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Fio de Prumo



Quarta-feira, 09.01.13

Políticos e verticalidade de carácter

 

Manuel de Arriaga foi eleito, em Agosto de 1911, primeiro Presidente da República Portuguesa. Era um velho republicano conservador que repudiava os princípios radicais – entenda-se, modernistas, democráticos e tendencialmente socializantes – da ala republicana chefiada por Afonso Costa. Os primeiros Governos constitucionais da República foram, por iniciativa de Manuel de Arriaga, sempre de “concentração” – palavra usada na época para designar o que hoje chamaríamos “inspiração presidencial” com inclusão de representantes de todas as tendências republicanas – até que, dada a instabilidade gerada, se viu obrigado a, em Janeiro de 1913, entregar o Governo a Afonso Costa, por ser o chefe do partido maioritário no Parlamento. Este governou, sem interrupções, durante doze meses. Nesse ano conseguiu o “milagre” de apresentar uma proposta orçamental com saldo positivo e de ter concluído a execução do orçamento com superavit. Foi um feito que há muitos anos não acontecia em Portugal. Para além desta proeza, Afonso Costa conseguiu continuar a reforma das estruturas ancilosadas do Estado herdado da Monarquia.

Provocaram mal-estar entre a população algumas das medidas, mas o Governo soube ser firme no objectivo que tinha traçado: acabar com a dívida flutuante, manter equilibrado o orçamento e modernizar o país de modo a colocá-lo, tanto quanto possível, ao nível dos Estados europeus do seu tempo. Esta última acção passava por acabar com a influência obscurantista do clero católico junto das populações analfabetas, retirando privilégios adquiridos e impondo a mais rigorosa separação da Igreja do Estado. Houve revoltas populares contra o Governo que conseguiram estabelecer a mais estranha das alianças: juntar republicanos extremistas com anarquistas, sindicalistas e monárquicos. Fizeram-se prisões e impôs-se a ordem enquanto se mantinha a governação no rumo certo. Em Janeiro de 1914, Afonso Costa apresentou no Parlamento a nova proposta orçamental que previa um saldo positivo da ordem dos três mil contos de então. Era obra!

Manuel de Arriaga, nesse mesmo mês de Janeiro, por iniciativa própria e ao arrepio de toda a lógica, enviou aos três chefes dos três partidos republicanos uma carta propondo – espantemo-nos – a formação de um Governo extra-partidário que se ocuparia da elaboração do orçamento, da aprovação de uma ampla amnistia e da revisão da Lei da Separação e que presidiria a novas eleições. Afonso Costa, face a tal afronta, imediatamente apresentou a demissão do Gabinete ainda que, no Parlamento, o seu partido tenha ganho uma moção de confiança. Assim acabou o exercício do Governo que melhores resultados práticos tinha tido desde a proclamação da República.

 

Vem este episódio ao caso, porque, em cem anos, muito variou a postura dos políticos nacionais. Variou o seu carácter.

Passos Coelho, chefe do Governo, não conseguiu cumprir nenhum dos objectivos que anunciou ao país, esmaga os Portugueses sob o peso de um orçamento de roubalheira, ouve críticas de todos os sectores políticos e da sociedade civil, escuta palavras de desconfiança do Presidente da República – o aviso de que a continuar por esta senda agravará a espiral recessiva – e não apresenta a demissão.

Que diferença entre a verticalidade dos republicanos de há cem anos e dos aprendizes de políticos de agora! A um – Afonso Costa – bastou a expressão de desconfiança do Presidente da República para demitir o seu Governo; a outro – Passos Coelho – nem todos os encontrões e safanões do mundo o fazem levantar da cadeira onde pousou o rabo impreparado para as questões da governação.

Foi isto que mudou em Portugal! Foi a falta de vergonha, a falta de carácter, a falta de verticalidade, a ausência de brio e honra. Esta gente não aprendeu nem cultivou valores morais, éticos, cívicos. Esta gente nuca poderá, na História, ombrear ao lado de Homens que sabiam o significado do conceito de honra e vergonha!

Não me falem de Ética quando defenderem os governantes que temos tido! Vão estudar os comportamentos da maioria dos políticos de há cem anos, aprendam com eles, saibam o que é decoro, o que é palavra, o que é dignidade. Não chafurdem nos actos indignos dos que, então, já preconizavam esta mudança! Aspirem o aroma das virtudes republicanas e não os fétidos vapores de todos quantos apregoavam e antecederam a ditadura fascista à sombra da qual as actuais gerações cresceram como cogumelos em terreno pestilento.

Leiam até à exaustão os clássicos republicanos nacionais e percebam os seus ensinamentos. Leiam e tentem seguir exemplos de dignidade. Sinto-me enojado com o panorama da política actual.

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por Luís Alves de Fraga às 11:47



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