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Fio de Prumo



Terça-feira, 12.05.15

Guerra-fria, Economia e Mercado de consumo

 

Certamente os mais avançados na idade recordam o que foi a Guerra-fria, mas, para que todos partam em pé de igualdade, quanto a esta questão, vou explicar com a maior brevidade possível de que se tratou.

 

Finda a 2.ª Guerra Mundial a União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS) saiu mais fortalecida do conflito do que os Estados da Europa quase arrasados pela necessidade de reduzir a nada o poder da Alemanha nazi. O desmantelamento económico grassava por todo o Velho Continente. No outro extremo da situação estavam os Estados Unidos da América (EUA) que, por não terem sido alvo de qualquer ataque no seu território, mantinham uma economia saudável, principalmente estribada na indústria de armamento (é conveniente recordar que nesta indústria não basta fazer só carros de combate ou aviões ou submarinos, porque há todo um conjunto de artigos subsidiários que concorrem para pôr em funcionamento os artefactos bélicos e que são rentáveis e dão trabalho a muita gente). Por seu turno, a URSS tinha estendido a sua esfera de influência, na Europa, muito para além das fronteiras da imperial Rússia, facto que a colocava, no plano geoestratégico, em situação de poder ocupar os Estados capitalistas de modo a conseguir chegar aos portos do Atlântico, quiçá ao Canal da Mancha. Mas a URSS, tendo, tal como os EUA, um imenso parque industrial de fabrico de armamento, estava, tal como o resto da Europa, incapaz de produzir para satisfazer as necessidades da população dos Estados que a integravam.

Porque a Europa representava um grande vazio estratégico capaz de ser ocupado com relativa facilidade, os EUA temeram que a URSS pudesse ser tentada a prolongar o conflito militar e, como acção dissuasora, associando os Estados democráticos do Velho Continente — com exclusão de Portugal, que, era sabido, vivia em ditadura — formaram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a qual funcionava como aliança defensiva contra qualquer ataque da URSS. Mas, o que é para uns defensivo é, para outros, ofensivo e foi assim que a URSS liderou a formação de uma aliança militar defensiva, designada Pacto de Varsóvia.

Criaram-se, sem maior fundamento do que a desconfiança mútua, duas máquinas de guerra preparadas para travar, no solo europeu, um conflito de dimensões infernais. Foi a este conflito latente, dissuasor para ambos os lados, que se deu o nome de Guerra-fria.

 

Até aqui ativemo-nos aos factos. Tentemos ir um pouco mais longe, de modo a compreendê-los.

Do ponto de vista económico a situação criada e vivida na Europa era de extrema conveniência para o EUA, porque, mantendo a indústria armamentista em funcionamento, mantinha altos níveis de emprego, de consumo e de bem-estar já que tudo isto se fundamentava nas capacidades das famílias comprarem o que o mercado lhes oferecia. E o mercado americano estava em alta na viragem dos anos quarenta para os anos cinquenta do século passado. De um modo geral, os cidadãos viviam bem e em prosperidade. A guerra da Coreia justificou a doutrina de prevenção e dissuasão pensada no Pentágono, na medida em que, sendo um prolongamento da 2.ª Guerra Mundial, continuava a manter de pé a economia dos EUA. O capitalismo florescia no seu máximo esplendor ao mesmo tempo que, com o Plano Marshall, se reabilitava a Europa para a produção e, acima de tudo para o consumo, pois é importante fixar que a economia dita de mercado se fundamenta e sustenta na e pela capacidade de consumo das famílias. Ainda havia espaço para se continuar com a expansão do capitalismo concorrencial.

 

E do lado da URSS? Aqui tínhamos iguais razões para manter a funcionar a indústria de armamento para garantir a tendência para o pleno emprego, mas, como a economia se pretendia planificada e, por conseguinte, satisfazendo as necessidades hierarquizadas das populações, havia que dosear cautelosamente o esforço entre o que se dedicava à segurança e o que se impunha produzir para manter as famílias e a sociedade em paz e de bem com o sistema político. Ou seja, enquanto no lado capitalista existia uma certa coerência entre política externa e interna — a indústria de guerra servia aos propósitos do bem-estar interno — na URSS a indústria de guerra configurava uma economia não planificada de matriz capitalista em claro detrimento do bem-estar que só se justificava na base da planificação económica para dar crédito aos princípios doutrinários e ideológicos do socialismo. Dito por outras palavras, na URSS tinham de coexistir, por força da existência de um mecanismo militar de dissuasão, uma só ideologia e dois sistemas: o capitalista, para possibilitar a continuidade da política externa, e o socialista, para a fundamentar a ordem interna.

