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Fio de Prumo



Sexta-feira, 23.09.16

Emprego e trabalho

 

Há já alguns anos ando a dizer, para quem me quer ouvir, que os empregos, hoje em dia, são raros, mas abundam os trabalhos.

 

Se por emprego se entender aquele trabalho que se faz em concordância com as habilitações académicas obtidas, com o gosto pelo que se executa e no qual se entra e do qual não se sai com facilidade, então, isso é, em Portugal, cada vez mais raro.

Entre nós, embora se diga comummente que não, ainda há muito trabalho! Porque trabalho é diferente de emprego. Trabalho é alguma coisa onde se aplicam as nossas capacidades intelectuais e ou físicas para se ganhar dinheiro e que se espera mudar para onde se alcance melhor remuneração e se esteja mais próximo de ter um emprego.

 

Trabalho é fazer honestamente o que seja necessário para obter pagamento. E trabalho é coisa que ainda há em Portugal e só falta para quem é esquisito e procura, contra tudo e contra todos, um emprego.

 

E as coisas correm mal entre nós, porque temos uma tremenda cultura de vaidade que, ao invés de diminuir, com a democracia aumenta brutalmente!

Vaidade foi o que eu disse, e não volto atrás!

 

Prefere-se um emprego de balcão a atender clientes, sendo mal pago, do que fazer trabalho doméstico melhor remunerado! Prefere-se ficar desempregado a ter de sujar as mãos a lavar ruas! Prefere-se esperar por um trabalho num escritório, mesmo que seja a fazer trabalhos desinteressantes, a servir a um balcão ou à mesa de um restaurante.

É este “prefere-se” que define a vaidade dos Portugueses! Porque importante é o que se diz que se faz e não o fazer seja o que for – honesto – para se ganhar o pão de cada dia! Ser cantoneiro e andar a aparar relva não é trabalho que alguém nascido em casa onde não faltou dinheiro possa fazer! Ser cantoneiro é trabalho para quem nunca passou do quinto ou sexto ano de escolaridade! É para quem nasceu num lar de gente “humilde” e não para quem nasceu “remediado”!

 

É a isto que eu chamo cultura de vaidade! Vaidade é esta coisa de “encher a boca” com títulos académicos ou profissões “bem vistas”! Continuamos, a este nível, exactamente como estávamos no último quartel do século XIX… E para isto contribuiu muito o regime salazarista, a ditadura. A tradição bacoca de antigamente.

Ainda me recordo do tempo em que se tinha de pedir autorização, na tropa, para casar e de publicar, na Ordem de Serviço, coisas como estas:

“Está autorizado a casar-se com a Senhora D. Fulana de Tal o oficial abaixo indicado…”

“Está autorizado a casar-se com a senhora Beltrana o sargento abaixo indicado…”

“Está autorizado a casar com Cicrana o soldado abaixo indicado…”

 

Portugal era assim até há cinquenta anos! Era um país de “nobres” e “plebeus”. A democracia veio revolucionar esta situação… os “plebeus” quiseram ser todos “nobres” e, continuando com a cultura de vaidade, em vez de se premiar o trabalho e o ganhar honestamente o salário, aceita-se e amplia-se disparatadamente o inverso!

 

Só tudo terá mudado quando, em Portugal, o canalizador, o pedreiro ou o carpinteiro chegarem ao fim do dia, e depois de terem tomado o banho e terem vestido fato de bom corte, forem assistir regalados ao espectáculo de ballet, de ópera ou de teatro, ficando sentados ao lado do advogado de sucesso ou do médico em moda. Nessa altura, no nosso país, passou a dignificar-se o labor e não o cargo, o título, ou o canudo. Passou a ter dignidade o Homem!

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por Luís Alves de Fraga às 12:06



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