas e no da Psicologia Social, porque as relações pessoais ou internacionais não são dicotómicas, não são ou a preto ou a branco; admitem gradações cromáticas, que a sua postura neste diálogo deixa antever não existirem para si.

De Sérgio Miguel a 30.08.2015 às 11:49

"Quem lhe garante isto?"

Meu caro, basta olhar em seu redor!

Nem sequer vou comentar o seu exemplo das "colónias" pois considero-o carregado de um nível de ilusão absolutamente extraordinário.

Continuação.

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