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Fio de Prumo



Quinta-feira, 07.02.13

Forças Armadas

 

Chegou-me à mão a digitalização de um documento de trabalho com o despacho e directiva do ministro da Defesa Nacional sobre a reforma das Forças Armadas.

Li com atenção. As concepções delineadas traduzem o total desconhecimento do que são e para que servem as Forças Armadas para não falar já do desconhecimento como elas “funcionam” e do que as anima para serem como são. O ministro reduz as Forças Armadas a um conjunto de homens e mulheres que poderiam fazer bolos, fritar farturas, cozinhar sopas ou apagar fogos em prédios urbanos, por exemplo. A única lógica que se descortina em todo o documento – e são dois, um sobre o conceito de reserva – é a ânsia de poupar dinheiro a todo o custo!

O ministro da Defesa Nacional desconhece o mais elementar sobre Forças Armadas e Defesa: é que há um limite abaixo do qual as Forças Armadas não servem absolutamente para nada a não ser para gastar dinheiro e “enfeitar” algumas cerimónias do Estado. Esse limite está já ao alcance da mão, se se levar por diante o disparate que o ministro determina.

Sei, há mais de sessenta anos, que muita gente em Portugal contesta a necessidade da existência de Forças Armadas. Esses sabem do “assunto” um pouco menos do que o ministro. Não é para esses que eu escrevo. Escrevo para aqueles que compreendem que umas Forças Armadas têm de ter um nível de credibilidade militar para poderem ser um instrumento minimamente útil em termos de dissuasão de “veleidades” estrangeiras, quer se apresentem sob a forma clássica de ameaças à soberania e independência de um Estado, quer se manifestem sob a forma mais subtil de acções terroristas praticadas no plano interno.

A reforma das Forças Armadas levada a cabo pelo antigo ministro Fernando Nogueira – por acaso ele também militante do PSD – tinha, com algumas imperfeições, deixado as fileiras com a credibilidade ainda aceitável para poderem ser um elemento mínimo de dissuasão do Estado português. O facto de se ter acabado com o serviço militar obrigatório – para satisfazer o clientelismo das juventudes partidárias – encareceu brutalmente todo o custo de funcionamento das Forças Armadas e, em especial, o do Exército, mas tratou-se de uma opção que, discutível, foi aceite pelos chefes militares de então e continuada pelos que se seguiram. Tentar, sobre a reforma do começo dos anos noventa do século passado, reduzir alguns custos sem afectar a operacionalidade, ainda se poderia aceitar, muito embora o funcionamento das Forças Armadas já estivesse, como se costuma dizer, “no osso”. Mas fazer o que o ministro determina – disse bem, determina com a mesma arrogância que um qualquer cabo de guerra pouco entendido em coisas castrenses o faria – determina, dizia, é um absurdo, que vai da existência de uma única Academia para a formação de oficiais do quadro permanente dos três Ramos, até extinção de organismos infra-estruturais de apoio logístico fundamental para a boa vivência das Forças Armadas, passando por unificações funcionais distintas e, às vezes incompatíveis, como seja a dos Instituto Hidrográfico e Instituto Geográfico do Exército ou, ainda, concentrar numa única infra-estrutura os Depósitos de Material dos Ramos, ou estabelecer o isolamento institucional dos Ramos em relação ao Poder político através de só aceitar dialogar com o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, recusando o acesso aos Chefes dos Estados-Maiores dos Ramos. Enfim, é a descaracterização das Forças Armadas! E isto faz-se porque as Forças Armadas não se permitem levar a cabo greves e manifestações públicas de desagrado como acontece com todos os restantes servidores do Estado! Isto faz-se porque as Forças Armadas não alçam a garupa e não dão dois coices no Poder! Isto faz-se porque, embora fortes e com a máxima força interna no país, as Forças Armadas ainda estão dispostas a acatar o que for possível acatar pondo em causa e em risco o bem mais sagrado que elas tem de defender: a independência e a soberania nacionais! A tanto e a tão longe não foram Salazar e o seu braço direito – Santos Costa - na “domesticação” das Forças Armadas. Não se atreveram! Havia medo da reacção da “tropa”, coisa que hoje não existe em nome da “faca de capar” chamada União Europeia!

E mais não digo, porque estou absolutamente incapaz de o fazer sem entrar a dizer toda a casta de disparates que a ponderação aconselha que cale.

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por Luís Alves de Fraga às 09:37


6 comentários

De Fernando Vouga a 07.02.2013 às 16:59

"As concepções delineadas traduzem o total desconhecimento do que são e para que servem as Forças Armadas"

Caro Luís Alves de Fraga

Tal só é possível porque o CMGFA não quis ou conseguiu explicar...

De Luís Alves de Fraga a 14.02.2013 às 09:24

Caro Fernando Vouga,
Embora tenhas razões para não tomar posição em defesa do CEMGFA, ficaria de mal com a minha consciência se deixasse escapar esta oportunidade para o justificar.
Julgo que, por muito que o CEMGFA tenha explicado - e deve ter explicado, porque conheço-o muito bem e sei qual é a sua capacidade de argumentação e de combatividade - o ministro está absolutamente determinado a cortar custos seja como for sem olhar a argumentos, pois também ele alinha na subserviência às imposições estrangeiras que nos calharam em sorte.
Não sei se valeria de alguma coisa, para além da marcação de uma posição pessoal, o pedido de exoneração de todos os Chefes de Estado maior, porque outros viriam que cumpririam as ordens ministeriais já que há gente capaz, até, de, por um prato de lentilhas, vender a mãe.

De Fernando Vouga a 15.02.2013 às 09:53

Caro Alves de Fraga

Obrigado por este seu esclarecimento e, mais uma vez, apreciei muito a sua isenção.

Um abraço

De Loureiro dos Santos a 17.02.2013 às 22:25

Sei que sou suspeito, como militar e como... transmontano. Mas considero a sua análise como a de um português lúcido e preocupado com o seu país.

De Loureiro dos Santos a 17.02.2013 às 22:37

Como militar e como...transmontano, sou suspeito, mas considero a sua análise como a de um homem lúcido que se preocupa com o país. O que me não admira, tendo em vista o seu percurso e as ideias que normalmente defende..

De Luís Alves de Fraga a 19.02.2013 às 10:18

Meu General,
Fico-lhe publicamente grato pelas palavras de V. Exa. que me honram. Tenho procurado manter-me fiel à verticalidade do fio-de-prumo, não negando princípios há muito adoptados e juramentos feitos em consciência e na plenitude das minhas faculdades.

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