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Fio de Prumo



Segunda-feira, 01.06.15

Mudança de paradigmas

 

Na sexta-feira, entre outros assuntos, numa aula que dei, abordei como tema de “arranque” “o longo século XIX”. Longo, porque, embora tendo os mesmos cem anos que todos os anteriores e posteriores, se pode delimitá-lo antes de 1801, tal como dá-lo por findo quase vinte anos depois de 1900. Na verdade, para lhe gerar uma coerência lógica do ponto de vista de um tempo de mudança, poder-se-ia dizer que o século XIX começou em 1789 e acabou em 1918. Teve início com a ruptura, em França, do absolutismo real — que se espalhou logo depois a quase toda a Europa — e findou quando acabou a Grande Guerra, no momento em que o confronto entre a concorrência capitalista e nacionalista atingiu o clímax com a destruição da sua “lógica”.

 

O século XX nasceu lentamente com sucessivas mutações do modelo demoliberal, procurando a conciliação, através de dar protagonismo económico a um actor político — o Estado — que antes só existia para regular a liberdade individual no somatório que lhe dava uma aparência colectiva. E foi preciso ir ao cerne do conflito social e político para “inventar” soluções que pusessem fim ao mais importante confronto do século XIX: a oposição entre o capital e o trabalho.

 

Na Rússia o problema foi “resolvido”, ainda em 1917, com a socialização dos bens de produção. “Matou-se” o capital e criou-se uma “nova democracia”!

Na Itália, na imediata sequência da Grande Guerra, deu-se ao Estado um papel de “juiz”, gerando-se, também uma “nova democracia” assente no princípio corporativista.

Nos Estados Unidos da América, na tentativa de recuperar de uma das crises cíclicas do capitalismo deixado à solta, aceitou-se que ao Estado cabia a obrigação de ser o mais importante agente económico, regulando a liberdade do mercado através do ânimo corrector da procura para animar a produção.

Nos países da Europa do Norte coube ao Estado um papel de “redistribuidor” do lucro do capital através de elevar as taxas fiscais para as aplicar em serviços públicos que encaminhavam para a comunidade nacional benefícios nunca antes possíveis de alcançar — em vez de se socializar os bens de produção socializaram-se as partes achadas justas dos lucros do capital.

 

Estes novos paradigmas de democracia sobreviveram — em alguns casos — até depois do final da 2.ª Guerra Mundial, provando duas coisas em simultâneo: a) os políticos ainda controlavam os mecanismos necessários ao exercício da política; b) a finança, embora tendo ultrapassado os limites das fronteiras nacionais, temia os modelos democráticos nascidos na sequência da Grande Guerra.

Este século XX, ao invés do seu antecessor, foi muito mais curto, pois, na minha opinião, acabou em 1989 com a queda do muro de Berlim e a subsequente implosão da União Soviética. Lentamente começou a ser corroído o paradigma democrático sobrante até que o capital, agora já sem limitações fronteiriças ou preconceitos nacionais, passou a dominar em absoluto a política, obrigando os políticos ao exercício de um novo modelo de democracia, que só por mero acaso tem algo de semelhante ao anterior. O novo paradigma democrático tem um nome: globalização.

 

Todos os desconchavos, a que assistimos nos Estados com tradições democráticas mais ou menos longas, resultam do esvaziamento dos suportes ideológicos da democracia — cujo “enchimento” se havia começado a fazer durante o longo século XIX — para possibilitar entendimentos entre “famílias”, até há algumas dezenas de anos, incompatíveis.

Estamos num tempo de reequação e de reinvenção de novas ideologias políticas que definam, tal como aconteceu no pós longo século XIX, novos paradigmas democráticos de oposição ao modelo determinante da globalização. Os movimentos “inorgânicos” que se apresentam a disputar votos aos tradicionais partidos políticos traduzem o retrato daquilo que acabei de expor.

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por Luís Alves de Fraga às 00:53



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