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Fio de Prumo



Sexta-feira, 18.11.05

Ser Soldado

Há quarenta anos — e não me tomem por um daqueles saudosistas que tem sempre a certeza de no «tempo dele» tudo ter sido melhor —, na Academia Militar, entre outras coisas, aprendi, logo nos primeiros dias, o valor da vulgar «Palavra de Honra». Aprendi e usei, poucas, mas as vezes suficientes para provar a veracidade da aprendizagem. Eu conto.


Ensinavam-nos os instrutores que a «Palavra de Honra» é um valor inalienável e invulgarmente poderoso. Tão poderoso que, ao dá-la, se esconjuravam todas as desconfianças que sobre o cadete existissem.


A isto, chamo hoje, lição prática de Ética. Não só militar, mas Ética de cidadania.


Uma ou duas vezes, fui acusado de qualquer falta comportamental pelo comandante de Companhia. No entanto, eu não a tinha cometido. Era injusta a acusação e a respectiva punição — que seria pequena, provavelmente, contudo, suficientemente grande para me emporcalhar a folha de matrícula enquanto cadete. Faltavam-me provas que abonassem a minha inocência e, em desespero de causa, repontei delicado, mas firmemente, com o capitão: — Dou a minha Palavra de Honra que não fui eu quem actuou da maneira de que me acusa.


Foi instantânea a mudança de atitude do oficial. Disse: — Senhor cadete, não se fala mais neste assunto. Pode ir em paz. Todavia, não se esqueça que me deu a sua Palavra de Honra.


Mais tarde veio a provar-se a injustiça da acusação.


Naquele Casa ensinavam-se a cultivar Valores que iam para além da simples instrução militar prática e teórica. Moldavam-se posturas na e para a Vida.


Infelizmente, mais tarde vim a confirmar que nem todos os responsáveis por tais ensinamentos os seguiam com o rigor usado na sua leccionação. Isso são outras estórias.


Quase trinta anos depois da minha entrada na Academia Militar fui, agora na Academia da Força Aérea, nomeado professor de Deontologia Militar. Resolvi elaborar uma «sebenta» para uso dos alunos. Julgo que ainda por lá anda. Escrevi-a em pouco tempo, mas foi dos momentos da minha vida, como cidadão e como militar, que mais profundamente desci ao âmago de mim mesmo. Tinha de analisar os meus Valores, os da Sociedade Civil e Castrense, a sua evolução e, acima de tudo, tinha de ter uma plena consciência de quem eram os jovens para quem escrevia. Tinha de me aperceber das mudanças, estudando-as, identificando-as e encontrando novas formas de posicionar com dignidade os futuros oficiais da Força Aérea. No final, fiquei satisfeito comigo mesmo.


Vou deixar, para mera meditação daqueles que me lerem e tiverem paciência, algumas passagens desse trabalho, do qual não me envergonho. Aqui vai.


 


«Lealdade é a qualidade de quem, sem subterfúgios, honesta e francamente, cumpre as obrigações que livremente assumiu.


Interpretando, agora, o dever 3º do Artº 4º do RDM («Respeitar e agir lealmente para com os superiores, subordinados ou de hierarquia igual ou inferior (...)») podemos reformulá-lo dizendo:


Respeitar os superiores, subordinados ou de hierarquia igual ou inferior e agir para com eles, sem subterfúgios, com honestidade e franqueza, cumprindo as obrigações que livremente assumiu, (...).


Note-se como, seguindo a redacção proposta, ressalta mais claro que o militar fica obrigado a respeitar, também, os seus subordinados e a ser, também, leal para com eles; vulgarmente julga-se que a lealdade só é devida aos superiores (trata-se de uma confusão com o conceito de fidelidade «física» (...) que já não é admissível nas Forças Armadas modernas, mas que era tradicional quando o oficial podia «vender» os seus serviços mais os dos subordinados, facto que se manteve em uso, em alguns países até ao começo do século XX e noutros até meados do século XIX).


(...).


Cabe ao subordinado o direito e a obrigação de, frontalmente, interrogar o seu superior sobre a conveniência da ordem, dizendo o que julga melhor e mais próprio. É uma obrigação, porque um comandante deve zelar pelo bem-estar e pela integridade dos seus comandados; é um direito, porque o cumprimento das ordens deve resultar de um acto consciente e não de um condicionamento da vontade (...).


(...).


