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Fio de Prumo



Quarta-feira, 23.12.15

O excesso de atrevimento

 

O Prof. Doutor Cavaco Silva para além de se mostrar ignorante em variadíssimos campos do saber — o que não envergonha ninguém, quando se admite ter falhas, enganar-se ou ter dúvidas — é profundamente atrevido em bastantes das afirmações que faz. Hoje, lá veio mais uma. Ora atentemos.

 

Algures, numa das suas derradeiras andanças pelo país, disse, numa descarada crítica ao actual Ministério, que não se pode governar durante muito tempo em concordância com as ideologias políticas, porque, mais tarde ou mais cedo, se tem de cair na realidade dos factos e governar com pragmatismo.

 

É dos pensamentos mais absurdos por mim ouvidos ou lidos! Tão absurdo que, arrisco-me a dizer, se um aluno do curso de Relações Internacionais, da minha universidade, o expressasse eu imediatamente o reprovava com nota muito baixa!

Então o homem atreve-se a admitir que um Governo exerça a sua actividade fora de uma ideologia política! Mas que cavalidade é esta?

 

Se toda a actividade de qualquer ser humano adulto e consciente, por muito isenta que seja, por muito neutra que se afirme, está sempre engajada a uma ideologia política, porque, objectivamente, ela se encaixa num padrão de comportamento definido numa atitude identificável como sendo matricialmente própria de um ideal social, como é que o Presidente da República se atreve a fazer a afirmação que fez? Só um ignorante a pode expressar! Nunca um professor de Economia doutorado na Grã-Bretanha! O que é que ele estudou de Economia Política? O que é que ele estudou de História das Ideologias Políticas? O que é que ele aprendeu de Sociologia Política? O que é que ele aprendeu, afinal?

 

Será assim tão difícil perceber que a “realidade dos factos” é determinada e tem por trás uma ideologia política?! Ou ele pensa que só há ideologias políticas quando se fala da metade esquerda do hemiciclo parlamentar?

Eu não quero acreditar que este homem deu aulas em universidades com renome nacional!

 

Claro que estou a tentar imaginar alguns dos meus leitores a interrogarem-se sobre essa história de todos nós estarmos engajados a uma ideologia política! Muitos dirão, jurarão a pés juntos, que não estão nem nunca estiveram ligados a nenhuma, qualquer que ela fosse. Pois, é verdade o que dizem, mas é, também, e paradoxalmente, mentira!

Um Homem em sociedade não é o que diz que é, nem pertence àquele grupo que diz que pertence! Um Homem em sociedade é aquilo que faz independentemente daquilo que diz que é! Essa é a objectividade política!

 

No meu passado militar eu fiz parte, objectivamente, de um aparelho repressivo do fascismo e integrei um dos pilares de sustentação do Estado Novo e fiz a guerra colonial do lado dos colonizadores, só porque optei por ser oficial das Forças Armadas do Portugal de então. Mas eu declarava-me oposicionista ao Estado Novo! Até agia como se fosse, todavia, servia uma das máquinas que o mantinha de pé. Mas quando, conscientemente optei por aderir ao Movimento das Forças Armadas e assumi comprometimentos que me identificavam como um militar democrata eu fui democrata e, ao sê-lo, eu escolhi comportar-me de determinado modo que me passou a identificar perante os outros militares e a sociedade.

É assim que podemos dizer que o Presidente da República se pode afirmar democrata e isento, mas, na prática, ele não é nem uma coisa nem outra!

Assumamo-nos naquilo que somos através daquilo que fazemos e não por aquilo que dizemos que somos. E, assim sendo, temos um Presidente da República profundamente ignorante.

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por Luís Alves de Fraga às 10:44



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