O problema mais agudo de todo este cenário é que, tanto o Ocidente capitalista como o Oriente socialista, se debatiam e confrontavam em teatros secundários de guerra, procurando ultrapassar-se de modo a impor a ideologia política dominante. A Terra passou a ser um grande tabuleiro de xadrez onde todas as jogadas visavam salvaguardar o rei e a rainha respectivos.

A lógica socialista, no plano externo, era, efectivamente, capitalista, porque procurou responder dialecticamente à progressão da sofisticação do armamento capitalista e, também, aos desafios geoestratégicos que os EUA iam lançando através do aumento da sua rede de influência na Terra.

Esta lógica da sofisticação armamentista, desenvolvida pelos EUA na sequência da efectiva lógica capitalista — aumento até ao infinito da capacidade produtiva através de um consumo cada vez maior, para garantir a subsistência do sistema e o lucro maximizado do investimento — conduziu a que existisse uma décalage entre os artefactos bélicos investigados e produzidos, de tal modo que a obsolescência fosse a resposta futura para garantir uma produção que se desejava constante. Dito de outro modo, a uma aeronave de combate de última geração correspondia a existência de planos e estudos que a tornavam velha mal houvesse uma resposta dialéctica do lado soviético, fazendo que, também esta, fosse obsoleta perante o novo modelo já colocado em linha de montagem. Realmente novo era o que ainda não se estava a produzir.

Perante um quadro desta natureza, a breve trecho — e tudo dependia da capacidade de negação dos princípios ideológicos — a URSS estava condenada a ruir, pois só a igualização de sistemas políticos poderia permitir uma concorrência mais prolongada. O anúncio da, então, designada Guerra das Estrelas foi o último passo a que Moscovo já não conseguiu dar resposta, porque, por causa da corrida armamentista de matriz capitalista, havia descurado o desenvolvimento do bem-estar e do consumo internos. A Perestroika, a queda do muro de Berlim e tudo o mais que se seguiu vieram confirmar a derrota da URSS por via da impossibilidade de coexistência de uma ideologia e dois sistemas. A Guerra-fria ia acabar para o mundo, mas iam começar a fazer sentir-se, noutros planos, as lições que dela se tiraram quanto à exacta condução do fenómeno económico.

 

Com efeito, estava a delinear-se a implosão da URSS e já, no Ocidente, começava a despontar a indústria electrónica ao serviço do pequeno consumidor. Foi o aparecimento dos Personal Computers (PC). Com eles, nos anos oitenta do século passado, e com todos os equipamentos que integraram o microchip, nasceu uma nova dialéctica de mercado: a da obsolescência antecipada. A mesma que havia sido usada com grande sucesso na Guerra-fria. E, tal como para o grande conflito militar que nunca houve, os efeitos foram multiplicadores, quando se transformaram os mecanismos da propaganda em mecanismos publicitários de alta eficiência. Tudo se foi buscar à Guerra-fria com as devidas adaptações: conceitos estratégicos, agora aplicados ao mercado, à concorrência, à gestão e aos consumidores; o marketing como expoente do conflito individual entre o desejo de comprar e a anulação da vontade de não entrar no jogo; e, acima de tudo, a obsolescência antecipada e programada. Os bens não são para se terem, mas serem consumidos. E, se tudo isto definiu um novo tipo de produção, definiu também, um novo tipo de consumidor: aquele que trabalha até à exaustão para poder usufruir de um bem que, por vontade do fabricante, o vai atraiçoar, porque, ou deixa de trabalhar ou se torna insuportável, pois está fora dos padrões do uso moderno.

A Guerra-fria fez de cada um de nós uma URSS minúscula sempre à beira do colapso financeiro para conseguir gerir o conflito dialéctico entre o consumo e a poupança.

 

P.S. – Para ter valia científica e não passar de uma mera opinião pessoal, estas páginas deveriam conter referências várias a vários autores e, no final, incluir uma mais ou menos significativa bibliografia, mas como são o fruto das minhas reflexões, das minhas análises da realidade que conheci, dispenso-me de toda essa parafernália, que aconselho aos meus alunos quando ainda são jovens e não possuem experiência nem de vida nem de investigação.

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por Luís Alves de Fraga às 13:47



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