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Fio de Prumo



Quinta-feira, 19.11.15

Falar verdade

 

Vamos lá falar verdade quanto à demora da nomeação de António Costa para a formação de Governo. Vamos falar verdade, porque é preciso.

 

Se o Partido Socialista aceitasse dar todo o apoio à coligação, tudo estaria resolvido há muito. E porquê? Porque, admitia-se, o PS seria um partido de afirmação de esquerda e de prática de direita! Essa é a verdade! Não interessa se é concordante com a continuidade de Portugal na OTAN nem na União Europeia! Isso são tretas! E são tretas, porque sendo o PCP e o Bloco de Esquerda adeptos dessas ideias de exclusão são, enquanto partidos políticos, plenamente aceites no parlamento europeu e elegem deputados para ele. Assim sendo, a EU aceita no seu seio os discordantes da sua existência. Então, o problema não é externo a Portugal; é, claramente, interno!

 

E o que determina a demora de Cavaco Silva? O receio atávico, primário, dos comunistas! Ele, o Presidente da República, tal como Jardim o foi na Madeira, e outros dinossauros ainda vivos, são a continuação da cultura salazarista, fascista que nos era inoculada desde a instrução primária até à conclusão dos estudos, prosseguindo, depois, pela vida fora através da propaganda nacionalista, que dava dos comunistas uma imagem antipatriótica por obedecerem a Moscovo — claro que Portugal, na sua História recente, nunca obedeceu a nenhuma outra capital estrangeira!... Oh que falta de visão! — e por serem anticlericais.

 

A cultura ou, se preferirem, a mentalidade fascista e salazarista ainda se reproduz em muitos lares, em muitas instituições, em muitas igrejas, em muitas escolas, porque é um “bichinho” que só se mostra em determinados momentos muito precisos. Mas que é insidioso, manhoso, cínico e cauteloso, usando de uma linguagem apelativa e, aparentemente, racional.

Não se trata de confundir conservadorismo com fascismo! Não, nada disso! Há conservadores que não são nem fascistas nem salazaristas, porque aceitam e apoiam a existência dos comunistas! Isso não os incomoda, porque vêem claramente visto que o PCP, embora afirmando-se contra adesões que considera erradas — e tem todo o direito de achar — entra e aceita o jogo democrático.

 

Volto à carga com a minha argumentação. O que não se fez em quarenta anos de democracia foi extirpar por completo a mentalidade fascista e salazarista da sociedade portuguesa. Não está morta, porque os partidos políticos assumiram como mais importante a luta pela sua afirmação entre os Portugueses, conquistando adeptos como quem conquista sócios para um clube de futebol, do que, todos unidos à volta da ideia democrática de Democracia (e a repetição é propositada), imporem uma cultura democrática que se iniciasse na escola e se prolongasse pela casa paterna, do mesmo modo que o fascismo o fez durante os mais de quarenta anos de existência em Portugal. Esse foi e é o erro nacional que nos desmerece da democracia.

Cavaco Silva é o símbolo vivo dessa continuidade fascista de uma mentalidade que não morreu e se prolonga, até, em gente bastante nova e que, não tendo vivido no Estado Novo, conviveu com o “Estado Novo” sobrevivente em casa, na Igreja e, até, nas escolas e empregos. Matar esse “monstro”, que toma conta da nossa maneira de estar na vida e de nela nos comportarmos, é uma tarefa não impossível, mas demorada e exigente de atenção.

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por Luís Alves de Fraga às 10:28



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