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Fio de Prumo



Quarta-feira, 21.06.17

Acordar de repente

Os jovens, pelo menos uma parte com algum significado, acordou de repente para a morte inesperada... Só estavam habituados a ver ou saber da morte de familiares doentes ou idosos. Esses morrem pelas causas "certas" e na idade "certa"! Mas, morrer assim de repente, porque se vai numa estrada e um incêndio tira a vida ou se está a defender os parcos haveres e se morre de mangueirita na mão a verter água para evitar o pior, isso foi novidade para muita gente mais nova!

Claro que o meu coração sangra perante tal catástrofe, claro que lastimo tudo o que aconteceu e está a acontecer, mas... lá vem o mas reticente!

Mas a minha geração, a dos homens com setenta e sessenta e tal anos, começou a ver morrer de forma brutal os seus amigos muito jovens, tão jovens como éramos na altura, durante a preparação para a guerra e durante a guerra. Para mim, foi o camarada que se atirou para um lago de água fria e morreu de choque hidrotérmico, em manobras militares, o companheiro de vários anos que morreu esmagado entre dois camiões militares, isto ainda nem chegáramos a África e, depois, em teatro de operações, foi a notícia de "lá ficou Fulano", "lá se finou Beltrano" e "desta vez foram dois ou três... lembras-te daquele moço, bom rapaz? Morreu". Todos os meses, alguém nosso conhecido ou amigo, ficava sem vida "fora do tempo de morrer"... porque também se julgava, antes, que só se devia morrer de idade ou doença!
É por isso que olho para toda esta desgraça e só me sai da boca uma frase, que parece feita, mas resulta de uma vida semeada de mortes: "É o destino! Tinha de ser!"

E há jovens que se revoltam quando me ouvem! Lastimo-os. Não estão preparados para a vida. A minha geração teve de se preparar muito jovem! Teve de saber olhar para as macas, os sacos de transporte de mortos, para os caixões e ir vivendo com uma certeza: hoje era aquele, amanhã poderíamos ser nós. A mim, ainda que não queira morrer, isso deu-me tranquilidade para saber esperar pelo meu momento.

Paz a todos os que partiram tragicamente e resignação aos que ficaram para aprenderem a viver com a dor e a saudade, porque... isso também se aprende.

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por Luís Alves de Fraga às 09:30



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