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Fio de Prumo



Sexta-feira, 25.12.15

A minha carta de Natal

 

Em casa dos meus Pais, quando eu era garoto, não se falava em Pai Natal. Fazia-se um presépio, pequeno e pobre, e as prendas, enquanto acreditámos em histórias de Natal, quem as dava era o menino Jesus.

Hoje fala-se no Pai Natal e as crianças escrevem-lhe a pedir prendas. O comércio floresce nesta altura, porque quem pode gasta dinheiro, e mais dinheiro, a comprar ofertas, que já se não põem no sapatinho, mas na árvore de Natal, compra-se tudo o que faz falta e tudo o que é inútil. E o menino Jesus fica relegado para segundo plano e só é lembrado em lares tradicionais. Cresceu, já não é menino, e trabalha atrás de um balcão a vender, se calhar numa loja cujos proprietários são chineses.

Tenho saudades do menino Jesus da minha infância. Assim, hoje, resolvi escrever-lhe uma carta. Não vai para o Pai Natal, não! Vai para o menino Jesus. E vou escrevê-la já e aqui.

 

Menino Jesus,

 

Não te escrevo em tom cerimonioso, nem usarei as habituais maiúsculas ao mencionar-te. Vou tratar-te como um igual a nós. Não devia ser assim, eu sei! Mas apetece-me sentir-te só um menino capaz, depois de ter crescido, de fazer milagres — gostei sempre do das bodas de Canã e do do cego e o do do morto. Olha, acho que gostei de todos os milagres.

 

Eu sei, aos trinta e três anos, morreste pregado numa cruz, segundo a tradição romana (dizem que não pregavam, mas amarravam… a ti pregaram-te e saibamos nós a razão dessa diferença!). Mas, sempre me fez confusão o facto de nenhum historiador do Império te ter referido nas crónicas de Jerusalém! Nem uma palavra… Contudo, outros historiadores, os que te seguiram, deixaram relatos da tua vida pública. Se calhar, só contaram o que lhes interessou, deixando no vazio histórico muitas mais coisas interessantes de se saber. Por isso, há anos atrás, começaram a ficcionar a tua vida e a reescrevê-la. Acho que não perdeste nada com isso… só ganhaste, pois, cada vez que falam de ti, prova-se que não estás esquecido.

 

Não te escrevo para contar coisas que, quase pela certa tu já sabes! Não. Escrevo-te para te interrogar sobre tudo aquilo que tu sabes, mas não nos explicas. Deixas, simplesmente, que aconteça.

A minha opinião sobre isso não te interessa para nada, todavia, permite que te diga algo de que não vais gostar:

Mesmo sendo quem és, às vezes, comportas-te como um grande sacripanta!

Eh, tem calma! eu explico-me melhor.

 

Mas que raio de diferença estabeleces tu entre a falta de vinho nas bodas de Canã e a miséria de água em tantas terras do interior de África e a fome sentida por trabalhadores explorados, que “dão no duro”, por esse mundo fora?! E já não falo nas mortes provocadas por uns fanáticos que, em nome do teu pai, mas invocado em árabe, acontecem em tantos pontos do Médio Oriente e, também agora, na Europa e, parece, em 2001, nos Estados Unidos da América?! Porque é que foste curar o filho do centurião e deixas que morra sem tratamento tanta gente?!

 

És, ou não és, um sacripanta quando não usas de todos os teus poderes para demonstrar que existes ainda e, de combinação com o teu pai, salvares agora, como podias ter salvo, no passado, uma porrada de malta?!

Na minha opinião és um sacripanta — sim, como diz o dicionário, pessoa de mau carácter, desprezível, hipócrita — pois podias fazer alguma coisa por todos nós e não fazes!

 

Ah, já sei! Queres que a malta aprenda com os erros, para nos emendarmos!

Também não está mal pensado!

Mas, diz-me lá, achas que esta cambada de gananciosos, de “vendilhões” iguais aos expulsados por ti do templo, são capazes de, por amor de ti, entenderem-se entre eles para que não nos matemos, não morramos à fome, de doenças desnecessárias, de sede, de explosões e de guerras?! Se tu achas tal, és muito mais ingénuo do que eu pensava!!!! E à pala da tua ingenuidade vamos morrendo sem sabermos, quase sempre, porquê! E, assim deixas-me na dúvida se és sacripanta ou ingénuo.

 

Olha, menino Jesus, eu sei que sou um Zé Ninguém ao pé de ti — se eu acreditar nos historiadores que contaram a tua história —, mas, neste Natal, com esta carta, quero fazer-te um só pedido: Cresce e Aparece.

Se cresceres, passas a ser muito mais poderoso do que és e se apareceres há por aí muitos, mas mesmo muitos gajos que se vão borrar pelas calças abaixo e desatam a fazer o bem em vez da merda que sempre fizeram!

 

Menino Jesus, porra! Cresce e Aparece!

Um grande abraço, porque, cá no fundo, pensando bem, acho-te, não um sacripanta, mas um ingénuo que tem passado a vida a lixar-nos para ver se aprendemos.

Um grande abraço e até qualquer dia — vê lá se não é assim tão cedo depois de te ter dito algumas verdades que muitos pensam, mas não escrevem —, pois gostava de continuar a ver no que tudo isto vai dar!

Não ponho no correio, porque, segundo dizem, tu já sabias que eu ia escrever o que acabei de escrever!

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por Luís Alves de Fraga às 23:34



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