As grandes mudanças económicas que se verificaram no mundo e, especialmente, em Portugal nos últimos cinquenta anos, foram provocando, lenta mas seguramente, grandes alterações ao nível dos princípios morais — o consumo e o desejo de poder consumir ampliaram, às vezes de uma forma artificial, as necessidades de cada um de nós. Esse aumento do desejo de consumir transformou-se numa exigência de aumento de rendimentos e aquilo que, no princípio era um bom «motor» para que cada um crescesse até ao limite da sua competência e capacidade, tornou-se numa concorrência interpessoal que foi passando por cima da maior parte das barreiras morais tradicionais. O Homem foi perdendo, até, a consciência de estar a ultrapassar essas mesmas barreiras.


A corrosão dos princípios morais tradicionais foi-se tornando tão banal na sociedade que não deixou de penetrar, também, na instituição militar. Todavia, se há grupo humano onde tem de existir um forte sentido moral, esse grupo é o militar. Exige-se uma moral sólida na vida castrense, porque as forças armadas, quaisquer que sejam, têm de funcionar coesas de modo a que assim possam cumprir melhor o seu fim último: defender a comunidade nacional.


O desejo de conquistar o melhor lugar, de atingir mais rapidamente o topo da escala hierárquica, de surgir como o elemento indispensável, são sentimentos que, quando penetram no seio das forças armadas corroem o valor fundamental que gera a disciplina: a lealdade.


Ninguém pode ser leal e, ao mesmo tempo, esperar ultrapassar, por qualquer meio aqueles que, por competência, por maior valor, por mais antiguidade, estão à frente. Nas forças armadas a concorrência tem de ser cautelosamente gerida e, a primeira condição para que tal aconteça, passa pelo desenvolvimento de personalidades bem formadas, as quais têm de admitir a existência da diferença não baseada em pseudo direitos, mas sedimentada na maior capacidade e na melhor preparação.


O chefe militar do presente e do futuro, para poder exigir lealdade, deve ser capaz de a praticar com os seus subordinados, isto é, tem de zelar pelo seu bem-estar, pelos seus legítimos interesses, de modo a quebrar as concorrências marginais que não beneficiam o serviço e prejudicam as relações entre as pessoas; por outras palavras: as obrigações devem ser bem cumpridas, porque são um dever do militar e não porque, fazendo-o, se consegue evidenciar as falhas ou as incompetências dos outros militares.


(...).


Os subterfúgios ao cumprimento das nossas obrigações começam dentro de nós mesmos, só depois é que procuramos encontrar justificações exteriores que expliquem a ausência de verdadeiro empenho.


O homem que já não é capaz de distinguir o subterfúgio ao cumprimento das suas obrigações perdeu o fiel mais importante da vida, porque matou a capacidade crítica ou, se se preferir, deixou morrer a moral dentro de si próprio e tornou-se num ser imoral ou, no mínimo, amoral. Todo o ser humano pode enganar os outros, mas tem por obrigação não se enganar a si próprio


 


Fico-me por aqui. Pensem, se quiserem, os meus leitores militares nas palavras e conceitos que tentei semear; julguem-nas os meus leitores civis para melhor nos compreenderem, compreendendo a Honra de se ser Soldado.


 

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por Luís Alves de Fraga às 10:10


2 comentários

De Anónimo a 19.11.2005 às 01:19

Hoje, um Militar Português deu a sua vida pela Pátria, fez o último dos sacrifícios que um dia Jurou fazer!

O mínimo que os incompetentes que nos (des)governam deviam fazer era estarem calados, numa altura em que nos querem equiparar a meros funcionários! Deviam de ter vergonha e não andar a discutir migalhas quando estão em causa cidadãos detentores de valores que lhes são estranhos.

Pobre País este que não merece alguns filhos que tem!!!António Gonçalves
(http://estoufartinho.blogspot.com)
(mailto:ajlgoncalves@hotmail.com)

De Anónimo a 18.11.2005 às 21:39

Senhor Coronel, amigo Fraga, estou triste, triste e revoltado, enraivecido até. Hoje vi vermes, ouvi blasfémias, heresias, homenzinhos que de Homem nada têm, fingidores, lágrimas de crocodilo, falsos sentidos sem sentimentos...
Proclamações públicas de públicas figuras, figurões, figurinos pagos de um teatro, peça miserável ... Falsos, vendidos, hipócritas!
Montes de esterco, palhaços, gentalha. Como é possível?
Como podem as palavras tanto contrariar os actos???
Santa Bárbara! Quanta barbárie!Camoesas
</a>
(mailto:camoesas@yahoo.com)

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