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Fio de Prumo



Quarta-feira, 19.02.14

O mundo e nós ou nós e o mundo?

 

Pode parecer mera formalidade retórica a pergunta que escolhi para título, mas, na verdade, não é! E vejamos porquê.

 

Quando pensamos “o mundo e nós” estamos a dar claramente mais importância ao mundo do que a nós. Isto é, dissolvemo-nos no mundo, achamos que é este quem merece a nossa primeira atenção. Quase se poderia dizer que “vivemos” e “existimos” em função do mundo, que estamos subordinados à opinião do mundo sobre nós. É uma atitude de prevenção, de expectação, de receio, de quase incapacidade.

Duvidam os que me lêem? Pois tomem em consideração a forma como muita gente se comporta, na vida corriqueira e quotidiana. Reparem em frases que são ditas com naturalidade:

- Que vão pensar de mim? Não posso ir para a rua assim vestido! Eles sim! Eles são sábios e importantes! Repara em Fulano e em como ele se veste e se comporta!

 

Todo este conjunto de meros exemplos põe em evidência que quem faz tais afirmações coloca antes da sua importância a importância do “mundo”, dos outros; a sua vida está condicionada pela vida alheia e, acima de tudo, pelo julgamento dos outros. “O mundo e nós” é, afinal, uma forma de estar sem personalidade na vida. E a personalidade é individual, mas também é colectiva! Os povos, as nações, têm uma personalidade, uma forma de viver que lhes é característica e que resulta de factores de ordem cultural, ou, se se preferir, de ordem sociológica ou, ainda, de ordem hereditária – uma hereditariedade social.

 

Quando pensamos “nós e o mundo” todo o anterior panorama se inverte. Temos a segurança de arrostar com opiniões que não nos molestam, porque damos mais importância à nossa maneira de estar e de ser do que ao julgamento alheio. O “nós” prevalece sobre os outros e impõe-se aos outros. É uma forma de mostrar uma personalidade forte, inabalável e, até, inalterável; é a postura de quem sabe o que quer e para onde deseja ir. É a atitude dos poderosos, mesmo que não alardeiem o seu poder, pois ele reconhece-se no seu comportamento. É o “quero lá saber que pensam ou dizem de mim!”

 

Ora, se olharmos para nós, os Portugueses, onde nos encontramos nos limites definidos pela pergunta que dá título a este apontamento?

Têm dúvidas os meus leitores? Eu não as tenho!

Desde a preocupação com o que vestimos até ao automóvel que temos, passando pela habitação, colégio onde estudam os nossos filhos e outras tantas pequenas grandes coisas, nós vivemos para o mundo! São poucas as excepções!

E vivemos para o mundo, porque temos de nós mesmos uma fraca opinião disfarçada pelas “aparências” com que tapamos as nossas inseguranças. E isto somos nós Portugueses! Temos de ter sempre alguma coisa que é maior ou melhor do que os restantes Estados da Europa ou do mundo! Temos de ter a “capa” de brocado que esconde dos olhos alheios a miséria e a magreza que nos consome! E por isso, há, até no nosso ensino mais elementar, uma componente de versatilidade cognitiva que não é, de todo, apanágio de muitos povos e muitas nações. Quando aprendemos língua inglesa temos de a saber usar melhor do que os restantes; aprendemos história do mundo, geografia geral, capitais da Europa e rios dos diferentes continentes, sabemos muito de “cultura geral” e quase nada de nós mesmos! E os “broncos” são os Americanos, os Chineses, os Ingleses e tantos outros que “se conhecem” e desprezam o saber sobre os restantes, sobre a “nossa” “cultura geral”!

 

É esta dependência do julgamento alheio que nos tolhe a vida doméstica e a vida internacional! Chauvinismo, pensarão alguns dos meus leitores! Pois, talvez! Mas um chauvinismo que tem de começar por “dentro” para ser capaz de se afirmar para “fora”! Temos de depender menos da opinião dos outros, do “mundo”! Temos de ser capazes de nos afirmarmos individual e colectivamente sem receio das diferenças, sem receio dos julgamentos. Só assim seremos nós. Um nós do tamanho da nossa História! Mas para que saibamos ser nós, temos de começar por nos conhecermos nos nossos defeitos, nas nossas inseguranças, nas nossas falhas.

Seremos capazes?

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por Luís Alves de Fraga às 20:48



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