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Fio de Prumo



Terça-feira, 10.03.15

Educar

 

Perguntava-me, há dias, um jovem amigo o que entendo eu por educar e como é que se educa um filho.

Tentei perceber o alcance daquelas perguntas e se eram um teste à minha experiência de pai ou um genuíno desejo de saber.

 

De facto, não há escolas de pais! Não se aprende a ser pai (e, aqui, incluo a também mãe) como se aprende um ofício! Dizia-me uma psicóloga, há muitos anos, que estes profissionais do conhecimento da mente cometem tantos ou mais erros educacionais do que todos aqueles para quem as nebulosas do cérebro são insondáveis buracos negros. Podem escrever-se tratados sobre educação de filhos, mas, bem na verdade, o alicerce que serve de fundamento àquilo que se ensina aos nossos descendentes é uma de duas coisas: ou o que nos foi exigido pelos nossos pais ou, por simples movimento de discordância, o contrário disso mesmo. Em regra, ensina-se tal e qual se aprendeu! E, até, com os mesmos “tiques”.

 

Há, contudo, um elemento moderno na educação das nossas proles: a nova forma de vida que a sociedade nos impõe. Tudo é diferente do tempo em que havia amas, educadoras e criadas de servir que cuidavam dos mais novos no seio das famílias abastadas ou, até mesmo, um pouco mais do que remediadas. Hoje, a pressão que o consumo e o suposto bem-estar exercem sobre os progenitores leva-os a transferir para o infantário e, depois, para a escola a acção pedagógica que era desenvolvida, noutros tempos, pelas mães e avós.

 

Mas, e afinal, o que é educar?

Se eu quisesse dar uma resposta com laivos científicos diria que educar é inculcar na criança os valores nobres da sociedade em que vai crescer e viver e, assim, respondia de forma a ser correcto. Contudo, não quero ser correcto e, por isso, digo que educar é antes do mais, impor a capacidade de viver harmonicamente de acordo com os padrões tidos como normais na sociedade onde se está e se vai viver. É dizer a verdade, sempre que for conveniente dizê-la, e mentir ou omitir, sempre que com isso não se traia em excesso a consciência, ou seja, a capacidade de chegar à noite e dormir tranquilo. É ser honesto, sempre que o grau de desonestidade não for passível de ser descoberto. É ser coerente, desde que, da incoerência, não venham mais vantagens. É, numa palavra, ser um ente cheio de aparências capazes de esconder todas as incorrecções e distorções que pululam à nossa volta ou, se se preferir, é ser capaz de se tornar num excelente actor neste teatro de faz de conta onde vivemos. É saber deixar-se ir na corrente determinada pela sociedade sem se arriscar a remar contra a maré a não ser quando daí lhe venha algum proveito.

 

Estou a ser cínico? Estou a afirmar que educar é tudo menos aquilo que supomos que é educação?

Estou, caro leitor, a dizer aquilo que poucos ousam dizer! Porque, sempre que eduquei, o valor mais importante que procurei transmitir foi o de cada um ser capaz de não mentir a si mesmo! Ter plena consciência crítica dos seus actos, sabendo que pode enganar toda a gente à sua volta, mas a única pessoa a quem não deve enganar é a si próprio!

Procedendo assim, quando cada um de nós, sozinho, se olha ao espelho tem na frente a figura horrenda da verdade. E essa horrorosa figura sê-lo-á tanto mais quanto melhor for aceite pelos seus semelhantes. Tanto mais quanto menos a sociedade o criticar. Porque de uma coisa se pode ter a certeza: os heróis tiveram medo, os honestos também roubaram e os santos também pecaram!

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por Luís Alves de Fraga às 01:23



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