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Fio de Prumo



Quinta-feira, 09.10.14

A dúvida

 

Estava a ler uma entrevista antiga feita a Maria José Nogueira Pinto e percebi que ela era, de facto, uma democrata-cristã e que fazia do CDS a sua "casa de abrigo" ideológica. Era uma mulher politicamente de direita, mas de uma direita cuja filiação se fixava na doutrina social da Igreja Católica. Era, é, por aí que se resolviam(vem) os problemas dos Portugueses? Julgo que não! Contudo, a ideologia democrata-cristã, no seu apogeu, não me repugna, porque toma o Homem como centro de todas as preocupações políticas e pretende conciliar opostos sem que se façam rupturas. Recordo-me que, na Alemanha do pós-guerra, na Alemanha do pós-Hitler, na Alemanha do pós-holocausto, o partido que conduziu aquela gente à normalidade, tirando-a do pesadelo da Gestapo, das SS e da ditadura nazi, foi o democrata-cristão. A democracia-cristã tinha um programa e um objectivo.

Maria José Nogueira Pinto, Adriano Moreira e, até, Freitas do Amaral tinham um programa que se fundamentava na visão e no entendimento da vida política segundo um paradigma cristão.

 

Mário Soares, socialista, dizia-se, com influências marxistas, congelou e guardou o marxismo e passou a focar a ideologia socialista num modelo que se dizia humanista. Foi o primeiro a despir o PS da sua componente ideológica mais ou menos credível. Tinha, teve e tem medo do marxismo.

Sá-Carneiro queria um PPD que fosse o socialismo sem marxismo, ou seja, uma social-democracia, mas nem conseguiu estabelecer as raízes ideológicas de tal corrente no seu partido, nem tal lhe foi consentido por Mário Soares. Assim o PPD foi o partido da falta de ideologia, de doutrina. Por isso, nele se acoitaram os indecisos, os desgarrados de um salazarismo sem Salazar, os medrosos da própria sombra e, mais que tudo, do comunismo.

 

Álvaro Cunhal foi o homem coerente com a luta de uma vida e com os ideais de um programa e de um partido: fazer a revolução democrática que encaminhasse o povo via ao socialismo... naturalmente marxista e, se necessário, leninista.

 

Portugal, nos anos setenta e oitenta ainda tinha e falava política à luz das ideologias políticas!

E agora? E nos dias de hoje? Os partidos perderam ou perderam-se das ideologias. Todos — já sei que vou ser zurzido pelos comunistas, mas eles sabem que eu tenho razão, embora não possam dizê-lo — não falam na ideologia que os devia alimentar. Claro que os comunistas ainda invocam a luta dos trabalhadores como a bandeira que erguem bem alto, mas a revolução democrática... Bom, essa espera por melhor oportunidade! Mas são, realmente, os únicos que ainda invocam resquícios da sua ideologia para delimitarem o seu combate — um combate que está definido por razões, comandos e linhas que traduzem a negação das ideologias dos restantes partidos.

É essa a razão de batermos palmas às intervenções públicas de Adriano Moreira, por exemplo, de chamarmos troca-tintas a Freitas do Amaral, que se foi deslocando para a posição política que mais próxima podia estar da sua velha democracia-cristã. É essa a razão de colherem aplausos os sindicalistas que são só sindicalistas.

 

Se em Portugal os líderes partidários revisitassem as doutrinas políticas que serviram de matriz à fundação dos seus partidos, se em Portugal houvesse cultura ideológica política que se não confundisse com clubismo, todos os condutores políticos estavam do mesmo lado no combate ao neo-liberalismo, à falta de doutrina política a que a gente da alta finança e mais os seus funcionários de serviço conduziram o país, a Europa e já o globo. Mas todos têm, de alguma forma, as ideologias congeladas ou metidas na gaveta.

Precisamos, como de pão para a boca, do renascimento das lutas ideológicas para que se desmascarem os traidores ideológicos que dão guarida aos senhores do dinheiro.

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por Luís Alves de Fraga às 10:19



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